DEDILSON
Reginaldo Vasconcelos*
“Acaba de falecer no Hospital de Messejana o promotor artístico Dedilson Martins”. Este anúncio necrológico, nos caracteres da TV, em pleno horário nobre, fez-me refletir sobre a força de vontade, esse instrumento que move montanhas.
Ecoaram pelo meu ser as palavras de Santo Agostinho: “Muito cuidado com o que você realmente quer, pois é exatamente o que você terá”. Em seguida, chamei ao telefone alguns que haviam conhecido o Dedilson menino, para dividir com eles a perplexidade que sentia.

Sobre esse nome brotou um rapaz franzino, que dissentia dos demais da prole, rudos lavradores. Moravam em nossas terras, nas fraldas da represa Lima Campos, imensa família em diminuta choupana de dois vãos, água no pode e pertences em sacos, que a mobília era mínima. Uma velha mesa e alguns tamboretes, o fogão a lenha, uma cama de varas, as redes penduradas nas forquilhas, armadas à noite, umas sobre as outras.


Nesse tempo, início dos 60, a televisão em preto e branco mal servia à Capital. Naqueles ermos, onde sequer chegava asfalto, não havia luz elétrica e toda a informação vinha pelo rádio, sempre à pilha, raramente portátil. Dedilson queria saber sobre Aila Maria, com quem tia Dulce acusava parentesco, para alimentar o seu encantamento. Ele perguntou-lhe certa vez se a cantora usava “película”, confundido o termo “peruca”, de uso recente, com a palavra tradicional para as fitas de cinema.
Enfim, enquanto os irmãos lutavam contra as secas, Dedilson sonhava com a mídia: os salões da sociedade, os palcos artísticos, as passarelas coloridas. Veio, viu e venceu, dedicando sua vida ao sonho de menino.

Certa vez, depois de uma festa que pouco rendera, quase foi espancado pelos músicos. De outra feita, o cantor Aguinaldo Timóteo, contratado por ele, fracassado o show, levou-o às barras da Justiça. Mas Dedilson, vocação imperiosa, pobreza franciscana, não desistia. Até que a doença o prostrou.
Mal curado de tantas mazelas juvenis, inclusive uma tuberculose violenta, os pulmões não mais arejavam suficientemente o corpo raquítico. Silvana Portugal, linda e nobre mulher cuja beleza adolescente ele revelara em seus concursos, solitária e solidariamente prestou-lhe assistência. Sem ter nada de seu, além de um radinho de pilhas sempre à cabeceira, ele fez à amiga um último pedido: não o deixasse “descer à pedra”, a lousa anônima em que se retalham os indigentes nas faculdades de medicina.


*Reginaldo Vasconcelos
Advogado e Jornalista
Titular da Cadeira de nº 20 da ACLJ
Nenhum comentário:
Postar um comentário