sábado, 26 de dezembro de 2015

CRÔNICA - Joga Pedra na Geni! (HE)


“JOGA PEDRA NA GENI !”
 Humberto Ellery*

Alguém, não lembro quem, me alertou para um absurdo ocorrido na madrugada do Leblon, na saída de um bar (saudades de Ipanema!).

Alguns coxinhas* de direita teriam hostilizado o grande artista Chico Buarque, pelo simples fato de ser ele petista. Por essa informação, ainda meio truncada, imediatamente concordei: qualquer agressão é absurda e intolerável, principalmente se o motivo for decorrente de divergências políticas, que devem ser discutidas em nível elevado e com argumentos plausíveis.

Cheguei em casa e fui direto para o YouTube: o que eu vi foi uma discussão tola, muito corriqueira, entre frequentadores da noite, depois de alguns birinaites.  Nada demais. Um bate-boca, em termos até educados, para um grupo naquele estado etílico.

Um dos coxinhas, em tom de lamento, chega a ser até amigável ao dizer: “Pô, Chico, todo mundo era teu fã!”. Seria isso uma agressão? Eu, pessoalmente, já fui muito mais insultado de fascista, nazista, idiota, fora termos mais suaves como tucano, direitista odiento, antipetista raivoso, reacionário, o escambau.

E eu não sou nada disso. Não discuto política com o fígado, mas com o cérebro.  Raiva, eu prefiro provocar a sentir, que é mais gostoso! Mas fiquei estarrecido com a falta de argumentos de alguém, tido por alguns como um gênio, quando um dos coxinhas da discussão diz que o PT é bandido (uma generalização inaceitável, embora próxima da realidade).

O gênio respondeu: “E o PSDB?”. Pelamordideus! Eu esperava mais do grande gênio. Que falta de argumentos, que infantilidade! Parece coisa de menino: “Meu pai é feio, mas o teu também é!”.

Mas eu deveria já estar preparado para isso, raciocinando a partir de sua incensada subliteratura, com seus “merecidos” prêmios Jabutis. O tal “Leite Derramado”, não consegui passar do terceiro capítulo; enfadonho, chato. Mandei pra frente, no primeiro “amigo secreto”.  E olha que adoro livros. Livros, bien sûr.

Mas continuo admirador de obra musical do Chico Buarque – apesar de bobagens como a recente “Mulher sem orifício”. Como disse Charles De Gaulle, a propósito da covardia do velho herói da I Guerra, o Marechal Petain: “A velhice é um naufrágio...”

O fato de ter o Chico um apartamento em Paris, a que o grupo que o abordou se referiu, mais precisamente no exclusivíssimo endereço da Île de Saint-Louis (cinquenta mil euros por metro quadrado), não interessa a ninguém. O dinheiro que ele amealhou foi legítimo, honestamente adquirido, pessoas compram ingressos caríssimos para suas apresentações, compram seus discos, compram até seus “livros”(argh!).

O inaceitável é usar dinheiro do povo para promover a tradução de um de seus livros para o coreano; é receber R$ 4,4 milhões da Lei Rouanet para fazer um filme de autolouvação; é intermediar para conseguir com a mesma lei R$ 800 mil para uma tourné de sua jovem namorada, mais R$ 1,5 milhões para um projeto musical do genro Carlinhos Brown. Isso é tirar dinheiro da saúde pública, da educação, da segurança, e doar para os “amigos do rei”  – um Robin Hood às avessas.

NOTA DO EDITOR:

*Coxinha é um termo pejorativo, usado na gíria e que serve para descrever uma pessoa “certinha”, “arrumadinha”. Tendo a sua origem em São Paulo, a palavra coxinha quase sempre tem sentido depreciativo, e indica um indivíduo conservador, que é politicamente correto e que se preocupa em adotar comportamentos que são aceitos pela maioria das pessoas.   

DUETO
Chico Buarque

Consta nos astros, nos signos, nos búzios/
Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás/
Serás o meu amor, serás a minha paz/

Consta nos autos, nas bulas, nos dogmas
Eu fiz uma tese, eu li num tratado, está computado nos dados oficiais/
Serás o meu amor, serás a minha paz/

Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário nos contrariar/ 
Mas se o destino insistir em nos separar/

Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas/
Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos/
Profetas, sinopses, espelhos, conselhos/
Se dane o evangelho e todos os orixás/
Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz/

Consta na pauta, no Karma, na carne, passou na novela/
Está no seguro, pixaram no muro, mandei fazer um cartaz/
Serás o meu amor, serás a minha paz/

Consta nos mapas, nos lábios, nos lápis/ 
Consta nos Ovnis, no Pravda, na Vodca.../

NOTA ACADÊMICA - Natal na Tenda Árabe


NATAL NA TENDA ÁRABE

A confraternização natalina na Tenda Árabe, na noite do dia 24, contou com boa representação da ACLJ, entre acadêmicos e seus familiares. A reunião teve início, como todos os anos, com a colocação da imagem de Menino Deus na manjedoura do presépio, pelas senhoras mais idosas do recinto.


O Presidente em Exercício, Reginaldo Vasconcelos, e o Presidente Emérito, Rui Martinho Rodrigues, acompanhado da Profa. Josefina (que representou a nossa ala feminina da Academia), disse presente. Antes do tradicional “Pai Nosso” coletivo e da ceia que se seguiu, o Prof. Rui fez uma rápida prédica sobre o sentido verdadeiro do Natal, à luz da tradição cristã, e segundo a sabedoria contida em alguns versículos da Bíblia.


Também participaram do nosso ágape natalino o Membro Benemérito Evaldo Gouveia e a sua consorte, a advogada Liduina Lessa, e a ele compareceram ainda os confrades Adriano Vasconcelos e Altino Farias, o qual comanda a Embaixada da Cachaça, o pub e boutique de delicatesses e bebidas finas funciona, em espaço próprio. 


Naturalmente comprometidos com as reuniões noelinas de suas respectivas famílias, fizeram-se virtualmente presentes à ceia acelejana, por meio de mensagens e telefonemas, vários acadêmicos.

Entre eles Marcos Maia Gurgel, Arnaldo Santos, Paulo Ximenesm Roberto Martins Rodrigues, Vianney Mesquita, Humberto Ellery, João Pedro Gurgel e Vicente Alencar. O radialista Alexandre Maia, detentor da Comenda Durval Aires, um colaborar constante, era conviva entre os presentes, com a filha Hanna Maia, bacharelanda em Direito.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

POEMA NATALINO - Nada Era Dele (RMR)

NADA ERA DELE
(Autor Desconhecido)
Rui Martinho Rodrigues*


Inspirado em Stanley Jones

Disse um poeta um dia, fazendo referência ao Mestre amado:

"O berço que Ele usou na estrebaria, por acaso era dEle?

– Era emprestado!

E o manso jumentinho, em que, em Jerusalém, chegou montado
e palmas recebeu pelo caminho, por acaso era dEle?

– Era emprestado!

E o pão - o suave pão que foi por seu amor multiplicado, alimentando toda a multidão – por acaso era dEle?

– Era emprestado!

E os peixes que comeu junto ao lago e ficou alimentado, esse prato era seu?

– Era emprestado!

E o famoso barquinho?

aquele barco em ficou sentado, mostrando à multidão qual o caminho, por acaso era dEle?

– Era emprestado!

E o quarto em que ceou ao lado dos discípulos, ao lado de Judas, que o traiu, de Pedro, que o negou, por acaso era dEle?

– Era emprestado!

E o berço tumular,
depois do Calvário, foi usado e onde havia de ressuscitar, o túmulo era dEle?

– Era emprestado!

Enfim, NADA era dEle!

Mas a coroa que ele usou na cruz e a cruz que carregou e onde morreu, essas eram, de fato, de Jesus!”

Isso disse um poeta, certo dia, numa hora de busca da verdade; mas não aceito essa filosofia
que contraria a própria realidade...

O berço, o jumentinho e o suave pão, os peixes, o barquinho, o quarto e a sepultura,
eram dEle a partir da criação, “Ele os criou” – assim diz a Escritura...

Mas a cruz que Ele usou

– a rude cruz, a cruz negra e mesquinha onde meus crimes todos expiou, essa não era Sua, ESSA CRUZ ERA MINHA!


ARTIGO - Universidade Manancial de Fé (VM)


U N I V E R S I D A D E Manancial de Fé
Vianney Mesquita*


Não aprovo absolutamente o conceito a exigir que uma pessoa saiba um pouco de tudo. Saber superficialmente é conhecer quase sempre inutilmente, e, às vezes, perniciosamente. (LUCAS DE CLAPIERS, Marquês de Vauvernagues. (Y06.08.1715 – 28.05.1747 – 32 anos)



Muito afamada sentença do insuperável poeta indiano Rabindranath Tagore, o Gurudev (Calcutá, Y07.05.1861 – 07.08.1941  80 anos), poder-nos-á propor uma símile da Universidade – no seu perfil brasileiro de hoje – reclamada, açulada, combatida, invejada e insultada: O eco zomba de sua procedência somente a fim de provar ser ele o original.

Parece dar-se de ser, também, exatamente esta a reflexão diuturna da origem acadêmica, em toda repetição, invitando a originalidade, no desprezo de cada experiência, nas mais das vezes ao desconsiderar os valores agregados no longo e penoso curso de seu exercício.

Neste senso, o som multiplicado, figurativamente reproduzido, eo ipso, significa o referencial de procedência, o sítio desde onde a Instituição se há que dirigir.

Divisada com suporte nesta figura da literatura bengali, salvante aquela postada como excesso de criações irresponsáveis dos derradeiros tempos, a Universidade – me reporto em especial às da União e aos institutos federais – se exprime inovada, exaustivamente estudada, experimentada, revolvida nos seus inumeráveis conceitos. Defeso, contudo, tal como sucede no tropo tagoreano, é postegar a base acumulada de suas experimentações, como tributária da comunidade que a preparou. Não seria suficiente afastar conceitos, como se todos resultassem anacrônicos, e industriar concepções criativas, a fim de estabelecer o absolutamente novo, no que se não pode cogitar. Todo novo vem de um ovo – é um aforismo popular.

O que nos cumpre, a nós estudantes, servidores e docentes, envolvidos numa densa massa de incompreensões e malquerença de setores da sociedade nacional, em que se inclui de modo lamentável o Governo, é cuidar para que nossa responsabilidade se não possa esvair, arrastada pela onda de pessimismo e míngua de fé relativamente ao poderio do Estado, configurado na instituição acadêmica, e à inteligência do cidadão.

Cada escorrego, pois, deverá constituir empenho para outra escalada. Que toda claudicância enseje nova investida, considerando a máxima camoniana segundo a qual É fraqueza desistir da coisa começada, no exercício de uma democracia limpa, cristalina, respeitosa e esquerda aos excessos tão comuns nas suas diversas compreensões.

Legitimamente, ao apagar do lume solar de 2015, no status quo sob curso e premidos por escândalos de mensuração custosa, convenhamos, é difícil raciocinar positivamente. Passada, entretanto, a borrasca, ao hálito brando do zéfiro de uma democracia circunspecta, impende-nos a todos incutir na sociedade brasileira a verdade consoante a qual é possível reverter o quadro, mal bosquejado, do desenvolvimento e da comodidade nacionais no trânsito pela intelligentsia latente da Universidade.

É de nosso cometimento fortalecer a pesquisa para produção de ciência e tecnologia, sem, contudo, preterir o pensamento, tampouco esconder a arte, estimulando a poética e considerando as humanidades, numa movimentação anímica, para o exercício continuado da vida em todas as suas facetas lícitas e salutares.

A vitalidade da Academia repousa na sua prática e no automovimento. Não é coisa estanque, que se baste periodicamente. A propósito, o professor estadunidense de Harvard, Henry Brooks Adams, expressou, com propriedade e nexo, não haver algo... que mais assombre na Educação do que a quantidade de ignorância que ela acumula sob a forma de fatos inertes.

Conforme é a vida, a Universidade resulta processual, motora e receptora, produz e acolhe, ensina e aprende, aproveita, inova, progride e retorna para se avaliar e perlustrar sua trajetória, a qual há de ser triunfante.

Todos somos contrários à curvatura, em virtude das dificuldades momentâneas. Preferimos obedecer à famosa parêmia latina – Flexo, sed non frango  pois, envergando sem se quebrar, votamos pelo desafio. A administração inteligente e corajosa das crises traz sempre soluções de vanguarda, e disso a letra da História é repleta. Serão desnecessárias a desobediência civil e a bravura indômita e inconsequente. O repto consta principalmente da decisão de fazer por caminhos inteligentes e meios pacíficos.

É inteligente e pacífico cobrar sempre dos órgãos oficiais – e publicamente – posições relativas à Educação. Resta inteligente, pacífico, hábil e sereno, também, verberar de todas as tribunas os descasos dos mais elevados setores da Gestão Pública para com o povo, a fim de comporem querelas políticas e individualismos partidários insatisfeitos, em detrimento da existência nacional, como se os grêmios não devessem servir à Sociedade.

É inteligente, pacífico, veemente e justo se empreender a defesa da Universidade das críticas de encomenda que lhes são impatrioticamente assacadas pelos portentos da numisma e partidários da ignorância – aqueles tão pobres, que o bem único possuído é o dinheiro – na esperança de que as IES se dobrem aos seus ataques e deixem de cumprir seu papel, ao abandonar projetos de excelência e retornar ao modelo de escolão de segundo grau, facilitando a sanha exploradora de quem interessa o marasmo e aproveita a paralisação do ensino, pesquisa e extensão. A crítica à “ineficiência” proclamada da Universidade é pérfida.

Não é, porém, aceitável a pecha de desordenados, inoperantes e desleixados. Os erros são reconhecidos, grandes equívocos e omissões em boa parte. É confessado, no entanto, o fato de que, em meio a ondas de corrupção que grassa como lesa-pátria há longos e esticados anos, quase culturalmente arraigada na tradição administrativa brasileira oficial, sua Universidade Pública resta quase infensa aos tentáculos da desonestidade funcional, sujeita, com grande tranquilidade, às incessantes auditagens dos órgãos de controle das quatro esferas de Governo – União, Estados-Membros, Distrito Federal e Municípios – que, aliás, quase as não deixam trabalhar.

Sobra inteligente e pacífico e veemente e justo e urgente que se exija sejam as universidades públicas autônomas e continuem gratuitas. As instituições acadêmicas não podem se atrelar aos ditames exclusivos do Poder Central, pois ele a não conhece, e ser gratuita permanecerá como o grande dever do Estado.

Enfim, sobeja inteligente e justo que as instituições saibam valorizar seus recursos humanos, nas atividades-fim e meio, hoje amplamente qualificados, com mestrado e doutorado, a fim de que, unidos num só corpo, possam seguir com tranquilidade o seu caminho e firmar sua história, Sine ira et studio – “sem cólera nem parcialidade” – como tencionava Públio Cornélio Tácito (56–117) para sua Ciência Histórica.

Natal de luz, Nascimento de lucidez para o povo brasileiro.


POEMA - Natal (VA)

NATAL
Vicente Alencar*


Dobram os sinos,
Os homens estão serenos.
alegres,
Comemoram o nascimento de Jesus!
É Natal,
Uma data que nos envolve e nos emociona,
Ano a ano,
Há 2015 anos.
Todos nós, aqui presentes,
Os ausentes,
Os que não escutam,
Os que não enxergam,
Os filhos,
Os pais,
Os fiéis,
Os infiéis,
Os brancos,
Os negros,
Os amarelos,
Todos aqueles de todas as cores
E de qualquer credo.
O Natal é o traço de união da humanidade.
Que neste 25 de dezembro,
Dia do nascimento,
Dia da natalidade,
Ele derrame sua graça sobre toda a gente
E nos faça sentir a felicidade de Deus Pai,
Na data maior do seu Filho.
Dobram os sinos,
Todos não são tão pobres para dar,
Nem tão ricos para receber.
Todos são filhos de um mesmo Pai,
De um mesmo Deus,
Num mundo marcado pelas diferenças
Em 364 dias!
Num mesmo dia, no Natal,
Todos se unem
Para uma mesma comemoração!
Que a mensagem de Deus,
Derramando felicidade
Nos corações de todos os seres,
Seja,
Também,
A nossa mensagem de alegria,
De nascimento de um novo momento,
De uma nova vida!
Boas Festas!


quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

CRÔNICA - Gustavo Barroso (RV)


GUSTAVO BARROSO
Reginaldo Vasconcelos*


Por artes de João Batista Jacó, que me indicou a obra, e de Olavo de Lima, que me a emprestou, leio as memórias de Gustavo Barroso, logo após ter concluído este meu segundo tomo. Achava o Jacó algumas conexões entre pontos abordados no meu Volume I, e assuntos desenvolvidos pelo grande escritor cearense. Não somente porque livros de memórias sejam todos, entre si, variações sobre o mesmo tema: as miudezas pueris, as lutas da juventude, os louros da maturidade; a ciência da vida é uma somente.

De fato, para honra e júbilo de minha humilde pessoa, traços semelhantes de caráter provocam-nos alguma paridade na maneira de pensar e de dizer – homens nascidos e obras lavradas com meio século de distância. No entanto, as coincidências históricas vão além, não apenas pelo fato de termos vivido os nossos dias sobre o mesmo torrão.

A primeira cerveja e seu amargor medicinal foi, para ele e para mim, digna de citação. O interesse por cavalos, declarado e decantado, bem como o culto às boas amizades, nos faz ostentar distintivos idênticos. Divergimos quando ele deplora os judeus, afirmando que são “vermes”, e portanto não são gente.

Ouvi uma vez a mesma afirmação com relação aos alemães, da boca do Cônsul Boris, herói da Resistência Francesa, testemunha do holocausto, apontando-me um navio germânico no cais de Fortaleza.

Não sou racista nem xenófobo, mas é fácil situar-me entre a etnia de Cristo e a nacionalidade do anticristo, que só nasceu na Áustria por dissimulação. Aliás, por dissimulação da minha família não porto hoje um sobrenome judeu – Klein, pequeno em holandês – que traduziram para fugir das perseguições antissemíticas do Marquês de Pombal. Gustavo portava o Dodt do seu ariano avô materno.

Coincidimos, no entanto, nas várias atividade gráficas exercidas: as letras, o desenho, a fotografia. Tenho também a mesma vocação náutica e militar, embora haja espancado de mim essas tendência muito cedo, pois no mar e nos quartéis não há mulheres, e eu não vivo sem elas.

Como Gustavo Barroso, tive também a minha fase de aluno exemplar, entre os primeiros da classe, e um período de estudante rebelde, brigão e gazeteiro, tendo sido “bicho tímido” no princípio, alfabetizado por pessoa da família, lançado de repente entre os diabretes de um colégio, sem irmão mais velho que me prestasse proteção.

“Barrosinho” encontrou a solidariedade veterana no colega Antônio Pompeu, enquanto eu, no primeiro dia de aula, fui recebido pelo filho e homônimo do advogado do meu pai, Sílvio Magalhães, menino franzino, mas valente como o causídico genitor: “Se algum aluno maltratar você, é só me dizer que eu arrebento a cara dele”.

Tracemos um paralelo entre personalidades citadas, lá e aqui, a começar pelos velhos professores, Lino da Encarnação, estimado mestre de Gustavo Barroso, e Odilon Braveza, diretor do meu colégio São João, respectivamente desenhados por ele e por mim com extrema semelhança. Depois, o seu grande amigo Antônio Pompeu, bisavô do meu primo Eduardo, este que é hoje o meu maior amigo e confidente.

A seguir, os filhos do Barão de Studart, com os quais ele gostava de brincar, cujos netos desses filhos vieram a ser meus alunos de judô. Por fim, o seu primo apelidado Guabiraba, cujo descendente João Isidoro, já com esse sobrenome de batismo, veio a ser meu companheiro de trabalho nos escritórios do Detran.

Quanto a lugares referidos, comecemos pela Praia do Peixe, a mesma de Iracema, em cujas areias e marés e diques e pontes fomos meninos, ele e eu. Depois, as frescas matas da Paupina, no derredor de Messejana, onde os seus tiveram um sítio, e os meus tiveram outro, quem sabe quão próximos entre si, cujas lagoas e riachos nos banhavam, em cujos caminhos nos perdíamos com os nossos cavalos e os nossos moleques, perseguindo passarinhos e calangros.

No meu tempo de menino, embora tão perto da cidade, a Paupina era ainda quase virgem, sem luz elétrica e com estradas carroçáveis interrompidas no inverno.

Finalmente, a Chácara Baixa Preta no Benfica, pertencente ao pai de Gustavo: posso ter sido proprietário de uma fraçãozinha dela, quando adquiri uma casa situada onde teriam sido os seus terrenos, se nos orientarmos pelo roteiro descrito, a partir da Fundição Cearense, que já perfura mais de século e não se locomove.

Mas  se por acaso o meu imóvel não foi no passado parte daquele, por estar mais à esquerda, aquele se confunde com o sítio Tebaida, que ainda conheci, onde morou por algum tempo a família de minha mãe.

Dito isto, peço vênia ao Professor Soriano Aderaldo, que compilou aquelas memórias e as comenta em pés de página, para deixar a Gustavo Barroso a minha mensagem metafísica:

Costumo ditar textos e gosto que me façam leituras para evitar a sozinhês” da atividade literária. Assim, sorvi os teus livros de memória, condensados em um só, ao volante do meu carro, através dos cenários da tua juventude, pelas vias em que inauguraste a pequena machambomba Pic-Pic, o primeiro automóvel do Estado.

Fi-lo com o vagar da degustação, como se esquipasse no cavalo Menelik, pela Rua Formosa, pela das Flores, pela do Chafariz, pela Ladeira do Gasômetro, junto ao Passeio Público.

Desci às umidades da Sabiaguaba, subi as vielas sinuosas do Baturité, rumo aos frescores do teu Pacoti. Perlustrei as lagoas de Messejana e Porangaba ouvindo os teus textos.

Bordejei o litoral que adoravas, hoje todo urbanizado, desde o Porto das Jangadas do passado até a atual Praia do Futuro, petiscando aqui e ali, a intervalos da leitura, os frutos multicores do nosso verde mar, que tão bem descreves.

Armado de revólver, penetrei com a família na Paupina, transformada em favela infecta e perigosa, em busca das paragens da nossa infância, encontrando em ruínas o sítio em que vivi. Quem sabe, nessa leitura itinerante tenha eu tangenciado também o Sítio Água Boa, de localização imprecisa, que te parecia o Céu na Terra, como foi para mim a Fazenda Bom Lugar.

Foram-se os antigos que  conheceste, ficaste antigo e te foste também. Deixaste, no entanto, para os pósteros o livro-razão dos haveres da tua alma. Fico por aqui mais um bocado, tentando gozar a vida, por mim e por dois amigos que se foram mais cedo, e agora um pouco por ti, que amaste tanto a nossa terra. Espero, enfim, que estejas em paz, ao lado do Pai, redimido com o Filho, Iesus Nazarenus Rex Iudeorum.


(Do livro Traços da Memória, Laços da Província – Volume II – Reginaldo Vasconcelos - Multigraf Editora – 1993)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

MENSAGEM NATALINA - 2015


ARTIGO - Manuel Bandeira (VM)


MANUEL BANDEIRA
Batista do Modernismo Nacional
Vianney Mesquita*


O poeta é como o Sol; o fogo que ele encerra é quem espalha a luz nessa amplidão sonora [...]. Queimemo-nos a nós, iluminando a Terra! Somos lava, e a lava é quem produz a aurora! (ABÍLIO GUERRA JUNQUEIRO).


Perfaz-se no 2016 entrante (13 de outubro) o aniversário de 48 anos de passamento do festejado poeta recifense MANUEL Carneiro de Sousa BANDEIRA Filho, ocorrido no Rio de Janeiro, nato que foi na Mauriceia, em 19 de abril de 1886.

MÁRIO Raul de Morais ANDRADE – nome completo para não se estabelecer embaraço com o agrônomo e escritor (YFortaleza, 05.10.1910 – 05.02.44) Mário Kepler Sobreira de Andrade, o Mário de Andrade do Norte – chamou a Manuel Bandeira, e com muita propriedade, de São João Batista do Modernismo brasileiro, conquanto o extraordinário rapsodo de Libertinagem não haja participado da Semana da Arte Moderna, em fevereiro de 1922.

Ao polígrafo, musicólogo e crítico paulistano assistiam sobradas razões para anotar a denominação, porquanto Bandeira foi dos primeiros a escrever produções poemáticas em antecipação ao novo moto e renovado espírito da poética nacional, ao empregar o verso branco com excepcionais desenvoltura e beleza. Bem atestam esta asserção seus produtos anteriores a 22, especialmente Carnaval (1919  quem não conhece “Os Sapos”?), uma das primeiras peças do movimento modernista.

Avesso ao “lirismo funcionário público” – decerto em alusão aos exageros oficiais da forma romântico-parnasiana – “com livro de ponto e manifestações de apreço ao Sr. Diretor” – como ele próprio disse – preferiu aquele “difícil e pungente dos bêbados – o lirismo dos clowns de Shakespeare”.

Conforme exprime, entretanto, Otto Maria Carpeaux – em Origens e Fins, de 1943 – esse lirismo será revelado, além dos versos românticos, como em A Cinza das Horas. A força interventiva da inteligência crítica, batendo de frente com a sensibilidade analítica profundamente romântica de Bandeira, haverá de produzir o humor, o qual demarcará suas estrofes com a autoironia, consoante ocorreu em Pneumotórax, contrapondo-se à selfpity do romantismo. Foi isso mesmo o que aconteceu.

Ressalte-se (quando do ensejo da comemoração dos seus 130 anos de nascimento, a ocorrer em 19 de abril do ano vindouro) o fato de que, sob ângulo novo, intocado pelas centenas de fontes que o já estudaram, no Brasil quanto no Exterior, é custoso discorrer a respeito do produto literário e acerca do invejável caráter do Vate pernambucano, este poeta da simplicidade, na vida e na poesia.

O que se pode e deve, ainda, dizer de Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho, sem se incomodar com a repetição dos torneios, noutras estruturas, mas com semelhante mensagem, é que seu ecletismo na senda literária – poesia, música, crônica, crítica, tradução, ensaio et reliqua – legou-nos a abundante e qualificada obra, tangida “[...] pelas velhas liras e harpas elegíacas do tempo em que as cruzes, os ciprestes, os rochedos e a lua pertenciam aos românticos”. (GRIECO, in MENEZES, Raimundo de. Dicionário Literário Brasileiro. São Paulo: Saraiva, 1960, p. 162).

Pela relevância do Escritor pernambucano na literatura – vem de novo Carpeaux – e ele feito poeta, porém, não seria justo levá-lo a um plano menor, em razão da prosa cristalina dos seus ensaios, peças de crônicas e de memórias. Impõe-se destacar, também, completa o Crítico e jornalista austríaco, naturalizado brasileiro, sua produção como escritor didático em várias seletas e, acima de tudo, sua importância como tradutor de poesia, responsável pelas melhores versões de Johann Christian Friedrich Hoderlin, Friedrich Schiller, William Shakespeare [...] de Sóror Joana Inês de la Cruz e de Omar Khayann.(OP. CIT).

A extensão e a axiologia humanista-humanitária da produção de Manuel Bandeira configuram glória da espécie humana, das melhores obras de Deus, fortalecido (quem sabe) o seu espírito pela tísica que lhe assomou profunda aos tenros 17 anos, pela verdadeira peregrinação por Campanha, Petrópolis, Teresópolis, Fortaleza, Maranguape (Maracanaú), Uruquê e Quixeramobim; pelo retiro forçado a Clavadel, tudo aliado aos sucessivos passamentos de entes queridos de primeiro parentesco, ocorridos ao seu retorno ao País em 1914.

Em Clavadel – Suiça, o também letrista musical Bandeira – escreveu poemas para Francisco Mignone, Villa-Lobos, Ari Barroso, Camargo Guarnieri e outros – encontrou o escritor francês Paul Éluard, a quem nosso Poeta confessou dever “a revelação do amor à poesia e suas possibilidades”. (APUD MENEZES, ÍDEM).

Em tal acidentada e mórbida existência, que lhe educou o corpo ao clarificar o espírito, o bom aluno de João Ribeiro encontrou no Morro do Curvelo – Santa Tereza – Rio de Janeiro – o poeta Ribeiro Couto, com quem travou grande amizade.

Dele expressa Monteiro: porque era bom, “notável pela exemplaridade e singeleza [...] desinteressado dos bens materiais e voltado exclusivamente para os fins da criação literária”, o Autor de Vou-me embora pra Pasárgada em tudo bebia o bem e espalhava sua aura de bondade, sua habilidade, sua destreza em tanger a literatura com temas universais. É

O poeta que brinca, o poeta que lança no ar, de vez em quando, um ou outro poema que é puro divertimento, é ao mesmo tempo aquele que tem dado à poesia brasileira algumas das notas de mais profunda ressonância, de mais amarga tristeza, e de mais séria contemplação da vida. (MONTEIRO, Adolfo Casais. Manuel Bandeira. Lisboa, s.ind. pg., 1943).

Viveu doente do corpo e saudável do espírito, com grande intensidade. Sua poesia é inspiração dos céus, é obra a perpassar o tempo tocando corações de todas as gerações. Sua extensa e eclética produção, versátil de sentimentos, temas e processos poéticos, é exemplo de tenacidade, inteligência e talento, de humanidade método, força de vontade e bonomia, qualidades em declínio nestes tempos difíceis, que nos tangem para distante da poesia, da lua, ciprestes e rochedos, a que aludiu Grieco em passagem anterior.

Não há quem logre, entretanto, nos tanger para longe de Libertinagem, para distante da Última Canção do Beco ... (MESQUITA, Vianney. In Impressões – Estudos de Literatura e Comunicação. Fortaleza: Agora, 1989. 175 pp).

Obrigado, poeta, sábio, semideus. Vamos de novo reler Profundamente, beber profundez nos seus ensaios, aprofundarmos nos seus conselhos, embelezarmos em suas estrofes. E aprendermos com sua vida.

Gratidão a você – Manuel Bandeira, do Brasil!