SECA:
DRAMA SECULAR
Sem medir as palavras e sem qualquer cerimônia, um abastado
fazendeiro da região central do estado, influente político,
jactava-se de sua prosperidade: “A
seca continua sendo o melhor negócio, pois ela sempre me rendeu mais do que a
chuva”.
Do ponto de vista socioeconômico, vê-se o porquê da
inexequibilidade da reforma agrária na região nordestina. As chuvas contrariam
o subjugador que explora o incauto sertanejo sob a ótica política e financeira.
Abertura de frentes de serviços, distribuição de alimentos, construção
de açudes e outros itens provenientes de recursos públicos são meros
paliativos. Muitas vezes, servem mais às propriedades privadas do que às
comunidades desassistidas.


Parece, no entanto, que o quadro apenas sensibiliza o brasileiro
nos versos de tristeza e dor, como os descritos em “Asa Branca”, “Último
Pau-de-Arara” e “A Triste Partida”, de Patativa do Assaré.
As tomadas de tevê e
as cenas cinematográficas retratam a desolação de terras queimadas, o pedido de
água em volta dos carros-pipa. Os rebanhos morrem de fome. Os que sobrevivem
mal movem suas carcaças. O agricultor depõe a enxada de braços e semblante
escarnados. São símbolos da miséria e da seca nordestina que não podem ser vistos como
coisa do destino.
É inaceitável o perpetuar desse drama, em que se testemunha a
perda de plantações, de empregos, de vida; existências destroçadas alcançam o
mais baixo grau da indigência humana – vergonha nacional, em virtude da ação
criminosa de muitos.
O mais degradante é que tudo se desenvolve sob o pálio de uma
constituição que considera primordiais a cidadania e a dignidade e, por ironia,
ainda fala na erradicação da pobreza e da marginalidade. Inclusive, cuida de
incentivos específicos ao desenvolvimento e à redução das desigualdades nas
regiões sujeitas às secas periódicas.
Onde se acha, então, o estado de direito, que deve respeito ao
cidadão, sobretudo a obediência aos direitos sociais e coletivos? Não
há mais o que se estudar sobre a seca. Trata-se de um fenômeno da natureza, ao qual
se deve adequar.
Ao ser humano só não é possível ressuscitar os mortos,
transformar a água em vinho e manter a vida sem oxigênio. Há de se reprovar, ao
longo do tempo, a incúria e as promessas mal-intencionadas que se fazem ante a
boa-fé e a ignorância do povo.
No império Pedro II, e, na República, presidentes visitaram, em tempos de inclemência, o Ceará.
Prometeram erradicar a tragédia secular mediante a transposição das águas do São Francisco e um programa educativo. Essa iniciativa foi retomada hoje, sem que se chegue a um consenso para sua efetivação.
Prometeram erradicar a tragédia secular mediante a transposição das águas do São Francisco e um programa educativo. Essa iniciativa foi retomada hoje, sem que se chegue a um consenso para sua efetivação.
A seca é e será insolúvel com ações paliativas. O seu problema,
como vem sendo tratado, manterá o estágio de pobreza extrema, morrendo pessoas
de sede, inanição e epidemias, conquanto os que se dizem humanos se comprazam
com a falta de água, benéfica à corrupção e moeda de barganha no processo
eleitoral. Manietar os desavisados pelos cordéis da ignorância tem peso
considerável e, muitas vezes, é decisivo na escolha da representação popular.
A miséria nordestina não pode ainda ser tratada como questão de
caridade pública, pois, com ela, ocorre a perda da identidade, a reificação do
homem, que se conforma com um auxílio, como o “bolsa-família”, para se perpetuar
na pobreza e na ociosidade.

Por Paulo Maria de Aragão
Advogado e Professor
Cadeira nº 39 da ACLJ
Em 14.03.13
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