As palavras, e principalmente as expressões idiomáticas, nascem, vivem e envelhecem. Algumas vezes morrem, mas algumas delas duram muito, geralmente mudando de cara, de pronúncia, de sentido.
Ninguém sabe hoje, por exemplo, por que se diz “lavar a burra”, expressão de uso ancestral que ainda vigora e que corresponde a “se dar bem”, no moderno falar da juventude.
Pode ser referência ao baú em que os antigos guardavam o dinheiro, uma antiga versão do cofre, que se chamava “burra”; o verbo “lavar” pode estar aplicado no sentido de seu transbordamento.

Assim, lavar a burra, inicialmente, referiria especificamente à fortuna financeira. Mas essa é ainda uma interpretação muito forçada.
Mais plausível pode ser uma alusão velada à zoofilia dos rapazes do passado, que, quando incumbidos de lavar as montarias fêmeas, tinham o “privilégio” de fazer uso erótico delas.
A zoofilia é algo muito tosco para os atuais civilizados, porém, mormente a equina, é prática corriqueira em milênios de evolução da humanidade – ainda em voga pelos cafundós deste Planeta.

As novas gerações não convivem mais com filmes para fotografar, nem para produzir vídeos, tudo hoje convergindo para os métodos eletrônicos. Aliás, os modernos aparatos digitais que fotografam e gravam vídeos, não são “câmaras”. Câmaras eram apenas as antigas máquinas, dotadas de uma caixa escura onde os filmes eram expostos às imagens selecionadas e admitidas pelo obturador da lente.
Os mais jovens também não sabem por que “cair a ficha” significa compreender uma mensagem ou um fato, completando, finalmente, as necessárias sinapses cerebrais.
Isso remonta ao tempo recente em que os telefones públicos funcionavam com fichas metálicas, que tilintavam dentro do aparelho quando as ligações se completavam.
Há uma famosa entrevista concedida pela cantora Elis Regina, gravada em vídeo, ainda em preto e branco, em que ela diz que ao chegar ao Rio de Janeiro “transava” com muitas pessoas do meio musical.

É inelutável que as línguas evoluam, ganhem acréscimos vocabulares, façam expurgos, alterem o sentido semântico das palavras. Mas é mister dos homens de letras fazer o link histórico entre o falar das gerações, para que as pessoas saibam exatamente o que dizem, e por que dizem, pois isso lhes enriquece a capacidade de dizer, e até de criar novos dizeres. Conhecer o passado é a melhor forma de contribuir para o futuro.
Seria ótimo que soubéssemos hoje com absoluta certeza a exata origem da expressão “lavar a burra”, acima especulada. Para isso seria necessário que alguém entre os antigos a tivesse notado e anotado, antes que sua geração passasse adiante o “bastão” vocabular, levando para o túmulo a sua peculiar explicação.
Por outro lado, se não se fizer o registro da evolução do termo transar, a memória de Elis Regina ficará distorcida para sempre naquele vídeo, pois sua gíria antiga pode fazer entender que ela praticava sexo com muita gente para galgar posição no mundo artístico.
Mas não só no que se refira a uso antigo, os usos atuais também devem ser analisados, para que a comunicação tenha um norte de clareza e coerência.
Por exemplo, quando se diz que uma coisa é “paia”, para lhe desqualificar, se está referindo à maconha de má qualidade, contendo “palha” na sua composição. Da mesma forma, quando alguém aplica o termo “viagem”, para falar de uma convicção equivocada, está referindo às alucinações produzidas pelo ácido lisérgico, droga conhecida como LSD.

Um último exemplo de mau emprego verbal: hoje em dia se tem visto, com grande frequência, notórios pacifistas referirem a alguém muito esforçado, que resistiu bem aos embates da vida, que superou dificuldades e progrediu, como um grande “guerreiro”.

Reginaldo Vasconcelos
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