domingo, 23 de março de 2014

ARTIGO (PMA)


 “ADMIRÁVEL GADO NOVO”
Por Paulo Maria de Aragão*

A sociedade escravagista, então transformada em símbolo da crueldade, ainda se enraíza no Brasil, onde grandes proprietários de terras submetem homens e mulheres a trabalhos forçados em fazendas, com a quase certeza da impunidade, em particular nas áreas de difícil acesso na Amazônia.

Outra gangrena que dizima a maior região territorial do Brasil são as atividades econômicas que favorecem os proxenetas, exploradores de prostíbulos que fazem comércio envolvendo mulheres, crianças e adolescentes. Tal escravidão também é fomentada por dívidas, drogas, abrangendo uma intrincada cadeia: peões, prostitutas, fazendeiros (patrões), gatos e pistoleiros, todos dependentes entre si.

Nesse círculo de nojeira, por inanição do Estado, a espécie humana decompõe-se, avezada ao refrão “Admirável Gado Novo”, de Zé Ramalho: “Eh, ô, ô, vida de gado/ Povo marcado/ Eh, povo feliz!”. E as vítimas de exploração já não se sentem mais exploradas; sentem-se agradecidas ao patrão pelo que faz por elas e por suas famílias, fazendo lembrar épocas egípcias: "Você nos salvou a vida! O patrão gostou de nós! Nós seremos seus escravos!" (Gn 47, 25).

Por sua vez, os que não trabalham vivem à cata de bolsas do governo, pois é melhor do que receber produzindo. O efeito é indesejado, mas o povo rude manifesta gratidão e espera o momento eleitoral para retribuí-la com o voto, a “santa” oferta. Assim, deem-se vivas ao ócio, ao analfabetismo, à violência e ao estado de direito, sobremodo aos currais eleitorais, destino das “cabeças” votantes, para serem aboiadas no dia das eleições.

Dissipa-se a cidadania corrompida por muitos que chafurdam o erário e por negociadores de votos. Caem as máscaras, porém os atores são os mesmos por trazer em si o DNA da desfaçatez. Nesse incessante turbilhão de ardilezas, os “escravos modernos” votarão “livremente” como cidadãos nas eleições, para eleger seus “legítimos” representantes. Quem ousará duvidar? Desse modo, nulidades serão novamente conduzidas a cargos representativos, em prejuízo daqueles que dignamente poderiam exercê-los.


Depois não adianta chorar sobre o leite derramado.



*Paulo Maria de Aragão
 Advogado e Professor  
Membro do Conselho Estadual da OAB-CE
Titular da Cadeira de Nº 37 da ACLJ

sexta-feira, 21 de março de 2014

CARTA (VM)

Fortaleza, 19 de março de 2014

Prezadíssimo Doutor Chico.

Há algum tempo sem experimentar a satisfação de abordá-lo, o faço agora com vistas a cumprimentar e abraçar virtualmente o amigo e, na sequência, proceder a comentários – de leigo, evidentemente – a respeito da tese de doutoramento sustentada por um orientando seu, a mim submetida a uma revista técnica, sob o prisma da língua e do estilo.

Reporto-me ao Prof. Dr. Marcus Vinícius de Oliveira Brasil, docente da novel Universidade Federal do Cariri – UFCA, defensor do texto Empreendedorismo Sustentável em Projetos Sociais de uma Fundação Educacional, em sessão recente, perante douta e seriíssima Banca, dirigida pelo destinatário, na Universidade de Fortaleza – UNIFOR, de onde o postulante e vencedor do título saiu com o dignificante conceito nove e meio.

Por que me falece maior aptidão para descender a opiniões com fulcro nas Ciências Aziendais, como Economia e Administração, e.g., limito-me ao procedimento de comentar aspectos mais ligados à comunicação literária do autor, bem assim aos expedientes metodológicos empregados, com os inteligentes e bem aparelhados recursos dos quais se utilizou no contexto da técnica qualitativa de investigar.

Ao observador mais atilado, conforma-se cristalino o entendimento acerca do incontroverso concurso do orientador – Prof. Dr. Chico Oliveira – no êxito do empreendimento, ao indicar, com esteio na sua larguíssima habilidade de produtor de escritos científicos e mentor principal em tarefas acadêmicas de tal gênero, as consentâneas maneiras de o neodoutor exibir para a comunidade científica o saber novo produzido na contextura da sociedade universitária, de modo que foram as ideias aportadas na forma apurada, decerto, em continente e conteúdo.

Límpida para mim, a igual do ocorrente em lanços semelhantes, restou a ideia de que o Prof. Dr. Chico Oliveira teve dedo de relevância (este o ofício do orientador responsável e comprometido com a causa do alto conhecimento) no êxito absoluto do ensaio, denso, penetrante, claro e, certamente, correto – senão assim não haveria obtido sucesso – de lavra do preparadíssimo Prof. Dr. Marcus Brasil, o qual se demonstrou, no escrito de que cuido, conhecedor profundo da literatura pertinente, tanto no âmbito do Brasil como no concerto internacional.

Poderá vir alguém a objetar – se  já não o fizeram, mas respeito opiniões – o fato de ele haver invitado autores de fora do País – economistas, cientistas do Marketing, administradores – para assentar e fazer afluir a propriedade de suas reflexões.

Parece notório, entretanto, salvo juízo mais acurado, no concernente às manifestações científicas protetoras do assunto em pauta, que ele não poderia ter deixado de recorrer aos clássicos da Economia e da Administração, ao indiano Amartya Sen, ao bengali Muhammad Yunus e ao ianque Paul Samuelson, por exemplo, até pelo fato de haver também privilegiado estudiosos patrícios e coestaduanos de peso, como você, Prof. Dr. Chico Oliveira, e a preclara e competentíssima Professora Doutora Suely Salgueiro Chacon (magnífica reitora da Universidade Federal do Cariri, cujos textos acompanho como revisor desde a graduação) entre outros, pois referências imprescindíveis ao debate temático procedido.

Compreendo, até, que teria restado defeituoso o ensaio, do ponto de vista de fontes reflexivas particulares ao disciplinamento científico econômico e administrativo, se não houvesse o Prof. Dr. Marcus Vinicius Brasil feito alusão aos pensadores primários, clássicos, escritores Prêmio Nobel, proveniência de todos os sistemas inaugurais dessa ramosa vertente do saber.

Impõe-se ressaltar, de passagem, o que compreendi como pertinente ao extremo – a ideia de ele haver cotejado as respostas dos seus sujeitos com as ideações da literatura – porquanto, a cada manifestação dos numerosos partícipes do experimento, ele trazia compreensões dos autores, harmonizadas aos conceitos expendidos pelos escritores estudados, quase como se os respondentes delas tivessem prévio conhecimento, evento que a mim se afigurou bastante industrioso e magnificamente original;  pelo menos, é a prima vez que divisei este expediente com tanta recorrência, exatamente na melhor tese revista por mim no âmbito da Universidade de Fortaleza.

Quase à evidência, o evento a seguir, decerto, tenha sido objeto também da sua interveniência, Professor Chico.  Faço remissão à ocorrência de o Prof. Brasil não se haver exposto em demasia em relação às suas reflexões, preferindo apoiar-se nos sistemas concertados por especialistas, malgrado haver aportado saber novo, inédito, não sabido, em relação aos achados acerca dos empreendimentos de teor sustentável dos projetos da organização examinada.

Na minha óptica, essa atitude é acertada, porquanto não haveria ele de, em um concurso sério, científico, em que a exatidão é a “moeda corrente”, se jogar, de moto próprio, ao risco de se haver em choques de entendimento com a Banca, fazendo periclitar seu título ou, até mesmo, ser surpreendido com a nota mínima, fato que seria deveras constrangedor no atual estádio em que se encontra na qualidade de docente e pesquisador da melhor estirpe.

Noutra ocasião, em oportunidade que se asar e não representar concurso ou disputa, ou até mesmo quando ele já não for tão jovem como hoje, com a mais alargada certeza, não vacilará na emissão de juízos absolutamente pessoais, sem se importar com opiniões alheias aversas aos seus entendimentos, uma vez que se vai exibir pronto para tréplicas vencedoras.

Cumprimento-o, então, bem como ao Prof. Dr. Marcus Vinicius, pelo êxito obtido com esta tese, peça representativa de orgulho e honra para a inteligência brasileira, também, ditosamente, radicada em profundo na Terra Cearense e da qual vocês constituem digníssimos delegados científicos.

Um grande amplexo do


Vianney Mesquita

terça-feira, 18 de março de 2014

ARTIGO (VM)

MODISMOS E BOBICES DO DISCURSO VERBAL
Vianney Mesquita*


É força capitular perante a ignorância e a tolice, assim como, pela mesma razão, se capitula perante um inimigo superior em número. (LEANDRO FERNÁNDEZ DE MORATIN. Madrid, 10.03.1760; Paris, 02.06.1828).



É fácil verificar, no discurso verbal de hoje, na oralidade quanto no repertório grafado, o registro de sinuosidades na maneira normal e consentânea de exprimir ideias, em detrimento dos atributos da língua, mormente de correção e clareza, e em prejuízo da enunciação, onde deve estar contida a estética da oração.

Este fato configura, pois, a banalização do estilo, forçando a equiparação, no plano inferior, daqueles praticantes de desvios linguísticos e elocutórios, ao cúmulo de todos falarem e escreverem no mesmo lamiré, ou tom habitual, sem que ninguém se sobreleve sob o ponto de vista de um falante ou escritor especial, com modos peculiares de tornear, ao ponto de, com isto, ser de logo conhecido e apreciado.

Circunstância bastante mencionada na história da literatura mundial é a referência procedida pelo naturalista, matemático e escritor de França, Georges Louis de Leclerc, quando recipiendário da Academia Francesa, ao proferir discurso (1753) na cerimônia de seu ingresso nesse silogeu célebre.


Naquele ensejo, Leclerc, Conde de Buffon, evidenciou o aspecto inerente ao estilo, o qual é defeso se separar do seu autor.  Uma espécie de Prefeito do Jardim do Rei, Buffon (Montbard, 07.09.1707; Paris,16.04.1788), decerto, jamais atinou para o fato de que restaria eternizado em razão de sua sentença clássica – “Le style est de l’homme même”.

Dita proposição – “O estilo é o próprio homem” – significa dizer que, se a ideia concebida pertence à Humanidade, o modo como o escritor a expressa é faculdade sua, sendo possível, dessarte,  mensurar os graus de seu talento e originalidade.

De tal sorte, os predicados de quem escreve conferem ao bom leitor a habilidade de saber, de antemão, o perfil do escritor; e até a credibilidade, por parte do decodificador, resta, de certa forma, dependente dessa feição de quem comunica, ao falar ou redigir.

Agradáveis ao ouvido, deleitosos para a vista e benignos ao coração, os textos escritos e falas expressas ao compasso do bom estilo estimulam a audiência (no jargão comunicacional, os que veem, ouvem e falam) a prosperar na atenção até o remate do discurso, deste recolhendo o sumo precioso de uma ideia bem refletida.

No mesmo passo, se contiverem impropriedades elocutórias, vícios de linguagem, repetições desnecessárias, frases feitas e anacrônicas, manias, chavões, redundâncias, modismos e necedades – sem se fazer remissão a deslizes gramaticais e a entendimentos flagrantemente equívocos – o público ledor, de qualidade, vai largá-los e rejeitá-los para sempre.

Há uns trinta ou quarenta anos, tem, ainda, curso entre nós, manias como de repente, a nível de, em termos de, de ponta, transparente etc, porém, veem-se menos, porque os revedores de textos, de tanto baterem, lograram o intento de reduzir consideravelmente essas muletas quebradas do discurso, em especial do repertório escrito e, em particular – o mais grave    na ambiência universitária.

Parece que esses miseráveis modismos são oriundos dos nossos grandes aglomerados humanos, como, por exemplo, Rio de Janeiro e São Paulo, e  invadiram a conversa e a escrita das pessoas com maiores habilidades de fala, detentoras de melhor sinonímia, de um linguajar mais culto.

São desconchavos, condenáveis, como os mais novos, aos quais se reportará mais à frente, arraigados tão fundamente no discurso, de modo que ainda resulta muito comum a pessoa, numa comunicação curta, empregar uma dessas invenções.

Como se não bastassem os neologismos do economês, sociologuês e outros “dialetos”, os quais sempre possuem correspondentes dicionarizados na língua, vêm estes antitorneios empobrecer cada vez mais o falar da gente comum, transposto a miúdo para a forma escrita.

Eles surgem inopinadamente, sem tir-te nem guar-te, como os “gerundismos” - “ vou estar telefonando”; “é possível  estar ligando para o senhor?”; “Posso estar trazendo um cafezinho?”; e os “participioismos” – “ele tem comparecido todos os dias”, em vez de comparece...;   “eu sempre (eu de sobra, pois o verbo conjugado já denota a pessoa) tenho observado”, no lugar de observo... etc. etc.

Já não basta o “bom dia!”, absolutamente bem comunicado.  Agora tem de ser “bom dia a todos”, como se numa saudação a uma assistência o orador ou leitor pudesse fazer acepção de alguém no meio da multidão. E mais: tem de ser “a todos e a todas”, como se na Língua Portuguesa, consoante a lei que a aprovou, o genérico não fosse o masculino!

Já se chegou a ouvir, num determinado lugar público, um leitor, antes de iniciar seu convite, referir-se assim: “Bom dia a todos e a todas, aos adultos e adultas, jovens e crianças – meninos e meninas”. Isto, sinceramente, “clama ao céu e pede a Deus vingança!” – para empregar uma frase feita, tão ao sabor de escrevinhadores de tal jaez.

O mais teimoso, quase tanto ou mais do que o “de repente”, é a mania insalubre do “a partir” – o qual rivaliza com o mau vezo de “construção”, "construir” e o modismo doentio do “entorno” -  já se chegando a detectar onze vezes numa página de dissertação de mestrado esta indefectível truanice. Sugere-se, constantemente, “com origem em”, “esteado nisso”, “com arrimo em”, “com suporte em”, “com base em”, “com supedâneo em” e tantas e tantas outras formas de efetivar o pensamento, deseixado de tão desagradáveis reiterações.

No discurso forense, como retrógrados chavões, notadamente entre os estudantes de mestrado e doutorado, vêm “o feriu de morte” (o direito adquirido, a coisa julgada e o ato jurídico perfeito), procedente, talvez, de algum bevilacquista ou seu coetâneo; “Neste diapasão” e “Nesta toada” servem para dar cafona continuidade ao raciocínio; e o “renomado (o  certo é renomeado) jurista cearense (ele é paraibano), celebrado internacionalmente, Paulo Bonavides” (ou qualquer outro).

No mesmo grau estão “através”, em aplicações equivocadas, em vez de “mediante a”, “por intermédio de”, “por meio de”, “mediado por” et relicua.

Como se não fosse suficiente o estreitamento vocabular, por falta de conhecimento do léxicon português, esses modismos, frases feitas, chavões e mais e mais asneiras do discurso – nomeadamente o acadêmico – são substanciosos em sua teimosia e concorrem, numa crescente, para depauperar a vernaculidade nacional, pois dicções desprovidas de significante e ocas de significado, “sepulcros caiados” da elegância terminológica.

Alguns desavisados entendem que o fato de os empregar significa status, pois denotativos de estarem em contato estreito com a lexicografia praticada pela academia – e nas grandes cidades – em dia com a linguagem exercitada em universidades e institutos de pesquisa.

Solicita-se coerência. É preciso passar na joeira as expressões adventícias e aculturar somente o que é salutar – e isto, em passant, no Rio de Janeiro e em São Paulo há de sobejo.

Voltem-se, pois, as vistas para a faustosa Língua Portuguesa, de recursos ilimitados e portadora da mais assinalada consistência científica.

Seja feito como procedem os alemães, franceses, ingleses e portugueses, que cultivam e cultuam seus códigos, sem radicalismos e com o máximo respeito, pelo menos nos discursos verbais, orais e escritos, em que é exigível a formalidade, como no caso da Academia. Evidentemente, a semântica se faz diversa no tempo e no espaço geográfico. Isto não se tenciona negar.

É possível, até, assentir na admissão, às obras de referência, de neologismos sem correspondentes dicionarizados, entretanto, há de se rechaçar expressões repetitivas, de aplicação oblíqua, inócuas e viciosas que nada acrescentam, mas, antes subtraem, modismos e palermices a fazerem de seus falantes e escritores pessoas antipatizadas pelos leitores de qualidade, proporcionais aos seus estilos, como entendeu que fosse Georges Louis de Leclerc, o Conde de Buffon. 

                                                        
Vianney Mesquita 
 Docente da UFC; 
Acadêmico Titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa  
Acadêmico Emérito-Titular da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo; 
Escritor e Jornalista.


domingo, 16 de março de 2014

ARTIGO (VM)

EMPREGADO FELIZ
Vianney Mesquita*

O segredo da felicidade no trabalho está contido numa palavra: EXCELÊNCIA. Saber como fazer bem alguma coisa é desfrutá-la. (Pearl Sidenstricker ou Sai Zhen Zhu, sinologista e escritora ianque. Prêmio Pulitzer de 1932 e Nobel de Literatura de 1938. Hillsboro, VA, 20.06.1892; Danby, VE, 06.03.1973).

Experimento o agrado de deparar na estante a obra Felicidade no Trabalho, de colheita do engenheiro e professor potiguar Mário Varela Amorim, da Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Está ali o desdobramento da dissertação de mestrado, defendida pelo autor, sob julgamento de perita Comissão, pertencente à mencionada Academia, da qual obteve Maxima cum laude, hajam vistas suas irrepreensíveis reflexões e os dividendos das ilações, para emprego não apenas no recinto universitário, mas, também e principalmente, na ambiência das organizações, com vistas à fruição da felicidade por parte de todos os seus stakeholders.

Ao ler o escrito, depreendi o fato de que, em decorrência da evolução em importância do tema FELICIDADE na Teoria das Organizações, também a produção de textos acadêmicos de profundidade atinentes a essa matéria aumentou na ambiência dos estudos superiores e de pós-graduação no País, maiormente agora – quando ensaios científicos acerca das pessoas no locus laboral se expressam tanto mais copiosos como mais atilados sob o prisma das Ciências Administrativas e do Comportamento.

Por tal pretexto, a temática atingiu o ponto de ser moto para a realização de pesquisas como partes de programas de mestrado, doutorado e docência-livre, experimentos os mais variados, e também móvel para a edição de livros – especialmente didáticos – com o fito de maximizar a motivação para o trabalho, tendo por esteio a circunstância de bem-estar e contentamento dos empregados, shareholders e damais partícipes das relações laborais nos locus das sociedades produtivas.

Importa referir a ideia de que esse desiderato e sua resultante consecução, em todos os âmbitos da Economia, ampliam, sincronizadamente, as vantagens negociais das organizações e a satisfação de seu público interno, exatamente em virtude da hígida relação experimentada pelos praticantes de saudáveis vínculos trabalhistas.

Em particular no primeiro quartel dos Vinte e Um, com a corrente quadra evolucional da Ciência da Administração, bem assim do emprego prático e ligeiro da Psicologia e outras ordenações disciplinares, vários princípios científicos transitados pela prova asseveram a relevância do estado de pessoas felizes no concerto empresarial como confluente para o êxito das entidades produtivas, indistintamente, nos três quadrantes econômicos, inclusive no denominado Terceiro Setor.

De outra parte – e em complemento à lista de proveitos remuneradores da condição de felicidade – tem-se a robustez física e mental dos dirigentes e colaboradores diretos, próprios e terceirizados, em primeiro plano, bem como os demais circunstantes nas vinculações com os dois primeiros, em decorrência da partilha, em “efeito cascata”, dos estados de deleite.

Tal é, pois, o conjunto de assuntos dissecados pelo Prof. Amorim, o qual esquadrinha, à repleção, a influência da felicidade sob a óptica dos funcionários e executivos de uma grande organização da Cidade do Natal no sucesso de seus empreendimentos, conducente ao alargamento dos objetivos negociais e ao consentâneo progresso das pessoas na constância de conexões exercitadas em circunstância laboral, quando efetivadas em ambiente venturoso.

Na posse de listas bibliográficas clássica e atual, em escrito bastante simples de decodificar, o autor achega contribuição de relevo ao exame da motivação, pois, ao aplicar um caminho metodológico compadecido a esse estalão de ensaio, em adstrita aquiescência aos rigores do ordenamento de busca em Ciência, os achados resultam inéditos, ao passo que as comparações procedidas foram sancionadas pela literatura e as hipóteses aventadas restaram também confirmadas quando ao crivo da prova.

Estas razões conduzem-me a recomendar a leitura desse trabalho àqueles militantes no difícil terreno da Administração de Bens Humanos e em searas afins, ora editado pela Imprensa Universitária da U.F.C., casa publicadora de idoneidade comprovada desde 1956, fundada pelo Reitor Martins Filho.

*Vianney Mesquita 
 Docente da UFC; 
Acadêmico Titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa  
Acadêmico Emérito-titular da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo; 
Escritor e Jornalista.

sexta-feira, 14 de março de 2014

ARTIGO (PMA)

BANQUETES SEM COLORAU
Por Paulo Maria de Aragão*

É lugar-comum dizer que o desequilíbrio das finanças do Tesouro deve-se à ilimitada corrupção responsável pelos multíplices problemas sociais. Nem mesmo em situação de emergência, prefeituras param de esbanjar milhões nas festas populares de cunho político (panem et circenses); além dessas estripulias absurdas, registre-se a compra de 2,5 toneladas de sabão, 4,2 mil vassouras de palha e quase uma tonelada de colorau, sem valor nutritivo na merenda escolar.

Por essa pouca-vergonha, a Nação se embota. A cáfila governa para os encastelados no poder, confraternizando-se nos banquetes opíparos, e não oculta a voracidade por crustáceos, iguarias feitas com o caviar e libações custeadas com o minguado bolso do contribuinte. São bocas vorazes que só fecham com terra de sepultura. “Se o povo não tem pão, que coma brioches” - o estopim da massa plebeia que guilhotinou Maria Antonieta.

Aqui a história é bem diferente: na falta de “brioches”, a plebe, humanos-ratos que moram debaixo de pontes, come restos catados nas sujidades dos lixões. Homens, mulheres e crianças, todos perdem o direito à condição humana na disputa com abutres para garantir o sustento; são o povo sem rosto, sem voz e resignado com a dor e a desesperança.

Triste sociedade que vê no ser humano o abutre - catadores consumidos por vermes nos aterros sanitários. Que segurança lhes dá o Estado ao fugir da obrigação de estabelecer e fazer cumprir os direitos fundamentais dos cidadãos? Onde ficam as políticas públicas que visam assegurar-lhes uma existência digna? Sob essa visão desconcertante, é impossível atingir a ordem social, tendo o primado do trabalho humano como postulado do bem-estar e da justiça sociais (art. 193 da CF).

É sempre lamentável que a opinião pública se submeta às estripulias do governo. Ainda pior, os que nele se assentam logo abrem o apetite fisiológico; embevecidos com mordomias, fazem-se indiferentes àqueles que arrastam a existência na miséria e mendicidade. Talvez os banquetes fossem refreados pela reação dos pedintes com pratos vazios e cartazes. Um tempero indigesto para os glutões que têm a coisa pública como butim e ainda levam as sobras para o “vigia” (leia-se geladeira).

*Paulo Maria de Aragão
Advogado e professor
Membro do Conselho Estadual da  OAB-CE 
Titular da Cadeira de Nº 37 da ACLJ

CRÔNICA (RV)

A TÁBUA DE DEUS
 Reginaldo Vasconcelos*

Não pratico mais a boemia, já faz algum tempo. Não que tenha adquirido qualquer desapreço à frivolidade dos botecos, aos improvisos líricos da folgança noturna, à estética feliniana das orgias. Não. Continuo a valorizar tudo isso com o mesmo vigor, com a mesma seriedade que devoto aos cultos e aos templos – tudo a seu tempo e modo certo.
É que hoje faleço de amigos que valham a pena acompanhar. Muitos dos velhos companheiros estão velhos, vários faliram, ficaram pobres de cobre ou de esperança. Outros se acovardaram às próprias mulheres e abandonaram o gosto pelas impróprias, que sempre flutuam nas noites de esbórnia.
Há ainda alguns que perderam a poesia, que demitiram seus duendes, que deliram os filósofos, que vazaram da esfera supra-real do mundanismo e caíram na senda da fé na vida eterna, embriagados de aprumo e certeza. Estes, uma vez na pinguela mística, não voltam mais à terra firme. Não se deve tocar neles, que vão retos e crentes, ou escorregam para o caos.
Mas mantenho algumas sentinelas avançadas, espiões infiltrados, infantaria do hedonismo notívago, gente que forma nas gerações mais novas da família, a qual me traz freqüente notícia da alegria. Um dia desses meu irmão me dizia de uma farra, de quando nela apareceu Luciano Maia, o poeta-mor do nosso meio,  já na madrugada, já na última taberna. Vinha ébrio, mas reciclado. De certo fora em casa, se banhara, mudara de roupa, beijara a mulher adormecida, e partira para um segundo, quem sabe terceiro turno de recreio.
Contou-me o informante que o vate boêmio, solitário, incorporou-se à sua roda, elogiou o assunto, impôs uma dose de vinho do Porto a uma das moças da mesa, com delicadeza irresistível. No fim da tertúlia entregou a carteira a um do grupo e pediu lhe pagasse a conta, e que lhe apontasse o automóvel, que não lembrava onde deixara.
Mas há um detalhe crucial. O bardo chegou à tasca às voltas com uma frase lapidar, que repetia entre dentes, como quem vai degustando um tinto, intrigado com o buquê, investigando suas notas de sabor. Por fim, resolveu compartilhar com a mesa a oração poética da qual estava enamorado: “A TÁBUA DE DEUS FERIU MEU ROSTO!”. 
Meu irmão, que me relatava o ocorrido, não anotara o autor da frase, mas apenas que o poeta a atribuía a uma famosa poetisa, sem contudo acrescentar em que contexto aquele período se inseria. Mas tanto fazia. Não interessava a razão da denúncia, porque o seu encanto está na fórmula – o ferimento, o instrumento, o lugar da lesão, o autor do gesto.
Viajei ao Rio de Janeiro logo em seguida, para encontrar Artur da Távola, levando comigo aquela oração, contagiado pela magia de seus termos, pela forma hipnótica daquela metáfora e o seu lamento: a mulher ferida, a delicadeza do rosto, a rudeza da arma, o prestígio do agressor.
Em Copacabana, com um tio poeta que me hospedava em sua casa, caminhando na rua, no vagar de seus passos, entre uma farmácia e um Banco, uma quitanda e uma banca de revistas, transmiti-lhe aquele dístico mágico. “A TÁBUA DE DEUS FERIU MEU ROSTO!”.

Tio Zecarlos estancou um pouco a marcha, no meio da calçada – torrente de gente indo e vindo – para saborear as palavras. E me pagou com um outro fragmento poético, da lavra de Castro Alves, que  comparou ao anterior, pela eficiente síntese que consegue: “Às vezes quando o sol nas matas virgens/ A fogueira das tardes acendia...”. Conta-me que ouvindo Eça de Queiroz ler a poesia “Aves de Arribação", em que esse trecho se insere, Eduardo Prado teria observado: “Aí está, em dois versos, toda a poesia dos trópicos”.
No outro dia, já com Artur da Távola, quando conversávamos sobre a vida, entre rolinhos primavera do melhor chinês do Rio, no mesmo bairro carioca, repassei-lhe aquela frase poética colhida na noite cearense. “Adélia Prado!” – ele logo identificou a autoria. Então lembrei que a mesma Adélia, em um outro poema, fala do Criador em outro verso, menos queixoso, mais resignado: “Às vezes Deus me tira a poesia: eu olho pedra, e vejo pedra mesmo”.

Da janela do restaurante víamos o mar. Távola então concluiu a conversa, respondendo enfim à primeira pergunta que eu lhe fizera àquele dia, e que até ali ele deixara no ar, sobre o que preferia mesmo ser, entre tantos títulos que detém: “Sou poeta. Sinto-me poeta. É isso que sou”.

NE: Crônica escrita em 2006. Artur da Távola faleceu em 2008

*Reginaldo Vasconcelos
Advogado e Jornalista
Titular da Cadeira de nº 20 da ACLJ

quinta-feira, 13 de março de 2014

CRÔNICA DO IBIAPINA

HAPPY HOUR
Por Wilson Ibiapina*

Orlando Brito
Na nossa “hora feliz”, fim de tarde, jogávamos conversa fora quando o Orlando Brito mudou o tom do papo. Tinha acabado de ver uma foto recente da atriz francesa Brigite Bardot e estava arrasado com sua fisionomia, em nada parecida com a da beldade que ela foi. Conhecida mundialmente por suas iniciais, BB, considerada o grande símbolo sexual dos anos 50 e anos 60, é hoje outra pessoa.

Vadim e Bardot
Chamada pela mídia sensacionalista de "devoradora de homens" pela rapidez com que terminava seus relacionamentos e pela quantidade deles, durante o período em que atuou no cinema (1952 – 1973) sua carreira foi marcada por três casamentos. O primeiro, em 1950 com Roger Vadim, com que se manteve até 1956 e foi o responsável por assessorá-la e lançá-la ao sucesso. Vadim e Bardot se divorciaram em 1956, depois de ela o trair com Jean-Louis Trintignant, durante as filmagens de E Deus Criou a Mulher.

Jacques Charrier, BB e Nicolas
O segundo casamento foi em 1959, com o ator Jacques Charrier. Os dois atuaram juntos no filme Babette S'en Va-t-en Guerre e foi ele quem deu a Bardot seu único filho, Nicolas Jacques Charrier, o qual ela abandonou com o pai quando os dois se separaram. 

BB e Bernard D'Ormale
O quarto e último casamento, realizado em 1992, e que perdura até hoje, foi com Bernard D'Ormale, um conselheiro político de Jean-Marie Le Pen, ex-presidente da Frente Nacional Francesa, principal partido de extrema-direita da França.

A cidade de Armação dos Búzios, na Região dos Lagos do Rio, recebeu a visita de Bardot quando ela estava no auge da carreira. Brigitte Anne-Marie Bardot, ou apenas Brigitte Bardot.
Fugindo dos fotógrafos, repórteres e fãs ensandecidos, a atriz chegou a Búzios acompanhada do noivo, o marroquino Bob Zagoury, que vivia no Rio de Janeiro. Durante quatro meses, Brigitte Bardot passeou pelo local e viveu como se fosse uma nativa. Tem até uma estátua dela lá.
Brigitte ao lado do noivo marroquino Bob Zagoury
Depois de todo esse papo, Charles Marar, Alex Gonçalves e Ramalho Junior lembraram que hoje, aos 79 anos de idade, a francesa é, atualmente, ativista dos direitos dos animais. Nunca se submeteu a uma plástica. Brigitte Bardot, o maior ícone francês da beleza, aos quase 80 anos, não tem medo da morte, não esconde as muletas, carrega a marca dos anos. 
Carlos Henrique de Almeida Santos

Foi aí que o jornalista Carlos Henrique de Almeida Santos interferiu para citar o ex-deputado e ex-ministro Ernane Sátiro. 

O velho político paraibano, ao olhar para uma amiga de juventude que não via fazia anos, fez a frase que Carlos Henrique contou, para consolar o famoso fotógrafo Orlando Brito: “Amigo véi, o tempo é um escultor de ruínas”.


*Wilson Ibiapina
Jornalista
Diretor da Sucursal do Sistema Verdes Mares de Comunicação
em Brasília - DF
Titular da Cadeira de nº 39 da ACLJ

quarta-feira, 12 de março de 2014

DISSERTAÇÃO (VM)

INCIDÊNCIAS EPISTEMOLÓGICAS NO ESTUDO DA “COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE DO BRASIL”  UNIVERSIDADE DO PORTO  

Vianney Mesquita*


Vem a lume, em ponderável ocasião, o segundo livro do causídico e administrador acadêmico cearense, Antônio Colaço Martins Filho, na senda prolífica dos estudos da Ciência Jurídica, então vinculada às compreensões desse latíssimo ramo do saber, ora encadeadas com os conceitos radicados à Teoria do Conhecimento.

Esta confluência epistemológica logra infundir, pela profundez impressa ao estudo, maior peso axiológico à publicação, haja vista a imbricação dos conceitos dessas vertentes distintas, o Direito e a Filosofia, com a natural interveniência da Ciência Política – pelo fato de o ensaio jungir-se a um estádio longo e muito peculiar à vida brasileira - subdividido nos períodos correspondentes aos regimes de força impostos pelas ditaduras de Getúlio Vargas (1937-1946) e do governo castrense ferido no quarto ano da década de 1960, protraído até 1985, quando se iniciou outra fase de redemocratização do País, até agora vigente.


O texto é condensado da dissertação de mestrado em Ciências Jurídico-filosóficas, sustentada pelo autor perante ilustrada Banca, na Universidade do Porto (1911), na sua Faculdade de Direito (1994), sob a orientação científica da Professora Doutora Maria Clara da Cunha Calheiros de Carvalho, laureada em Direito pela Universidade de Santiago de Compostela, membra-docente associada da Universidade do Minho e professora em colaboração da Faculdade de Direito – UP, autora apreciada e comentada também no Brasil.


Importa referir o fato de se haver subtraído da versão de origem (quando editado o volume) as inserções particulares à instituição acadêmica, pois não concedem qualquer valimento ao leitor, representando exigência interna para os órgãos gestores de estudos e pesquisas científicas de Portugal.

De efeito, o livro do Dr. Colaço Martins Filho – secundando o trabalho recente - Da Justiciabilidade dos Direitos Fundamentais no Supremo Tribunal Federal - tem por escopo as primordiais razões metodológicas da Comissão Nacional da Verdade do Brasil, no âmbito global de grupos deste jaez, formados para restabelecer ou fundar em definitivo aqueles fatos cuja veridicidade, em determinadas épocas, achava-se ininteligível ou obscura, sob a umbela de versões refalsadas por quem detinha o poder, contando com a mudez dos realmente culpados pelos ilícitos perpetrados.

Cuidou, então, o escritor de examinar, por primeiro, a origem e as principais características da Comissão brasileira à qual se reporta, assentado no exame da “justiça de transição”, bem assim da realidade histórico-legal dos expedientes legislativos dessa “justiça de passagem” dos processos de democratização após os mencionados virium regimen varguista e militar (1964-85).

Ex expositis, no que diz respeito às superveniências epistêmicas da Comissão Nacional de Verdade, importou, ademais, proceder ao exame dos sistemas modelares respeitantes às ideações de verdade, do perfil epistemológico das CV e, como remate, das estritas ligações entre os principais aspectos do predito perfil epistêmico e certos determinantes das emanações tradicionais da verdade.

Assinante de artigos doutrinários-jurídicos e autor do compêndio há instantes mencionado, todos com liames interdisciplinares, o autor conduz a aptidão precisa, emoldurada agora por esse título obtido na segunda maior academia de Portugal, para refletir, ex-chatedra, com a requerida correção linguística e propriedade elocutória ideal, acerca de proposição científica de assinalada relevância para a doutrina jurídica e filosófica, com serventia primária para a pesquisa e subsidiária ao ensino de graduação e pós-láurea, no Brasil e nos Estados da Comunidade Linguística Lusofônica.

Fortaleza, março de 2014


Vianney Mesquita 
 docente da UFC; 
acadêmico titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa  
acadêmico emérito-titular da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo; 
escritor e jornalista.