Língua Portuguesa Ajustada
DISFARÇA O FEIO E DEMONSTRA O BELO
Régis
Kennedy Gondim Cruz*
A
língua é um instrumento cujas molas não convém deixarmos ranger (ANTOINE DE RIVAROL, escritor e polemista
francês. Bagnole-sur-Cèze, 26.6.1753;
Berlim, 11.4.1801).
Nota Preliminar

Ditas
sessões amistosas ocorriam às sextas-feiras, na quitanda de nosso amigo comum,
Zé Maria do Nascimento, no Campus do Benfica, cujas temáticas gravitavam,
principalmente, à órbita dos nossos haveres docentes, particularmente de Língua
Portuguesa, eu a lidar nas escolas do Município de Fortaleza e do Estado do
Ceará, ministrando as disciplinas Português e Inglês, os dois amigos sob a
sombrinha da mesma alma mater”, a internacionalmente celebrada UFC.
Eis
que o Zé Maria foi conduzido ao Plano Deífico Eterno pela covid-19, como se
sabe, epidemia gigante a cobrir, praticamente, o mundo completo, e o Brasil, de
26.2.2020 a 5.3.2023, que contabilizou valor negativo de 716 mil 238 óbitos. Esta
pandemia modificou, forçosamente e por inteiro, o comportamento geral das
pessoas, nomeadamente no que diz respeito às atividades funcionais e, em
particular, às ações de troças e divertimentos, do que experimento recordações
vivas e inapagáveis. Ainda bem que a tecnologia não consente a extinção desses
traços, o apagamento de tais registros, mercê, dentre outros exemplos, do
celebrado aparelho celular, mantenedor de tantos expedientes “on line”,
originários vitais da Inteligência Natural (conforme chama V.M.), que asseguram
as amistosas relações, consoante sucede com o Vianney em relação a mim e
vice-versa, pois nos comunicamos diariamente. Após o passamento do Zé Maria no
auge dos SARS-coV1 e 2, nos topamos, em pessoa, somente em duas oportunidades,
no largo de oito anos.
Produções
do Versejador de Palmácia
O
Jovem Khrónos, agnome do árcade novo da Arcádia Nova Palmaciana – instituto
fundado por ele na sua cidade natal, pegada ao meu Pacoti (onde nasci) – é, desde
muito tempo, magnanimamente acolhido pela crítica cearense. Tal acontece em
razão dos múltiplos escritos em língua prosa e de seus poemas em decassílabos,
notadamente como teores de comentários oriundos de membros dos sodalícios
cearenses, como ocorre com Reginaldo Vasconcelos (Presidente da Academia
Cearense de Literatura e Jornalismo), Linhares Filho, da Academia Cearense de
Letras, Ítalo Gurgel, Ana Paula M. Caratti e Sousa Nunes (Presidente), estes da
Academia Cearense da Língua Portuguesa, dentre tantos comentaristas sérios.
Embora
suceda, porém, esse entendimento da banda de maioria das pessoas mais cultas,
V.M. teima em falar que não se considera poeta, pois diz ser bastante saber
rimar de acordo com as prescrições, e que tal não é difícil, sendo suficiente conhecer
bem a LP a fim de sobrar uma peça bonita. Este lado é verdadeiro. Não entendo, no
geral, como os demais, também assim. O momento, todavia, se mostra impropício a
me reportar a esta matéria, não cabível nestas notações. Em oportunidade
distinta, entretanto, vou cuidar dessa temática.
Vai
deter consciência o leitor, porém, ao verificar os dois sonetos de Vianney
Mesquita, exprimidos à frente, do fato de que a Codificação Lusitana, como
sugiro no título destas linhas simplórias, contém um esplendor avesso ao comum.
Isto porque afasta a fealdade, seja das estórias expressas e mesmo das
palavras, pois, com seus copiosos recursos, de que se louva o autor agora
comentado, sob a leitura ligeira e circunstancial, transforma o texto da
indecência trivial em oração, em reza gramatical.
Em
vez de escangalhamento e desmoralização, as estâncias de dez acentos
demonstram-se como ordem moral, na razão direta das apropriações linguísticas
inteligentes e bem procuradas a fim de conferir a melhor estética às peças
passíveis de leitura indecente, desde que aderidas aos recursos da vala comum,
às recorrências à elocução reles e obscena, em razão de um provável outro autor
dessaber a realidade de meios tão alteados.
Examinemos
a primeira conjunção de estâncias decassilábicas lusitanas objeto deste curto e
despretensioso exame, em que o escritor comentado recorre às Ciências da Terra
para se achegar a uma escondida manifestação de indecência e a uma figurada e
notória expressão de estesia, proporcionada pela opulenta fazenda linguística
da agricultura glossológica portuguesa.
FISIOGRAFIA
INTIMISTA
Vianney Mesquita
Com
vistas a decodificar estas estâncias, no âmbito brasileiro, impõe-se comparar a semântica da ciência geográfica e seus
saberes afins com igual sub-ramo da linguística a se referir ao ser humano no
concerto feminino.
Adentro em carta a topografia.
Desguarnecida te vejo descalça,
Sem uniquini, que pouco encobria,
Nem de justilho provido de alça.
Prodigiosa antropogeografia,
Dês a Serra Pelada o ouro exalça,
A navegar nesta cartografia
Em cuja ria minhas mãos são balsa.
Há dois lisos outeiros, rechonchudos,
Um sesso fértil, de lados carnudos,
Com cânion e cava dupla corográfica.
Pede a divisa cotejar semântica,
Pois cofio e exploro a Mata Atlântica
Na rica testa genito-orográfica.
“A Cartografia como Linguagem do Desejo”
Há poucos dias, ao deparar os poemas de Vianney Mesquita agora sob relato, editou, no “blog” da Academia Cearense da Língua Portuguesa, o escrito que vem, em sua extensão inteira. Com a anuência do Romancista potiguar, o reescrevo neste passo, conforme está à continuidade.
Em Fisiografia Intimista, Vianney Mesquita retoma a grade do soneto decassilábico de tradição lusitana, modalidade que frequenta com desenvoltura em suas apaixonantes páginas poéticas.
À disciplina da composição ele associa notável domínio do nosso código linguístico, em consonância com sua exigência de que o sonetista conheça e respeite a Língua Portuguesa, seu vasto repositório e as particularidades gramaticais.
O título anuncia o encontro entre paisagem e intimidade. O corpo feminino se oferece à leitura como território cujos relevos, reentrâncias e segredos o poeta percorre com sutileza de expressão e inequívoca intenção sensual, evitando tornar um bem carregado de imediatos efeitos indecorosos e urbanismo disforme.
No apuro verbal – com TODAS as palavras e expressões contidas no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa – VOLP –, a ousadia das imagens encontra um jeito elegante de exprimir. O conhecimento da língua também enseja ao versejador sob glosa brincar com seus elementos. Na condição de licença poética, a decomposição insinuada em “des calça”, exempli gratia, sugere o desnudamento total; uniquini, em diálogo com biquini, participa do mesmo jogo de encobrir e revelar. O vocábulo deixa entrever o que a expressão evita nomear diretamente.
A decifração dos versos dessa Fisiografia Intimista requer aproximar os sentidos da terminologia geográfica daqueles que ela adquire na representação do feminino. Serra Pelada e Mata Atlântica auferem sugestiva duplicidade; os outeiros e o cânion desenham relevos corporais; a ria e as mãos convertidas em balsas compõem uma imagem de navegação amorosa. Sustentada à extensão do soneto, essa correspondência faz da cartografia uma sutil linguagem de desejos.
Nesse exercício de imaginação e rigor, Vianney Mesquita comprova uma qualidade de sua poesia: fazer do saber linguístico matéria sensível, sem que a erudição lhe retire e graça.
Outro produtor acadêmico, artístico e literário cearense, assinante de perto de cem volumes, robustos em continente e fartos em conteúdo, editados no Brasil e em vários países – inclusos França, Portugal, Espanha e Itália – é o diplomata Márcio Catunda Ferreira Gomes. Atualmente morando em Genebra – Suíça, ele foi colega de Vianney Mesquita na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará e, tendo lido as conjunções em verso que ora comento, procedeu às considerações sequentes, em WattsApp enviado para o próprio autor dos sonetos, que eu agora reproduzo, com sua necessária licença.
Friedrich Nietzsche, celebrado intelectual tedesco, definiu duas tendências fundamentais, classificando-a em apolínea e dionisíaca.
Ambas as expressões se complementam na estética dos significados e dos significantes da poesia. O grande poeta é o que domina essas duas propensões, consciente de que a própria vida se compõem dessa dualidade. Vianney Mesquita, homem sensível, escritor de estilo castiço, erudito enciclopedista, está habilitado com toda a autoridade a se dedicar tanto ao formato apolínico, retratado nos seus textos espiritualistas, de elevado poder humanista, quanto à poesia de feição dionisíaca, na qual se observam as notas do sensualismo e do erotismo. Neste resplandecente soneto, sua verve de poeta maior brilha com instigante contundência.
O vocábulo deixa entrever o que a expressão evita nomear diretamente. Ambas as expressões se complementam na estética dos significados e dos significantes da poesia. O grande poeta é o que domina essas uas propensões, consciente de que a própria vida se compõem dessa dualidade. Vianney Mesquita, homem sensível, escritor de estilo castiço, erudito enciclopedista, está habilitado com toda a autoridade a se dedicar tanto ao formato apolínico, retratado nos seus textos espiritualistas, de elevado poder humanista, quanto à poesia de feição dionisíaca, na qual se observam as notas do sensualismo e do erotismo. Neste resplandecente soneto, sua verve de poeta maior brilha com instigante contundência.
Louvo, portanto, o soneto Fisiografia Intimista como um poema cuja linguagem, de sugestivas metáforas, qualifica-o na categoria dos textos antológicos da literatura mundial, na tradição dos nossos renomeados lusitanos Manuel Maria Barbosa de Bocage e Gregório de Mattos Guerra, bem como do exímio poeta italiano Pietro Aretino”.
No prosseguimento deste breve e desafetado escrito, ofereço ao leitor a oportunidade de deparar outro conjunto decassilábico do mesmo autor, o qual abriga, certamente, as opiniões exaradas por Márcio Catunda e Ítalo Gurgel, relativamente a Fisiografia Intimista.
Com efeito, caixa, arca, cofre, baú etc., em português, têm como sinônimos boceta e bolseta, um objeto, peça central do mito helênico, da Boceta ou bolseta/bolsinha de Pandora, a primeira mulher criada por Hefestos e Atena, a mando de Zeus, com o fim de agradar aos homens. É uma das mais conhecidas dentre as estórias míticas, ao que não é cabível fazer referência neste instante, procedendo aos desdobramentos, mas menciono somente para explicação dos termos usados nos versos de Vianney Mesquita, dando a entender que, no soneto, não se refere a tal caixa mitológica, pelos dados que o primeiro quarteto indica, mas à outra acepção comum no Brasil. O soneto, então, está reproduzido à continuidade.
NEM DE HEFESTO NEM DE ATENA
Não
há nada grande nem generoso que penetre o coração corrompido pela volúpia. (Públio Cornélio Tácito)
No exato modo em que se assenta agora
Sobremaneira, tão umedecida,
De úsnea sensual favorecida,
Não resulta, decerto, de Pandora.
Noutra banda, outrossim, partilha a lida
A hástea viril que firme aflora
De improviso, então, brilha e colora
A fim de profundar-se enrijecida.
Perto remansa tal doudo conchavo
De que a hominídea casta é dependente
E do recato, com frequência, é agravo.
Os dois, contudo, indigentemente,
Em fruição pelejam vulgarmente
Por produzir o líquen ignavo.
Consoante,
ainda, Márcio Catunda Ferreira Gomes, os bens poéticos do árcade novo Jovem
Khrónos têm duas peculiaridades, lições a perlustrar: uma de ordem estética e
outra de cariz ético, pois,
“...
na mágica fluidez dos catorze versos sonoros e simétricos, há sempre um
paradigma filosófico densificando o núcleo sintagmático da estrutura verbal. O
poeta e o filósofo convivem no mesmo artefato, indissociáveis, como o motor e o
combustível, a flor e o aroma, a paz e o silêncio. Imagem e pensamento
intrínsecos, duas grandezas sempiternas, tão essenciais quanto a água e a luz;
preciosas como o sono e o sonho; tão vitais conforme remansam a consciência e a
memória”.
Importa
lembrar que nessas moções literárias rimadas é onde o árcade novo Vianney
Mesquita – ANP – Palmácia-CE - intenta comprovar que a Língua Portuguesa,
tratada com esmero, aplicação plural de seus fecundos e multíplices componentes
verbais e determinações canônicas esmeradas, é habilitada a mimosear o
acompanhante de seus arquétipos expressos com uma escrita distinta e distante
da volúpia rasteira e do desbragamento natural do complexo vulgar, confinante
do desregramento antiético. Constitui fato demonstrativo de que o Código
Glossológico Português, quando operado diligentemente, conforme sugestionado no
título da minha apertada síntese argumentativa, embora sem destemperar o
pensamento pretendido, é capaz de impor disfarce ao indecoroso e ceder lugar ao
gracioso.
Por
ser de oportunidade, deixo ao público outro atilado conjunto versífico do autor
de Estâncias Decassilábicas Lusitanas – Medidas em Arte Maior (Palmácia:
Arcádia Nova Palmaciana, 2024), onde o consulente divisa, por exemplo, a imagem
expressa no verso admirável “Nos estômagos mentais digestivos”, ajudando a
explicar a interpretação dos provérbios, de acordo com a epígrafe da lavra
de Benjamin Franklin.
Soneto
Decassilábico Português
RIFÕES E BROCARDOS
Vianney Mesquita
Os provérbios são pedaços de sabedoria que, bem digeridos, proporcionam excelente nutrição ao espírito.
BENJAMIN FRANKLIN, intelectual e polímata estadunidense. Boston, 17.1.1706; Filadélfia, 17.4.1790).
Simples não cursa digerir adágios
Sendo ventre e cachola parecentes,
Estupidez e reiras, entrementes,
Cotejados em humanais presságios.
Malgrado sejam do tino apanágios,
E, também, os prolóquios nutrientes
Da vida, condutores sapientes,
Nem se há, decerto, de esperar sufrágios.
Os nacos, porém, de sabedoria
A alma nutrem sem dispepsia
Nos estômagos mentais digestivos.
Ao socorrer-se de uma alegoria,
Sob cabeça, ventre e poesia,
Redobram-se os desígnios compulsivos.






