O Homem que
guardava o mundo
Sávio Queiroz Costa*
Conheci um homem que guardava o mundo numa sala.
Não era um mundo grande – nada disso. Cabia inteiro em algumas prateleiras, duas vitrines e uma mesa antiga de madeira escura, marcada por pequenos círculos de copos esquecidos. Ali repousavam conchas do mar, uma bússola que já não apontava para lugar nenhum, uma pedra vulcânica trazida por um amigo distante, um inseto aprisionado em âmbar que talvez fosse verdadeiro – ou talvez não – e um telescópio pequeno demais para alcançar qualquer estrela importante.
“Meu gabinete de curiosidades” – disse ele, com um sorriso discreto, como quem apresenta um velho amigo.
Fiquei olhando aquelas coisas todas como quem visita um pequeno planeta doméstico. Cada objeto tinha uma história. Ou melhor: tinha a promessa de uma história.
A concha vinha de uma praia onde ele nunca mais voltou.
A bússola pertencera a um avô que jamais navegou. A pedra negra fora comprada num mercado de rua em Lisboa, embora o vendedor jurasse que vinha da Islândia.
E o inseto no âmbar – bem, aquele ninguém sabia ao certo de onde vinha. Talvez de um antiquário, talvez de uma conversa bem contada.
O curioso é que, apesar da diversidade, nada parecia fora de lugar. Tudo ali coexistia com a tranquilidade das coisas que encontraram finalmente um destino.
Foi então que percebi a estante ao lado. Livros. Muitos livros.
Volumes grossos de História Natural, atlas antigos com mares que ainda escondiam monstros, relatos de viagem escritos por homens que acreditavam sinceramente ter visto dragões em alguma parte do Oriente. Havia também dicionários, enciclopédias, tratados científicos e alguns romances discretamente misturados, como se tivessem entrado ali sem pedir licença.
Os livros pareciam vigiar silenciosamente as curiosidades da sala, como professores pacientes observando alunos distraídos.
Perguntei a ele para que serviam tantos livros. Ele respondeu, com a simplicidade de quem repete algo que já pensou muitas vezes: “O gabinete mostra o mundo. A biblioteca tenta compreendê-lo”.
Achei bonito aquilo. Porque o gabinete era feito de espantos. Cada objeto era um pequeno susto da realidade: veja isto, veja aquilo, veja como o mundo é vasto e estranho.
Já a biblioteca era feita de perguntas: Por que essa concha tem esse desenho? De onde vem essa pedra? Como funciona essa bússola que perdeu o norte?
Passei ainda algum tempo ali, olhando, ora para as vitrines, ora para as estantes.
E me ocorreu que talvez toda vida humana seja construída assim: primeiro reunimos coisas que nos maravilham – lembranças, viagens, encontros, pequenas relíquias sentimentais – e depois passamos o resto do tempo tentando entender o que tudo aquilo quer dizer.
Alguns fazem isso com objetos. Outros com livros. Outros, ainda, com memórias.
Antes de ir embora, voltei os olhos uma última vez para a sala. O gabinete continuava silencioso, exibindo o mundo em miniatura. A biblioteca permanecia imóvel, paciente, esperando que alguém abrisse um de seus volumes e tentasse decifrar o enigma.
Talvez seja esse o equilíbrio secreto das coisas. O mundo existe para nos espantar. E os livros, para nos consolar da nossa ignorância.

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