segunda-feira, 30 de março de 2026

CRÔNICA - Physiognomonia (RV)

PHYSIOGNOMONIA

Reginaldo Vasconcelos* 

 

A única imagem do rosto do Cristo que chegou até nós está no Santo Sudário, relíquia católica que, se não foi gravado com sangue dEle, de sobre o Seu corpo ferido e inerte, lá no ano zero do calendário gregoriano, foi urdido no Medievo por um artista prodigioso, sob especialíssima inspiração.

Seja como for, temos ali um semblante sereno (recuperado por métodos imagéticos modernos), que sequer denuncia o tenebroso sofrimento a que fora submetido o morto ilustre, mas espelha a resignação estoica de um espírito iluminado, padrão perfeito para a fisionomia de uma personalidade sacrossanta, caráter divino ou de virtude sobre-humana. 

A propósito, o polímata italiano Cesare Lombroso (1835-1909) orientou seus estudos para a hipotética relação entre as proporções faciais e a índole da pessoa, acreditando que, através de sua aparência física, se pudesse identificar os indivíduos probos e aqueles que fossem dotados de instinto criminoso. 

Lombroso não conseguiu comprovar a sua ousada teoria, entretanto a teatrologia francesa disseminou entre os dramaturgos do mundo todo a técnica subjetiva que denominam physic du rôle. Trata-se de adequar os atores, pela sua aparência, ao caráter dos personagens que eles vão representar. 

De fato, há aqueles – atores ou não – que transmitem confiança e inspiram simpatia, já nos seus traços fisionômicos, combinados com a sua postura e com os seus gestos moderados. Seus olhos refletem a verdade do seu discurso e a nobreza de suas intenções – enquanto há outros que se afiguram muito mal. 

É claro que – na arte como na vida – há os proverbiais “lobos em peles de cordeiro”. Estes se especializam em enganar pela falsa aparência lhana, pelos maneirismos capciosos e pelo gestual enganador. A política é o ambiente próprio em que fervilham e pululam esses dissimulados sacripantas. 

Conseguem iludir uma parcela do eleitorado, que com eles se encanta. Obliteram as mais obvias evidências, em nome do ideal visionário e passional que alimentam, e do eldorado social que prometem, garantindo poder instaurar na Terra o paraíso que os místicos creem haver, à espera dos bons, no além-túmulo.    


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