MEU PAI
Reginaldo Vasconcelos*
Lembro bem o tempo em que meu pai não era um homem, mas um semideus. Não viria dele a mínima fraqueza. Sua figura catalisava toda a força, toda a pujança, toda a deidade do Olimpo.
Minha jovem mãe punha-se comigo à margem da grande estrada escarlate, até que nela o ônibus, e dele meu pai, numa sequente expectativa.
O ônibus soava a buzina ainda distante, um som crescente que rasgava o silêncio, como a locomotiva da antisaudade. Parava diante de nós, quente e fumegante. Meu pai era tão alto que seus cabelos crespos e tingidos de poeira ruiva pareciam tocar o céu.

Vestia sempre “calças de briga” em brim curinga, e de seus bolsos saiam papeis misteriosos, todos riscados com sua letra. Naqueles bolsos também morava àquela época – hoje sei disso – o sacrifício do dinheiro ralo.

Cirilo era preto e grande, mãos e pés gigantes, de palmilhar caminhos a vender pães com uma cesta nas costas. Sua antítese era o Paroara, este mínimo e branco, vendendo ovos empoleirado num jumento.

Eu às vezes dormia nos pelos de seu peito, onde não havia males nem medos, e havia paz. Ali o sono mais pesado e o sonho mais solvo, sem susto e sem sobressalto.
Um dia o ônibus voltou com a gente: Juremal, Peixe Gordo, São Bernardo das Éguas Russas, Montemor da América...
Tribuna do Ceará - Maio de 1981
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