GERALDO-CACETE
(Crônica para a História da Televisão Cearense)
Vianney Mesquita*
O sábio avalia o ignorante porque já foi ignorante. O ignorante, no entanto, não pode avaliar o sábio, uma vez que jamais foi sábio. [SADI DE SHIRAZ, poeta persa (iraniano); Shiraz, 1210-1291].
Indicado e conduzido pela Prof.a. Docente-Livre Adísia Sá até o Prof. Dr. Carlos d’Alge – aos quais sou eviternamente agradecido - fiquei na TV Educativa do Ceará – Canal 5, onde d’Alge era superintendente, de outubro de 1976 até fevereiro de 2005, quando fui acometido de infarto agudo do miocárdio, do que resultou aposentadoria.
Nessa época, não se cogitava em concurso público, especialmente para fundações sob o regime de CLT, de sorte que ali entrei (como todo o mundo entrava) pela janela – até porque não havia portas, somente compostas pela marcenaria reparadora da Constituição Cidadã em 1988. Ali exerci a função de redator, como jornalista profissional, operando na feitura dos telejornais, ao dividir o regime de trabalho de 40 horas semanais com o magistério da Universidade Federal do Ceará, sobrando 20 horas para dedicar à Emissora.


Este era a “fina flor”, a “aristocracia”, a “nata” da Estação, os donos da situação, constituído por docentes, a maior parte compartindo seu ofício com o magistério na UECE, uma parcela absolutamente separada socialmente, pois sequer (em tese) se dirigia aos demais, somente os olhava à sorrelfa - a não ser quando a comunicação era vinculada a tratos profissionais. Era a vera câmara da Rainha Elizabeth II tupiniquim.
O outro segmento – evidentemente, sem fazer referência aos componentes das diretorias e seus funcionários – era formado pelo pessoal técnico, a maior parte do qual procedente da então desativada TV Ceará – Canal 2 (Rede Tupi de Televisão), a primeira televisão do Estado, inaugurada em 1960.
Essa, pois, era a turma do papoco, em geral e com muitas exceções (e isto se impõe que eu relate), deselegante, grosseira, mal-acostumada com a bagunça, pornográfica, semiapedeuta, produtora de comportamentos aos quais eu não era afeito, moleque e com aqueles vezos da ambiência teatral, em que tudo se afigurava natural, mesmo que certas condutas resultassem desrespeitosas, exceto, evidentemente, os caracteres de pessoas cujos procedimentos, conquanto insertas na dita esfera, eram vazados na decência e inseridos nos perfis da urbanidade.
Extraio nesta história modelos dessas restrições – e por isso dois deles estão aqui na Academia Cearense de Literatura e Jornalismo. Pinço, pois, o Ricardo Guilherme, uma das maiores inteligências que já tive a dita de deparar, autor teatral de escol, ainda hoje a pleno emprego, o qual veio a ser meu aluno na UFC (também o foi Ary Sherlock) e, algumas vezes, até me ajudou a ministrar conteúdos ligados ao Jornalismo, Cinema e Teatro (conforme o fez, também, o enorme Guilherme Neto), desde que se lhe aprestou o uso da razão.

Vêm, ainda, na sua maior parte, vinculados ao Departamento de Telejornalismo, Alcyon Lemos e Maia Ferreira, hoje, amigos de minha intimidade, Oliveira Filho, jornalista, ator de novelas radiofônicas e advogado; Godofredo Pereira de Sousa, meu compadre, jornalista e professor da UFC; Everardo Sobreira, radialista da melhor felpa, advogado de elevado nível e docente da UFC; Heraldo Meneses; e tantos outros. Um destes é o moradanovense Sebastião Belmino Barbosa Evangelista, móvel deste escrito, meu amigo, moleque “safado”, incontinenti nas piadas, decentes ou não, meu contemporâneo no Curso de História da UECE e irmão do Marcos Belmino, o Ponhonhon (falecido), e que hoje ainda é capaz de “fazer hora” até com o juiz Sérgio Moro.


O Seu Geraldo, que a canalha logo apelidou de Geraldo-Cacete, procedia do interior do Ceará e era o vigia noturno da TV Educativa. Ele sempre portava um pedaço de pau, quando de suas andanças pelos lados de fora da Emissora. Era interessante nas suas conversas matutas e todo mundo caçoava dele, quando, por exemplo, ao atender ao telefone, saudava o cliente, dizendo:
– “ALÔ! É DA CANAL CINCO!”.

– Deixa de ser besta, Geraldo, que o homem não quer mais saber de ir à Lua; ele vai agora é ao Sol!
Enraivecido, então, o Geraldo-Cacete disse de imediato:
– Só se for pra tocar fogo com o Sol naqueles avião véi deles!
A isto, pois, o Belmino ajuntou:
– Geraldo, tu é de lascar! Os astronautas não vão “de dia”, que eles não são abestados! Eles vão é “de noite!”
O Geraldo, então, respondeu, convencido:
– AH, SENDO ASSIM, EU FICO CALADO!
COMENTÁRIO:
Lendo “Geraldo-Cacete (Crônica para a História da Televisão Cearense)”, de Vianney Mesquita, lembro que eu tive o programa “Pense!”, na TV União, em 2005. Cheguei até a gravar dois programas em Paris: um, com o escultor brasileiro Jaildo Marinho, na Torre Eiffel e Museu do Louvre; outro, com a escultora francesa Roseline Granet, em seu atelier.
Totonho Laprovítera.
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