segunda-feira, 26 de março de 2018

ARTIGO - Desbanalizar a Violência Doméstica (KK)


Desbanalizar a
violência doméstica
Karla Karenina*




Quando se fala em violência doméstica associamos logo a homens que batem em mulheres. Mas existem várias formas de violência dentro dos lares. Geralmente praticadas pelo mais forte contra o mais fraco. De homens contra mulheres, filhos(as); de mães contra filhos(as), irmãos mais velhos contra mais novos(as)...

Já avançamos em mudanças de paradigmas, mas há muitos outros deles arraigados no inconsciente coletivo. Graças a algumas leis, a violência doméstica não é mais só um problema familiar. Podemos e devemos denunciar, estando fora da casa.

A punição dos agressores é necessária e justa. Mas não só isso. É preciso dar fim ao ciclo de violência a partir do tratamento dos agressores e dos agredidos, que podem repetir inconscientemente a raiva reprimida do passado.

Em nove anos de atuação como terapeuta de regressão vejo como os prejuízos são imensos! Alguns episódios traumáticos são tão dolorosos que acabam “esquecidos” por anos, trancafiados nos porões da alma. Mais à frente, através de sintomas físicos e/ou emocionais, essas memórias se manifestam como um grito de socorro.

Exemplos excelentes estão sendo mostrados na trama de Walcyr Carrasco, “O Outro Lado do Paraíso”, com a devida licença poética. A personagem Laura, que era abusada pelo padrasto, não lembrava dos abusos. Depois de uma sessão de regressão, os fatos vieram à consciência.

Outro exemplo é o do personagem Gael, que batia nas mulheres sem saber o porquê. Numa linda cena em que Mercedes (a curandeira do lugar) faz o que os xamãs chamam de “resgate de alma”, e nós terapeutas chamamos de regressão, Gael acessa os episódios da infância em que era espancado e humilhado pela mãe.

Histórias que acontecem na vida real e são recorrentes no dia a dia do meu consultório. É urgente contribuirmos para a desbanalização de todos os tipos de violência. Denunciando e olhando para as próprias histórias familiares.

Violência doméstica é um fenômeno transgeracional e tem cura! Façamos a nossa parte! As futuras gerações não podem continuar achando que é natural praticar ou sofrer violência!

Natural é nascer num ambiente acolhedor e amoroso, crescer sendo protegido e orientado, e assim, sucessiva e ininterruptamente, ser HUMANO.



Nota: Matéria publicada na edição de 26.03.2018 no Jornal O Povo.





RECENSÃO - Literatura da Profa. Graça Martins (VM)



Literatura Filosófico-Científica Inusitada na Crônica da
Prof.a D.ra Graça Martins
Vianney Mesquita*



Filosofia, doce leite da adversidade! (Guilherme Shakspeare).

A Natureza não dá saltos. (Godofredo Leibniz).



Para o observador menos devotado ao exame procedimental do trato científico, pode afigurar-se inacreditável - no mínimo, surpreendente - a ideia de ser possível a vinculação racional em vertentes de aparências dessemelhantes, de procedências tão supostamente díspares, como esta admirandamente comprovada pela Autora de O HOMEM nas Abordagens Mecanicista e Humanista da Administração e no Humanismo de Inspiração Cristã.

Maria da Graça Holanda Martins publicou o mencionado livro em ótima ocasião, propícia a excitar, ainda mais, a já efervescente reflexão, felizmente em uso atual na ambiência da nossa Academia. Isto porque – e ela de sobra conhece este suposto – o exame do conhecimento parcialmente ordenado não tem por objeto o saber particular, pois é inexequível reunir em insulado conceito, estabelecer apenas em uma lei, a enorme quantidade de detalhes e situações particulares, constitutivas do ser ou do fato individual: Omne individuum inefabile, conforme ensina a velha, revisada tantas vezes e, em muitos pontos ainda, acreditada Escolástica.

Nas alegações expressas nessa produção, eminentemente interdisciplinar, a Pesquisadora não perde o foco, portanto, das grandes ligações da totalidade do ser, deixando de assujeitar-se ao perigo de reduzir a visão a um apoucado domínio da técnica, em virtude do desdobramento dos objetos, o qual conduziu o debate da Ciência a uma progressiva especialização.

A Escritora demonstra, com efeito, no seu substancial e bibliograficamente bem forrado escrito, o caráter extensivo, a feição horizontal e o perfil encadeado da compreensão ordenada, quando acolheu para arguir, sob o mesmo pálio argumentativo e a umbela plural, o tema da Administração Científica e da Teoria da Burocracia (esta havida pelo teórico alemão Max Weber como modalidade de poder), com base na conceição de homem esposada nas abordagens mecanicista-humanista da Ciência/técnica de Taylor e Fayol, para saber se e até onde a ideação de humano, nesses dois sistemas, converge para ou se desvia da homovisão do Humanismo de inspiração cristã, divisado, e.g., por Pedro Dalle Nogare, em Humanismos e Anti-Humanismos (Petrópolis: Vozes, 1977).

Conforme já se dessume, a despeito da postiça falta de identidade temática, os assuntos são passíveis de avaliação, todavia solicitam a necessária diligência intelectiva, a exigir do estudioso a prontidão suficiente para fruir de juízos absolutamente racionais, a fim de podê-los partilhar com todo o ecúmeno, felizmente numa mensuração facilitada, pois serenamente transitados pelas indicadas sistematizações da ordem metodológica, provindas das instruções de filósofos e metodólogos de ofício.

Esses aprontos intelectuais, é claro, a Autora detém elevadamente, porquanto os resultados do seu ensaio podem ser socializados, haja vista representarem nascente de fé e manifestação de verdade por parte de quem, por toda a vida, mourejou em bancos e laboratórios idôneos, bem como fez da inteligência atelier de raciocínio, forja de experimentos e terreno de prova.

Conquanto possa antecipar o proveito da investigação, achei por bem não o fazer, a fim de não baldar a curiosice do futuro consulente do livro, tampouco frustrar a sofreguidão daquele leitor mais pressuroso, cuja necessidade orgânico-psíquica o levará a consumir, de uma vez, todo o teor do curto (116 pp.) e substancioso esforço triunfante de pesquisa.

De passagem, no entanto, me impende atentar para o recheio interdisciplinar do texto, pois reúne o enredamento profuso, quase desacostumado, de vários contextos disciplinares – Administração, Filosofia Humanista, Religião, Trabalhismo, entre outros – concedendo horizontalidade ao feito científico, conjunção de procedimentos multíplices, significativos de parêmia da Filosofia Escolástica, por onde lidaram Thomas de Aquino, Guilherme de Occam, Duns Scotto Erígena e tantas outras figuras da inteligência medieval, bem como seu discipulado ainda hoje resistente.

O brocardo há segundos mencionado configura a ideia de o todo individualizado ser inexprimível. Inexiste, por conseguinte e em tese, o saber particular: Non datur scientia de individuo.


Nota: A modo de exercício, não há neste texto qualquer uso do vocábulo que.




ARTIGO - Segurança Pública: Falta Plano e Vocação (CA)



SEGURANÇA PÚBLICA:
FALTA PLANO E VOCAÇÃO
Cândido Albuquerque*



A tragédia na qual se converteu a Segurança Pública do Ceará é um resultado previsível e esperado, conforme já afirmei várias vezes neste espaço. Nos últimos anos, enquanto o crime se organizava, os governos desmantelavam a Polícia Civil e, portanto, a sua capacidade de investigação. 

Ao contrário, investiu-se na Polícia Militar, especificamente no Batalhão Raio, com suas motos luminosas e um policial na garupa segurando um fuzil, aparato inofensivo ao crime organizado. Era a opção pelo visível, pelo “eleitoralmente correto”, segundo os especialistas! O Batalhão Raio, por óbvio, é importante, mas não para combater as organizações criminosas.

Estava, assim, criado o ambiente propício para o fortalecimento das facções. O Estado não investigava, e o crime se organizava! Sem inteligência policial e sem capacidade de investigação ficou fácil para o crime. Estranho, nesse contexto, seria o crime não ter se estabelecido. A situação ficou tão grave que o Ministério Público entrou com uma ação judicial para o fim de obrigar o Governo do Estado a contratar, via concurso, delegados de polícia. Ou seja, criamos, talvez inconscientemente, o ambiente para a tragédia que vivemos hoje.

Esse é o pior momento da história da Segurança Pública do Estado do Ceará. Estamos sob o signo do medo. Os bairros de Fortaleza estão loteados entre facções, as quais agem e se comportam como donatárias da cidade. Claramente, os criminosos não entenderam aquela mensagem segundo a qual os bandidos do Ceará teriam duas opções: “cadeia ou cemitério”.  Ignoraram a mensagem e dominaram o Estado.

O grave, nesse contexto, é que não se tem visto a elaboração, por parte do Governo do Estado, de um plano para enfrentar a crise. Pelo contrário, nos últimos seis meses muitas unidades da Justiça Criminal foram fechadas, inclusive 22 na Capital, em ação que contou com a participação dos Três Poderes: o Tribunal de Justiça mandou o projeto de lei, a Assembleia aprovou, e o Governador sancionou! Nesse contexto, será que o Poder Público cearense está legitimado para reclamar da violência, ou é hora de admitir os erros e buscar as soluções? Os presídios, na prática, estão sob a administração das facções, e mesmo a colocação de bloqueadores de sinais nas penitenciárias, como se tem visto, tornou-se um assunto tormentoso, a bem demonstrar a falta de vocação do Governo.

Nos últimos meses as autoridades da área de Segurança passaram a acusar o Governo Federal de não adotar ações nacionais de combate ao crime. O Estado tenta terceirizar o problema ao pretender “nacionalizar” as causas.

Será que a explicação se sustenta? Penso que não! Em nenhum país do mundo se combateu a violência urbana sem inteligência, ou seja, sem investigação. No Ceará, o contingente da Polícia Judiciária é tão pequeno que algumas cidades nem mesmo estão servidas de um delegado, o que significa que nada está sendo investigado adequadamente. Esse fato, por si só, mostra que o Governo do Estado do Ceará não levou a sério a questão da Segurança Pública. Negligenciou o contingente policial – o da polícia de investigação – em um momento de crise aguda como esse! O momento reclama a participação integral do Estado.

E não se diga que o problema decorre da falta de tecnologia. Sim, tecnologia é fundamental, e já temos alguma coisa, mas de nada adianta tecnologia se não houver pessoal para utilizá-la. Segurança no Ceará, hoje, é prioridade, uma questão de sobrevivência, pelo que não podemos mais esperar. Precisamos de um plano para a segurança pública do Estado, o que, aliás, venho cobrando desde 2014, e com maior insistência desde janeiro de 2017. Aumentar o contingente do Batalhão Raio, por exemplo, não chega a ser um plano, já que o crime organizado somente pode ser combatido com investigação, com “inteligência policial” e com um Judiciário capaz de responder às demandas em tempo razoável. O Estado precisa funcionar de maneira orgânica no combate ao crime organizado. Perdemos o norte, criamos o problema e agora precisamos resolver!




ARTIGO - Suicídio Coletivo (RMR)


SUICÍDIO COLETIVO
Rui Martinho Rodrigues*



A Argentina era um país próspero, mas escolheu o suicídio. Entrou numa crise para não mais sair. Nós éramos um dos países de maior crescimento no mundo, desde a proclamação da República até fins dos anos setenta do Século XX. Os argentinos eram admirados, entre nós, como povo “politizado”, preparado para “defender seus direitos”, segundo diziam nossos formadores de opinião. Nós, ao contrário, encontrávamos soluções de compromisso pelas quais não mudávamos as nossas estruturas e não avançávamos.

Acreditávamos na teoria da dependência, de Raúl Prebisch (1901 – 1986), com a qual os nossos intelectuais se deslumbraram. O subdesenvolvimento, segundo o autor citado, era o lado do avesso do desenvolvimento, resultado da desigualdade nas relações internacionais. Nelas, um lado se desenvolvia de fato, enquanto o outro “desenvolvia” o seu subdesenvolvimento. Uma série histórica de preços comparados entre bens primários e bens industrializados, nas quais os primeiros perdiam valor ao longo do tempo, enquanto os últimos subiam de cotação, eram apresentados como “prova” da divisão internacional do trabalho, como causa do subdesenvolvimento, atribuída ao “imperialismo”.

Não se considerava o valor agregado aos bens industrializados, nem o subdesenvolvimento como estado original, fato incompatível com a teoria segundo a qual o subdesenvolvimento é um “desenvolvimento” prejudicial a quem antes era desenvolvido. Acreditávamos no romantismo indigenista: os nossos índios eram heróis fortes e bem nutridos, “prova” do desenvolvimento como estado original, e do subdesenvolvimento como o lado explorado. Não compreendemos que a felicidade simplória pode ser boa, mas não é desenvolvimento. Este é mais instrumentalizado para oferecer conforto e segurança.

Ao analisar as “trocas desiguais”, esquecemo-nos da alta de preço do trigo argentino, antes da queda, quando EUA, Austrália e Canadá aumentaram a oferta deste produto, segundo o cíclico de escassez, alta de preço, aumento de oferta e redução de preço. Esquecemo-nos dos países e dos nossos Estados menos desenvolvidos e relativamente isolados, ao contrário daqueles integrados à economia internacional e mais desenvolvidos, ao invés de mais explorados.

Uma boa novela deve ter conspiração, vilão, vítima e salvador. A “politização” dos argentinos, responsável pela ruína daquele país, era um discurso dotado de todos estes atrativos. Era manipulação das massas através de partido e líderes hábeis em convencer o povo, confirmando os seus desejos, a exemplo da existência de almoço de graça, de um vilão responsável pelas suas frustrações. Era o discurso de quem não fala em produtividade, em poupar para investir, ou em superação das dificuldades pela via do esforço. Acreditamos em riqueza já existente, a espera de ser distribuída. Não fazemos reformas necessárias; não abandonamos ilusões. Deixamos de ser campeões de crescimento econômico e caímos na estagnação. Não aprendemos com os nossos erros. O fracasso das demagogias e utopias não nos serviram de lição. Trágico mimetismo dos erros argentinos.


sábado, 24 de março de 2018

ARTIGO - Ainda Há Jornalistas em Berlim (RV)



AINDA HÁ
JORNALISTAS
EM BERLIM*
Reginaldo Vasconcelos**



O tempo tem produzido em minha memória impressões de todos os gêneros” – teria dito Rui Barbosa. De fato, não se espera viver para testemunhar passagens tão burlescas da história, de tal modo que muita vez a pessoa nem se espanta de pronto porque o absurdo demora a se fazer perceber e acreditar.

Um advogado de renome vai à tribuna do Supremo Tribunal fazer a sustentação da defesa de uma petição de habeas corpus que impetrou, e, assumindo o mais notório cacoete do próprio paciente (sua glória e sua perdição), faz um discurso de camelô, tão convincente quanto falso.

Alega que o mundo vive uma crise autoritária, quando, exatamente ao contrário, o que a humanidade experimenta no momento é um déficit de genuína autoridade, instalada a anarquia e a atividade de organizações irregulares, em todos os níveis sociais e políticos do Planeta.

Contraditoriamente, o causídico medalhão exemplifica com a prisão recente de um ex-presidente francês, medida absolutamente legal em seu país, onde, inclusive, se inicia o cumprimento das penas logo após a condenação confirmada em tribunal – exatamente aquilo que no mérito contesta ele seja praticado no Brasil.

Dessa forma, em favor da sua tese, o advogado faz uso do principal argumento que se teria contra ela – quando um país que “exportou democracia” dá o exemplo, mandando prender um ex-presidente por mera suspeita de corrupção eleitoral, de forma justa, institucional e republicana.

Acontece que aquilo que ele evidencia estar ocorrendo lá na França – exemplo que caberia ser usado contra ele – é tudo o que ele pretende evitar que aconteça com um ex-presidente brasileiro, este com culpa formada, já condenado em duas instâncias da Justiça.

Por isso se diz que o principal atributo do diabo é a mentira, com a qual ele confunde a boa-fé das almas pias, disfarçando o mal em virtude, se fazendo passar por puro e bom, vítima da injustiça universal, configurando o que diz Caetano Veloso na letra da canção: “Você diz a verdade e a verdade é o seu dom de iludir”.

O demônio espalha a luz de Lúcifer de forma encandecente e obliterante, até que tudo se revele uma grande farsa demoníaca, capaz de levar para o caos dos infernos os cacos das boas intenções desvirtuadas – exatamente como tem acontecido com a massa eleitoral nos últimos episódios da República Brasileira.

No caso, como faria o velho fute, o referido advogado não traz a verdade límpida em seu exemplo, ao afirmar com grande desfaçatez que o tal presidente de França fora eleito por duas vezes, o que sabe não proceder, entregando assim o traiçoeiro rabo cúspide para que alguém o pegasse contestando, e ele então tivesse oportunidade de dizer com galhardia: “Pois o Lula foi!”.

Mas – e aqui vem outra surpresa para siderar as mentes sãs – a Rede Globo de TV de repente se levanta para evidenciar os descalabros da defesa de Lula, articulada da tribuna do Supremo, imiscuindo-se ela no processo para tentar desnudar o rei calhorda, alvejando o seu patrono, desmentindo-o e instando-o a explicar suas inverdades.

O jornalismo da emissora por fim largou de mão o assassinato da vereadora do PSOL, agora babando pelo canto da boca para empurrar Lula para a cadeia, quando até bem pouco tempo se juntava à vindita das esquerdas contra Temer – um anjo decaído para o petismo – e um santo para a direita, redimido na epifania de Saulo na Estrada de Damasco.

Ao mesmo tempo, uma outra grande rede de TV gravou o próprio Lula em sacrificante comício pelo Rio Grande do Sul, a imprecar contra os agropecuaristas gaúchos que o expungiram de diversos municípios, dizendo que estes deveriam tratar os seus trabalhadores tão bem quanto tratam os seus cavalos.

Em seguida, os repórteres entrevistaram um criador de cavalos local asseverando que todos os seus empregados são devidamente registrados sob todos os preceitos das normas laborais, até porque o sucesso do seu negócio tem estreita dependência desses profissionais cavalariços.

O resumo da ópera na conclusão desse episódio é a constatação de que o Supremo Tribunal Federal se põe de cócoras, politicamente contaminado e dividido por ferozes dissenções – e a grande imprensa já não tem estômago para ser imparcial, saindo em defesa da cidadania do País.


Expõe a Nação a grande insegurança jurídica aquele “Augusto Tribunal”, ao claudicar nas suas decisões, ao nutar entre interesses subalternos por ele mesmo admitidos, assacados por uns ministros contra os outros – e quem somos nós para contestar suas invectivas pessoais, de parte a parte asseveradas?

Na verdade, o Supremo Tribunal – ignorando na época as proporções que a corrupção nacional alcançaria no pelourinho da Justiça, e despercebido dos imensos interesses que em futuro sua decisão atingiria – interpretou corretamente que a presunção de inocência se mantém apenas até que a culpa seja formada em Juízo Singular, e seja confirmada por um primeiro tribunal.

Assim, então ainda livre de ingentes pressões políticas, reconheceu o STF a excepcionalidade dos eventuais recursos aos Tribunais Superiores, que somente podem examinar questões de Direito, e não de fato, de modo que em baixíssima porcentagem seus acórdãos têm efeitos infringentes sobre as condenações já decretadas, tal sorte que esses recursos não raro se prestam apenas a promover prescrição e, consequentemente, impunidade.

Resolveu então que, diante disso, o trânsito em julgado a que a Carta Magna se refere já se insinua diante da presunção de culpabilidade ad hominem contra o Réu condenado, que então pode ser objeto de execução provisória da pena, enquanto apela a esforços extraordinários juntos aos Pretórios Soberanos.

Agora, esmagados por forças ocultas inefáveis, os ministros do Supremo se contorcem em malabarismos hermenêuticos, às vezes risíveis, para fundamentar e motivar um resultado que corresponde ao script já consabido e consagrado entre eles.

Ainda bem que nesta aguda quadra da história brasileira resta o chamado “quarto poder da República”, que é a grande imprensa livre, em defesa do estrato consequente do povo – composto pelos cidadãos de bem, que não sorveram o infecto mel da pústula e que não foram inoculados pela cegante paixão ideológica.

Que Deus se apiade de nossas almas!





 *NOTA: O título é uma paródia da célebre frase do conto “O Moleiro de Sans-Souci”, de François Endriex (1759-1833), atribuída a um aldeão alemão ao Imperador Frederico II, monarca do Século XVII, que lhe queria confiscar injustamente a propriedade: “Isso só seria possível se não houvesse juízes em Berlim”.
      


quinta-feira, 22 de março de 2018

COLUNA VICENTE ALENCAR - 22.03.2018



COLUNA DO VICENTE ALENCAR

Nº 1242 - Quinta-feira, 22 de Março de 2018.

Colaboração: Fernando de Alencar, Jovino Nunes de Alencar, Cláudio Barreto, Lúcio Rogério, Jovino nunes de Alencar.
Fortaleza – Ceará – Brasil





O BRASIL ACIMA DE TUDO!

O Intelectual cearense – maior Historiador do Brasil – João Honório Capistrano de Abreu já dizia:

“A Constituição Brasileira precisa apenas de dois Artigos:

1º – Cada brasileiro precisa ter vergonha na cara.

2º – Revoguem-se todas as disposições em contrário.”


REUNIÃO DA ACEMES NESTA NOITE

Às 19 horas desta quinta-feira no Salão Macambira, no Ideal Clube, reunião da Academia Cearense de Médicos Escritores-ACEMES. O Presidente José Maria Chaves (Mainha) lembra a necessidade da presença de todos os Membros Efetivos.


WALTER FAZ CONVOCAÇÃO

O Diretor Tesoureiro da ACEMES, Acadêmico Walter Miranda solicita a todos que cumpram o horário, pois ele precisa sair ao final da reunião para o Estádio Castelão, onde verá de perto o embate entre o Fortaleza (O Clube da Garotada) e o Ferroviário (O Clube das Temporadas) pelo Campeonato Cearense deste ano.


Bullying”: UMA GRANDE BESTEIRA:

Continuam alguns brasileiros que se esqueceram que foram crianças com muitas brincadeiras nas Escolas Particulares ou Públicas. 

É moda estes mesmos, adultos hoje, condenarem aquelas brincadeiras, num tempo em que existiam dois sexos: masculino e feminino (atualmente devem passar de dez). Para se passarem por “bonzinhos’, ou atualizados, muitos chamam as brincadeiras  de bullying, um modismo besta norte-americano.

Como alguns brasileiros adoram “aparecer”, imitando aquele país que queimou 128 mulheres que reivindicavam melhoria de salario (daí o nascimento do Dia Internacional da mulher, em homenagem póstuma as assassinadas dentro do galpão de uma fábrica), ficam com essa bobagem de bullying.


INOVAÇÕES TECNOLÓGICAS

O Presidente Albersio Lima, da Academia Cearense de Ciências, está convidando para a Palestra de Roberto Barcelos às 17 horas de segunda-feira, dia 27, no Labomar – Laboratório de Ciências do Mar. Endereço: Av. da Abolição, 3207, no Meireles.


ARTIGO - Uma Crise Sem Fim (RMR)



UMA CRISE SEM FIM
Rui Martinho Rodrigues*



A Lava Jato não tem fim. Uma investigação revela novos crimes, novos envolvidos. A sequência é interminável. Não se sabe o que acontecerá com os candidatos. Novas denúncias, prisões e condenações poderão surgir. O Legislativo e o Executivo são os alvos das investigações anunciadas, além das inesperadas e possíveis.

A maioria dos políticos está envolvida nos escândalos ou é solidária com os indiciados e condenados. A situação é grave e sem solução. A limpeza dos poderes políticos deveria ser feita pelos políticos. A democracia, porém, não tem defesa contra as maiorias corruptas, isto sugere uma crise de solução difícil.

Aristóteles (384a.C. – 322a.C.) descreveu os regimes políticos e as suas formas degeneradas. A monarquia tenderia a degenerar em tirania; a aristocracia penderia para a oligarquia; e a democracia decadente se tornaria um regime demagógico. Temos hoje uma onda de “populismo”, eufemismo para demagogia.

O Judiciário deveria ser a última trincheira de defesa da ordem jurídico-democrática. Não poderia, para tanto, usurpar o papel do Legislativo e do Executivo. Mas o que vemos é a judicialização da política e das relações sociais.

O primeiro destes desvios resulta de um conjunto de fatores, entre os quais a “Nova Hermenêutica Constitucional”, que enfatizando conceitos indeterminados, tais como razoabilidade, equidade, dignidade humana e justiça, propugna por mais discricionariedade nas decisões judiciais, usando como escudo a positivação de princípios na Carta Política de 1988, a unidade do sistema jurídico, a hierarquia entre as normas e a interpretação sistemática. 

Em defesa da discricionariedade alegam assegurar o resguardo da segurança jurídica pela obrigação do magistrado fundamentar suas decisões, como se não fosse possível, com algum engenho e pouco escrúpulo, fundamentar qualquer coisa, a exemplo do que foi feito com o meio impeachment da presidente Dilma. O ativismo judicial é outro fator de politização do Judiciário. A fragilidade dos outros poderes é outro fator. Ocupar as lacunas da omissão do Legislativo, outra desculpa. Mas o STF não é órgão supletivo do Legislativo e a omissão da Congresso é um veto tácito.

O STF age como junta governativa, um “tenentismo de toga”. Interrompeu uma sessão para vários ministros, inclusive a presidente da casa, proferirem discursos de protesto pelo assassinato de uma vítima com mandato político, mas dezenas de vereadores e prefeitos têm sido mortos sem o Pretório Excelso se manifestar. É óbvia a solidariedade com um tipo de ativismo, difícil de distinguir de exploração política.

Enquanto a França prende Sarkozy, o STF exige da sua Presidente fazer uma sessão especial para mudar a jurisprudência (não entro no mérito da questão, mas na oportunidade da mudança subitânea), para salvar o Lula. Não cabe preocupação com a ordem pública depois do impeachment, da condução coercitiva e das duas condenações seguidas do Lula, nas duas primeiras instâncias, sem a menor repercussão.


CRÔNICA - A Praça (ES)



A PRAÇA
Edmar Santos*


Edgar é um neófito cidadão, e apesar dos tenros anos de idade – hoje dois – traz consigo no bolso da mochila enfeitada com a gravura do Mickey Mouse seus registros sociais RG e CPF, expedidos pelos órgãos públicos responsáveis.

Logicamente, desconhece a historicidade que envolve a Praça dos Mártires, projetada pelo engenheiro militar Silva Paulet e construída em 1890. Esta foi palco da execução de alguns revolucionários do movimento emancipatório denominado Confederação do Equador, nos idos de 1825.

O Passeio Público, assim hodiernamente conhecido, teve sua época decadente nos anos 90, quando foi ambientado pelo tráfico de drogas e pela prostituição. Apenas no ano 2000, e depois em 2007, é que passou por processos de revitalização.

Edgar frequentou a praça para comemorar, com seus entes queridos, seu primeiro ano de vida, em 2017. Saboreou guloseimas em um divertido piquenique, à sombra do velho baobá, árvore centenária que lá embeleza o lugar, enquanto os smartphones lhe registravam fotos e vídeos para a posteridade.

Voltaria meses depois, desta feita para sua primeira experiência carnavalesca. Bandinha, confetes e serpentinas faziam o colorido e a animação da festa momina para a meninada.

Após várias peripécias, Edgar descansou sonolento no colo materno, que lhe acolhia junto ao banco que fica ao lado do simpático restaurante, de onde se pode admirar o mar ao longe. Certamente desejará retornar! Seu semblante de alegria revela isso. Espera presenciar mais atrativos lúdicos e divertidos.

Das facetas históricas, esta é a melhor, um lugar para as crianças. “A praça é nossa!”.



POEMA - A Fonte (CF)


A FONTE
Concita Farias*





A fonte vive
A murmurar,
É pedindo a Deus
Para não secar.

Ela sabe que tem poder,
Poder de alegrar
Por onde vai passar.

Seu corpo é água,
Sua alma também.
Tem força na natureza
Como poucos elementos têm.

Água é vida,
Humanidade!
Temos que preservar.

A fonte vive
A murmurar,
É pedindo a Deus
Para não secar.



COMENTÁRIO

Simplicidade, beleza, sabedoria e momento azado!

Vianney Mesquita