sábado, 3 de maio de 2025

Análise Crítico-Literária do Soneto Barbeiro de Antanho (SN)

ANÁLISE CRÍTICO-LITERÁRIA
DO SONETO BARBEIRO 
DE ANTANHO 

Sousa Nunes*


(Decodificação para Língua Prosa)

 

 

 BARBEIRO DE ANTANHO

Vianney Mesquita

(Rimas Encadeadas nos Quartetos)

 

Se crês que, deixando crescer a barba, adquires sabedoria, o bode de lindo ornato já nasce um Platão completo.  [LUCIANO DE SAMÓSATA, literato turco. Província Romana da Síria - Turquia, 125; Atenas, 181). Obs. Não usava barba.

 

 

Nívea, repousa na minha lembrança,
Descansa esta memória dos barbeiros,
Matreiros, profissionais brejeiros,
Labrocheiros, porém com temperança.
 
Na dança de apólogos passageiros,
Ligeiros – e se freguês criança? –
Não cansa o intento da autoconfiança
Na mansa via dos cabeleireiros.
 
Caiçara ou caipira analfabeto,
Certo e errado, porém diz direto
No mesmo ensejo em que o cliente anui.
 
Na barba fluiu sangue após raspagem
De sorte que ele faz esta abordagem:
Quer “arco”, quer “tarco” ou quer que “ mui”? 

 

O soneto decassílabo lusitano Barbeiro de Antanho, do escritor palmaciano-cearense Vianney Mesquita, propõe uma fotografia pitoresca, bem-humorada e de leve sabor memorialista de uma figura típica do cotidiano antigo: o barbeiro popular. Inspirando-se, subsidiariamente, na epígrafe irônica de Luciano de Samósata – que ridiculiza a associação entre barba e sabedoria -, o poema constrói um painel de costumes em que a simplicidade popular é retratada com afeto e aguda percepção crítica. 

TEMA E TÍTULO 

O título, Barbeiro de Antanho, indica de imediato a perspectiva nostálgica: constitui o retrato de um tempo passado (“antanho”) em que o barbeiro era uma figura central em pequenas comunidades – conforme era a Palmácia do Poeta – tanto como profissional quanto na qualidade de contador de histórias, centro de conversas e, às vezes, quase uma espécie de “filósofo” popular. 

O mote central é a relação entre aparência e sabedoria – ou melhor, a falta de compasso entre elas -, tratado de modo irônico e afetuoso, em chave de crônica consoada - e com rima encadeada nos quartetos. 

LINGUAGEM E ESTILO 

A linguagem é viva, coloquial em muitos momentos, mas cuidadosamente elaborada. Expressões como “matreiros”, “brejeiros”, “labrocheiros” conduzem riqueza sonora e intensa conotação cultural, aproximando o leitor do universo simples e rústico evocado. 

O humor está em todo o poema, mas não é uma graça depreciativa, pois constitui uma celebração da autenticidade popular, mesmo quando mistura erro e acerto, sabedoria e ignorância (“Caiçara ou caipira analfabeto, /Certo e errado, porém diz direto”). 

O soneto é estruturado em versos decassílabos que fluem com leveza e agrado, reforçando a impressão de naturalidade e espontaneidade.

ESTRUTURA ARGUMENTATIVA 

As estâncias se organizam em duas etapas principais:

– Nos quartetos, evoca-se a memória dos barbeiros como tipos populares, destacando sua astúcia, alegria e modesta autoconfiança, mesmo diante de suas limitações. 

– Nos tercetos, mostra-se uma miúda cena humorística: após um corte de barba malfeito que provoca sangramento, o barbeiro oferece ao cliente, com seu linguajar pitoresco, três opções de “tratamento”, cuja pronúncia mal articulada reforça o retrato carinhoso de sua simplicidade. 

A progressão da poesia é narrativa e visual, como uma pequena crônica, rimada em miniatura. 

SIMBOLISMO E FILOSOFIA 

O barbeiro de antanho representa mais do que um tipo social, porquanto é símbolo de uma sabedoria instintiva, prática, muitas vezes desprovida de educação formal, mas cheia de experiência de vida. Em contraste com a falsa ideia de que a aparência (como o uso da barba) conduz automaticamente à sabedoria – ironizada já na epígrafe – o conjunto poemático sugere outra modalidade de erudição: aquela que nasce da vida simples, da prática cotidiana e da convivência direta, experimentada por V.M. na Palmeiras de antanho, hoje Palmácia. 

Há também um leve subtexto sobre as ilusões humanas: tanto o cliente quanto o barbeiro/cabeleireiro aceitam os acidentes da vida (como o corte acidental) com resignação e humor, sem dramatismo – uma lição tácita sobre aceitar as imperfeições com leveza. 

TONALIDADE E MUSICALIDADE 

O tom do poema é leve, bem-humorado e nostálgico, com momentos de ironia suave. A musicalidade é bem trabalhada: as rimas nos quartetos e tercetos concedem a essa produção poética uma cadência agradável, quase conversacional, que reforça o espírito de anedota viva a perpassar toda a composição. 

REMATE 

Barbeiro de Antanho é um soneto de memória afetiva e crítica branda, em que Vianney Mesquita combina humor popular, ironia filosófica e grande habilidade formal. Mediante a estampa do barbeiro rural, o Poeta recobra um mundo desaparecido, mas o faz sem saudosismo ingênuo: é um olhar lúcido, que reconhece as limitações daquele universo, mas também celebra sua autenticidade e lhe festeja a vitalidade. 

A combinação de linguagem rica, ritmo fluido e crítica sutil torna a composição sob comento uma peça deliciosa de ler e de reler, oferecendo tanto prazer estético quanto alimento para a reflexão sobre as falsas aparências e o valor da sabedoria prática.


 

quinta-feira, 1 de maio de 2025

ARTIGO - Ana Paula Ribeiro - Vianney Mesquita (SN)

Excursão da Prof.a. Dra. Ana Paula de M. Ribeiro pela mais Recente Produção de Vianney Mesquita
 Sousa Nunes*


As cores esboçam o corpo, entretanto o que delineia a alma são as obras (FRANCISCO DE QUEVEDO Y VILLEGAS)

 



Assinala Quinto Horácio Flaco, em sua Arte Poética: Muitas palavras que já caíram renascerão, e as que agora estão em voga e estimação também hão de cair, se assim o quiser o uso, o qual é o juiz, o árbitro da linguagem. 



Vem o sábio Napoleão Mendes de Almeida e completa: Não disse HORÁCIO que tanto mais caprichoso é o uso de um idioma quanto menos escolas tem a Nação que o fala? De tal forma se entranham solecismos e barbarismos no falar de universitários que de estranho nada se poderá encontrar dentre pouco na afirmação de que a língua que se fala no Brasil não tem gramática nem vocabulário que a caracterizem. Se não há muito escarnecia-se o erro, hoje o estudioso e lido é o que se escarnece (Dicionário de Questões Vernáculas).

Assente neste fertílimo terreno regado por Quevedo, Horácio e N. M. Almeida, reporto-me a uma alteada manifestação de Ana Paula em relação ao novo livro, Reservas da minha Étagère, do Prof. Vianney Mesquita (Arcádia Nova Palmaciana / Academia Cearense de Literatura e Jornalismo – 2024), ao se debruçar com rigor e sensibilidade sobre essa obra monumental, em texto editado aqui na ACLJ, em 24 de abril recém transato (Nas Prateleiras do Gênio).

Ana Paula de Medeiros Ribeiro, além de cumprir a exigente tarefa de análise crítica, o fez com a rara firmeza de quem alia erudição sólida a uma percepção estética apuradíssima. 

Sua resenha, moldada com a argúcia de quem compreende o labor e a vastidão de uma inteligência em estado de emoção contínua, é, ela própria, um tributo à obra que comenta. 

De frase em frase, desenha-se o contorno da grandeza do Autor comentado, ao mesmo tempo que o lê e decodifica com visão atenta à arquitetura da linguagem e à tessitura do pensamento. 

A obra de Vianney Mesquita, densa, original e inconfundível, procede de uma inteligência invulgar – dessas que transitam com igual desenvoltura pela reflexão filosófica, via crítica filológica e caminho da expressão literária, compondo um conjunto que desafia classificações fáceis e exige do leitor atenção e, particularmente, reverência. 

Há na pena de Ana Paula admirável configuração de clareza e profundidade, sobriedade e entusiasmo discreto – virtudes raras, que fazem de sua resenha um juízo acerca de uma produção científica, literária e, mormente, um gesto de verdadeira celebração intelectual.

Ante a grandiosidade do Autor e da inteligência da Leitora sob escólio e que o examinou, resta-me o grato sentimento de que a palavra escrita continua sendo, em mãos de tal modo hábeis, o mais nobre veículo da permanência e da consagração. 


quinta-feira, 24 de abril de 2025

ARTIGO - Nas prateleiras do Gênio (APMR)

 NAS PRATELEIRAS
DO GÊNIO
(Excursão em Reservas da minha Étagère, de Vianney Mesquita)

Ana Paula de Medeiros Ribeiro*

 

A verdadeira facilidade de escrever provém da arte e não do acaso. ALEXANDER POPE.

       

Ler Reservas da minha Étagère foi como ingressar em uma cápsula literária, ser arremessada para dentro de um caleidoscópio e orbitar entre múltiplos arranjos de erudição e de estilo.

A obra, publicada em 2024 pela Expressão Gráfica, apresenta-se como um relicário! São vinte e cinco peças exímias de apreciação crítica que revelam o pensamento vasto e a inteligência singular do autor. 

Vianney Mesquita, mestre de estirpe intelectual elevada, imortal da Academia Cearense da Língua Portuguesa, da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo e da Arcádia Nova Palmaciana (fundador) e cultor supremo da língua, finca sua pena nas 180 páginas da obra com a elegância de um espadachim clássico. 

Cada capítulo, ora ensaístico, ora dissertativo, por vezes laudatório, apresenta-se como uma obra repleta de refinamento vocabular e exatidão sintática que fazem da leitura um exercício de elevação intelectual. 

A diversidade temática presente no livro é sobremaneira notável: Filosofia, História, Direito, Educação, Medicina e Literatura. As obras apreciadas, de autores oriundos das mais prestigiadas universidades do Ceará e de fora dele, ganham, sob o crivo de Vianney, uma releitura que transcende o comentário acadêmico. Sob a visão de Vianney, tornam-se peças dialógicas e intertextuais que expandem o conhecimento que já traziam originalmente. 

O estilo de Vianney possui feição inconfundível! Suas escolhas léxicas e a orquestração da pontuação conduzem o leitor em trilhas sonoras, musicadas sintaticamente como o fazem os grandes escribas da língua portuguesa. 

Não bastasse a excelência das apreciações, o fecho do volume é coroado com oito textos laudatórios redigidos por distintos autores sobre obras do próprio Vianney, um epílogo que não apenas homenageia, mas ratifica o lugar de destaque que ocupa o autor nas letras brasileiras. 

A excursão pelas prateleiras do gênio fez-me rendida pelo encantamento do rigor, da erudição e da poesia de sua inteligência! 

Foi raro deleite! 

Fortaleza, 22 de abril de 2025.


sábado, 19 de abril de 2025

NOTA ACADÊMICA - 15ª Assembleia Geral Aniversária

ACLJ
TRÊS LUSTROS DE EXISTÊNCIA VIRTUAL
14º ANO DE SUA INSTALAÇÃO OFICIAL


A Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, a ACLJ, chega aos quinze anos de sua gestação, e quatorze da solenidade de sua instalação oficial. 


ANIVERSÁRIO 

Neste primeiro quarto de século a existência da ACLJ transcorreu brilhantemente, com grandes realizações no campo da literatura e da cultura cearense como um todo – acontecendo exatamente na transição entre o jornalismo exclusivo de imprensa física, radiofonia e televisão, para a comunicação cibernética direta e interativa pelas redes sociais da Internet. 

Essa confraria de letrados tornou-se a mais operosa e prestigiada do Ceará, que dentre as Unidades da Federação é pioneiro na criação de entidades desse gênero, e tem tradição de instituir congêneres, reunindo uma diversidade de vocações artísticas e de vertentes do intelecto, disseminadas por todas as regiões e maiores cidades do Estado.


SOLENIDADE – POSSES 


Na Assembleia Geral Aniversária da ACLJ deste ano, prevista para o dia 14 de maio, no auditório principal do Palácio da Luz, tomarão posse na dignidade de Membros Beneméritos o economista e professor Gonzaga Mota, Ex-Governador do Estado, e o engenheiro e megaempresário José Carlos Pontes, CEO do Grupo Marquise, nomes propostos pelo empresário Beto Studart, Membro Benemérito, e eleitos pela Decúria Diretiva.

 

SOLENIDADE – DOCUMENTÁRIO

A pauta do cerimonial deste ano não terá a tradicional retrospectiva vídeo-fotográfica. A Decúria Diretiva resolveu, em vez disso, dedicar a sessão natalícia ao teatro cearense, tendo em vista que, no ano do advento da instituição, ocorreu a última temporada da opereta A Valsa Proibida. 

A única peça do teatro clássico produzida no Estado, que estreou em 1941, a opereta foi um fenômeno de público e de crítica a cada uma das suas várias montagens, recorde de lotação do Teatro José de Alencar – até a primeira década deste século. Dois de seus coautores são Patronos Perpétuos de cadeiras da ACLJ, cujos acadêmicos titulares são respectivos filhos deles.

 

A peça teve todos os seus diálogos escritos pelo dramaturgo Silvano Serra (pseudônimo de Joaquim Gomes Filho [1904-1982]), pai do Stênio Gomes, de atuais 82 anos; a letra da música-tema é do intelectual Otacílio de Azevedo [1892-1978], pai do Nirez (pseudônimo de Miguel Ângelo de Azevedo), hoje com idade de 91 anos, todos pertencentes à quadraginta numerati da ACLJ.  O autor das músicas da opereta, por seu turno, foi o artista sônico Paurilo Barroso [1894-1968]. 

O Grupo Empresarial M. Dias Branco patrocinou a elaboração de um interessante documentário sobre A Valsa Proibida, e a Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec) prestou apoio cultural, trabalho videográfico primoroso, elaborado e dirigido pelo jornalista e pesquisador Roberto Bomfim, e produzido pela Zoom Digital, do videomaker Eduardo Barros Pinheiro. 

Ao final da solenidade será exibido o documentário referido, um verdadeiro show de cultura e memória histórica do Estado Alencarino.

 

ARCÁDIA ALENCARINA

Abrindo a semana de aniversário da ACLJ, no dia 03 de maio a Arcádia Alencarina, composta pelos acadêmicos acelejanos fardonados que subvencionam a entidade, promoverão uma reunião especial para dar posse a duas novas acadêmicas, a jornalista Gabriela de Palhano, que sucederá à avó, Wanda Palhano, na Cadeira nº 7, e a Procuradora da Fazenda Nacional Liana Ximenes Lessa, que, por seu turno, será sucessora do pai, o poeta Paulo Ximenes, na Cadeira nº 12.





sexta-feira, 18 de abril de 2025

CRÔNICA - Ecce Lignum Crucis, In Quo Pependit Salus Mundi (PN)

 Ecce lignum crucis,
in quo pependit salus mundi
Pierre Nadie*

 

Diante do lenho da cruz, a Nova Aliança foi selada com a morte do Cordeiro, na presença dolorosa de Sua santíssima Mãe, que O trouxe no ventre e que O amamentou no colo e que lhe ensinou os primeiros passos e as primeiras palavras.

 

Ante este sacrossanto lenho, eu Vos adoro com todas as minhas energias, com todo o meu ser, molhado pela água do Batismo e resgatado pelo Sangue eucarístico, jorrado de Vosso peito, ainda no alto da cruz. 

“Eis-me aqui, ó Bom e Dulcíssimo Jesus. De joelhos, prostro-me em Vossa Presença. Diante de Vossas cinco chagas, contemplo Vossa terrível dor e, com reconhecimento pelo seu infinito amor, Vos peço e suplico, com todo fervor de minha alma, que Vos digneis gravar, no meu coração e na minha mente, os mais vivos sentimentos de fé, esperança e caridade. Dai-me um verdadeiro arrependimento de meus pecados e o firme propósito de emenda, mesmo nas minhas fragilidades e limitações.” (esta oração cfe. editorasantacruz.com.br e com adaptação). 

“Quem invocar a Virgem Maria por suas dores e prantos terá a ventura de fazer verdadeira penitência de seus pecados, antes de morrer. E quem, por memória das dores e prantos de Nossa Senhora, incluir, em seu entendimento, também as da Paixão, receberá no Céu um prêmio especial”. (São João Evangelista, em visão a Santa Isabel da Hungria).

Eis o lenho da Cruz, no qual dependeu a salvação do mundo.

Venite, adoremus.

CRÔNICA - Reflexões Sobre o Período Pascal (GM)

REFLEXÕES SOBRE
O PERÍODO PASCAL
Gonzaga Mota*  

O período da Semana Santa representa o mais significativo para reflexões, vez que é a vitória da vida sobre a morte – ressureição de Cristo – ou seja, do bem sobre o mal.

 

Dentro desta linha de pensamento, é básico reconhecermos a importância dos valores espirituais sobre os materiais. Aqueles que são duradouros e nos conduzirão, sem dúvida, à vida eterna. Estes são efêmeros e nem sempre nos proporcionam, apesar do aparente conforto, a alegria permanente. 

Por sua vez, os sentimentos de solidariedade e amor objetivando alcançar a felicidade e o propósito da vida são fundamentais. O ódio, a falsidade, a inveja, a ambição, o orgulho, dentre outros, são comportamentos incompatíveis com uma existência saudável.

Já o ecumenismo, o perdão, a tolerância, a humildade e outros nos conduzem ao sentimento da generosidade. Ademais, é mediante a oração e a meditação que encontramos, os estados mentais positivos e nos afastamos dos negativos. 

O que somos é consequência do que pensamos. O que alcançamos decorre da busca das virtudes teologais (fé, esperança e caridade), consequentemente da nossa crença em Deus. 

Por outro lado, a violência em todas as suas formas – desemprego, fome, corrupção, analfabetismo, etc. – leva a sociedade a um clima de perplexidade e apatia, motivando mais violência e mais injustiça.

 

A análise destas reflexões nos faz lembrar dois grandes teólogos. Santo Agostinho: “O supérfluo dos ricos é o necessário dos pobres” e Santo Tomás de Aquino: “Há homens cuja fraqueza de inteligência não lhes permitiu ir além das coisas corpóreas”. Cristo sofreu para nos salvar. 

P.S. “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. (João, 14.6)


ARTIGO - Morte e Ressurreição na Teologia Cristã (BA)

 Morte e Ressurreição
na Teologia Cristã
Barros Alves*

 

O apóstolo Paulo, na Primeira Epístola aos Coríntios, cap.15, vers. 14, empreende uma discussão sobre a ressurreição de Jesus e sua importância para a fé cristã. Trata-se de uma crença central no Cristianismo, cujo ensinamento e importância se impunham naquele momento inicial da pregação apostólica. O Apóstolo dos Gentios argumenta que se Jesus não ressuscitou, então a fé cristã é sem fundamento e os cristãos são os mais miseráveis de todos os homens. 

Porém, talvez pela força da tragédia no imaginário popular, o simbolismo que assomou ao longo da História da Igreja, em especial no Catolicismo foi o da cruz, ou seja, o objeto de opróbrio relacionado com a morte. É necessário morrer para ressuscitar, mas penso que a Teologia da Ressurreição deveria ser prevalecente na Igreja cristã. A sexta-feira, dia em que Jesus foi assassinado e em que se rememora a Paixão de Nosso Senhor, é o mais guardado da Semana Santa, pela piedade dos cristãos. 

Os primeiros escritores da Cristandade já se debruçavam sobre a cruz em êxtase e no período Medieval esse sentimento chegou às raias do fanatismo insano. A Teologia da Cruz é tema de profundos debates e grandes tratados dogmáticos. Na Teologia de Santo Agostinho encontramos a cruz como símbolo da salvação. Ele argumentou que a cruz é um lembrete do amor de Deus e da salvação que Ele oferece. O Bispo de Hipona acreditava que a morte de Jesus libertou a humanidade do pecado e da morte eterna. Ao morrer na cruz, pagou o preço do pecado humano e permitiu que a humanidade fosse libertada da escravidão do pecado. Isto é central no pensamento cristão.

 

Santo Tomás de Aquino, o Teólogo por excelência, ensinou que Jesus, como o Filho de Deus, tinha o poder de dar sua vida e que sua morte foi um ato de amor e obediência ao Pai. Aquino desenvolveu a Teoria da Satisfação Vicária, segundo a qual Jesus, como inocente, sofreu e morreu em lugar dos pecadores, satisfazendo a justiça divina e permitindo que a humanidade seja salva. Para o inexcedivel teólogo, a paixão de Cristo foi tão valiosa que superou a dívida do pecado humano e permitiu que a humanidade fosse reconciliada com Deus. Sem a morte de Jesus, a humanidade não poderia ser salva do pecado e da morte eterna. 

Enfim, todos os grandes mestres da Teologia cristã enfatizaram a paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo como ponto fulcral sem a qual não haveria a redenção da humanidade. Com tanta gente de bom quilate falando sobre a importância da morte salvífica de Jesus, pouco sobrou para a ressurreição na foto da Teologia cristã.

Artigo publicado no Jornal O Estado, edição de 18.04.25