domingo, 13 de setembro de 2026

ARTIGO - O Leviatã (RMR)

 O LEVIATÃ
Rui Matinho Rodrigues*


 

O Estado surgiu em civilizações que ultrapassaram a horda primitiva, ou agrupamentos clânicos e tribais, atendendo à complexidade crescente das sociedades que passaram da vida nômade para o sedentarismo, praticando agricultura. Darcy Ribeiro (1922 – 1997), na obra O processo civilizatório, descreve a origem do Estado. A Primeira Revolução Verde, com a agricultura e a sociedade mais complexa que ela criou, seguida pela Segunda Revolução Verde, com a irrigação, deu um salto na complexidade da sociedade. Então surgiu o Estado. 

A grande produtividade liberou parte de mão de obra da agricultura para outras atividades. Surgiu a divisão do trabalho e a necessidade de escolas para atender à demanda pelo aprendizado de novas ocupações. Concentrações urbanas cresceram surgiram os impérios do regadio com exércitos permanentes e burocracias que precisavam de escrita. Isso exigiu a administração centralizada dos conflitos, dos meios de subsistência e das relações de poder com outras sociedades. 

A insegurança da justiça privada, a criminalidade e a guerra inspiraram a criação do Estado poderoso. Não como um projeto concebido pronto e apresentado a uma assembleia reunida em uma clareira na floresta, como pode parecer pela leitura de algumas obras contratualistas. O poder que Thomas Hobbes (1588 – 1679), na obra Leviatã, aludiu à maior e mais poderosa organização política, nomeando-a com o nome do monstro mitológico que usou no título da obra mencionada. O poder corrompe e o poder absoluto corrompe de forma absoluta, segundo o Lord Acton (1834 – 1902). 

A criatura concebida para proteger, revelou-se, potencialmente uma grave ameaça. A transição da organização tribal para o Estado Nação, em Israel, se deu entre 1050 a.C. e 1010 a.C. Relata o 1º livro de Samuel que havia, até então, um governo de juízes, confirmando o livro de Juízes, mas no final deste período houve uma guerra civil que quase extinguiu a tribo de Benjamim, por causa de um crime para o qual não houve um juiz colocado acima das tribos, para solucionar o problema. 

O 1º livro de Samuel relata o descrédito dos filhos e sucessores de Eli, juiz de grande prestígio e liderança, já idoso, cuja sucessão se aproximava. A guerra civil mencionada ressaltara a importância de um poder acima das tribos. O povo pediu um rei, fato que desagradou ao profeta Samuel, conforme lemos em 1º Samuel 8.6: 

“Quando, porém, disseram: dá-nos um rei para que nos julgue, isso desagradou ao Samuel (...)”. 

O profeta tinha fundadas razões para manifestar desagrado em face do advento de um poder centralizado e forte, embora soubesse também o quanto era necessário à defesa diante da ameaça dos filisteus, fato que exigia de Israel um exército permanente; assim como em razão da demanda por um juiz acima das divisões tribais. Mas o vidente vaticinou a ameaça que é o Leviatã, no 1º livro de Samuel 8. 10-17, com os nossos comentários entre colchetes: 

Samuel transmitiu todas as palavras do Senhor ao povo, que lhe pedia um rei, dizendo: este será o direito [poder] do rei que governará sobre vocês: ele tomará os filhos de vocês para servir-lhe nos seus carros de guerra e na sua cavalaria e para correr à frente dos seus carros de guerra. Porá alguns como comandantes de mil e outros como comandante de cinquenta [ênfase na hierarquia social]. Ele os fará arar as terras dele, fazer a colheita e fabricar armas de guerra e equipamentos para os seus carros de guerra [poder sobre a economia]. 

Tomará as filhas de vocês para serem perfumistas, cozinheiras e padeiras [controle do trabalho]. Tomará de vocês o melhor das plantações e dos olivais e o dará aos criados dele [carga tributária abusiva]. Tomará um décimo dos cereais e da colheita das uvas e o dará aos seus oficiais e aos seus criados [privilégios do estamento burocrático]. 

Também tomará de vocês para seu uso particular os servos e as servas, bem como o melhor do gado e dos jumentos. Tomara de vocês um décimo dos rebanhos, e vocês mesmos se tornarão servos dele [perda da liberdade]. A profecia de Samuel foi confirmada ao longo dos tempos. 

A divisão das funções do Estado em três instituições independentes, o devido processo legislativo, eleições limpas e demais garantias democráticas tem contido os abusos do grande poder, mas ao menor descuido o Leviatã corrompe, se corrompe de modo absoluto e deixa de se constranger ao praticar ilícitos escancaradamente. 

A decadência da democracia, transfigurada em demagogia, como previu Aristóteles (384 a.C.– 322 a.C.), anda de mãos dadas com a corrupção. Condutas desregradas podem derrubar regimes facinorosos, a exemplo do Império Otomano e do Regime Soviético. Mas há exemplos de estruturas de poder corruptas que permanecem, através dos séculos, praticando desonestidades e outros desvios de conduta.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

CRÔNICA - O Guia Mudo de Macau (CRA)

 O GUIA MUDO DE MACAU
Carlos Rubens Alencar*

 

 Anos de viagens, mas é sempre uma novidade. 

Dias destes li numa revista de bordo que, quando viajamos, nós nos transportamos. E faz sentido. É a alma que se transforma quando os sentidos são ativados pelo novo. 

Depois de tantos anos na estrada, no ano passado tive uma experiência maravilhosa no Sudeste Asiático. 

Após um passeio de barco que me remeteu a uma travessia de Aliscafo de Colônia de Sacramento, no Uruguai, até Buenos Aires – um sonho que não acabava –   caí na real: o rumo agora era Macau. 

O universo chinês com uma forte influência portuguesa me trouxe uma situação inusual de pertencimento. As calçadas em pedra portuguesa, os azulejos, o cheiro de pastel de nata. Era tudo estranhamente familiar e, para facilitar, ainda tínhamos um receptivo. 

Na primeira parada, num mirante de visão maravilhosa e muitos atrativos, a curiosidade aumentou. Precisávamos entender o contexto, de pronto. 

E aí veio o que nos levou a uma grande reflexão: o guia era mudo. 

Não teve como não lembrar do poeta. A palavra já morreu. 

Fernando Pessoa dizia que viajar é ser outro. Naquele momento, sem ninguém para nos explicar, fomos obrigados a ser outros. O guia não falava, ele apontava. Com as mãos, com o olhar, com um sorriso que dizia “reparem”. 

Ele apontou para as Ruínas de São Paulo, depois para o ideograma dourado ao lado. Apontou para a velhinha rezando o terço e, logo depois, para a senhora queimando incenso. E não havia contradição.

Sem palavra, não havia disputa de qual Deus era o certo. Havia apenas a presença. A mesma força manifestada de jeitos diferentes, no mesmo largo, na mesma gente. Uma alegria silenciosa de perceber que o sagrado cabe em todo lugar quando a gente para de querer explicar demais. 

Quando a palavra morre, sobra o que importa: o gesto que acolhe, o olhar que reconhece, a sensação boa e estranha de estar em casa a 18 mil quilômetros de casa. 

Foi ali, com o guia mudo de Macau, que finalmente entendi a revista de bordo.


terça-feira, 8 de setembro de 2026

SONETO DECASSILÁBICO PORTUGUÊS (VM)

 FRANCISCO ANTÔNIO GUIMARÃES 
76 SETEMBROS
(Fortaleza, 09.09.1950)
 
Vianney Mesquita*

 

O homem é um novato em cada idade. (Sébastien-Roch Nicolas, dito NICOLAS DE CHAMFORT – (jornalista, moralista e escritor francês. 06.04.1740; 13.04.1794).

 

                    

Os professores palmacianos da UFC – Francisco Antônio Guimarães e Vianney Mesquita, árcades novos-fundadores da Arcádia Nova Palmaciana, Josino Egeu e Jovem Khrónos, em um restaurante do Aeroporto Adolfo Suárez-Madrid-Barajas. Madrid-Espanha.

 

Desta cepa e de Cely descendente,
Perfaz hoje setenta e seis janeiros,
Sazões mui fulgurantes, sobranceiros,
Desviantes do mal subjacente.
 
Percebe-se, nem tudo é diamante
Na existência; tampouco prata e ouro.
E, vez por outra, se atura o desdouro,
Ao nos tornar longínquos do brilhante.
 
O Guimarães, porém, de fronte erguida,
Arrosta qualquer má acometida,
Ao prosperar, fagueiro e impoluto.
 
Retendo, assim, neste degrau da idade,
Metais e gemas, com habilidade,
É senhor do sucesso absoluto.


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

CRÔNICA - O Castelo do Plácido e a Apolo 11 (GT)

 O CASTELO DO PLÁCIDO
E A APOLO 11 
George Tabatinga*

 

Era o mês de julho, mês das férias escolares, e a meninada repetia as brincadeiras de sempre pelas ruas próximas ao famoso castelo abandonado, no coração do Bairro Aldeota, tempos atrás chamado Outeiro. 

A entrada principal era pela Av. Santos Dumont, que já foi Av. Nogueira Acioli, Número 9 e Rua Do Colégio[1]. Aquela edificação utilizava uma quadra toda, com casas no entorno, tipo chalés, que serviam de moradia aos serviçais. 

Mas a garotada nada sabia a respeito. Bom mesmo era burlar a vigilância de um zelador que morava num pequeno espaço no fundo do castelo. Seja para procurar oitis, castanholas ou tentar subir pelas escadas até a torre que ainda teimava em continuar de pé, imponente. 

Foi no dia 20 de julho que aqueles meninos, quase adolescentes, tentaram a proeza maior de subir os degraus de madeira, cheios de buracos, para lá de cima enxergar a nave Apolo 11 descendo na lua.


 O mais afoito chegara como muito esforço e risco ao último degrau quando o vigia, de posse de uma lasca de pau, bateu com força no corrimão da escada, estremecendo todo o conjunto espiral já bastante comprometido. 

Por sorte ninguém despencou do alto, mas foi um desespero só: pedaços de madeira escada abaixo e perna presa na estrutura do prédio. Enquanto o malvado vigia marcava um a um e ameaçava, caso viessem a entrar no castelo novamente. 

Faltou “uma peínha de nada” para verem a espaçonave descendo na lua. Quem sabe, no próximo lançamento!

[1] Registro de João Nogueira em Fortaleza Velha, página 43.




.....................................................................

VERSÃO VIDEOGRÁFICA


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

CRÔNICA - O Peso dos Encontros (VCPJ)

 

O Peso dos Encontros
Valdester Cavalcante Pinto Júnior*

 

Fortíssimo é quem se escuda por trás de sua fraqueza. (PIERRE DE LUZ, historiador e biógrafo francês. O mesmo Pierre Paul Soulanges Émile Henry de la Balnchetaí. 1893-1956)

           

Não sei até onde vai dar essa peleja. Não escolho essa palavra por acaso. Há vocábulos e expressões que já transportam uma pequena tragédia sonora, e peleja me parece uma delas. Pronunciá-la é quase admitir que estamos diante de uma luta que ninguém desejou, entretanto, por alguma ironia da existência, somos obrigados a travar. 

O convívio com pessoas que não sabem dividir espaços – e que, para completar a obra, só parecem encontrar alguma satisfação quando logram se convencer de que são somente elas – tem o curioso poder de transformar um lugar de trabalho em um pequeno teatro de guerra. 

Há criaturas que não ocupam um espaço – usurpam-no. Não dividem a luz – precisam apagá-la ao redor. Não convivem – estabelecem territórios. E, como toda pequena tirania, têm início por coisas aparentemente insignificantes, até que respirar no mesmo ambiente se torna quase um ato de resistência. 

É curioso observar o modo como algumas pessoas precisam diminuir os outros para experimentar a própria grandeza. Assim, passam a vida medindo presenças, contando aplausos e disputando a atenção alheia, sob um constante e vigoroso aparato de holofotes luminosíssimos, como se a existência fosse uma cerimônia na qual só houvesse um protagonista. 

Que pobreza de espírito deve ser essa de precisar que o outro desapareça para sentir-se inteiro! 

Há, porém, situação ainda mais sutil nessa história. Existem encontros que nos tornam maiores. Depois deles, saímos mais leves, dispostos, bem capazes de criar, pensar e agir. E existem os que fazem exatamente o contrário. Não deixam feridas visíveis, o que é uma grande vantagem para quem as provoca, mas retiram lentamente nossa disposição para a vida. 

É assim que certos ambientes nos latrocinam, sem levar a mão ao bolso em tempo algum. Primeiramente, conduzem o entusiasmo. Depois, a espontaneidade. Em seguida, transportam a vontade de falar. A posteriori, até o que antes nos dava prazer já parece um esforço desnecessário. 

É então que descobrimos uma verdade pouco conveniente: às vezes, não é o trabalho que nos cansa. São os encontros. E o maior equívoco dessas pequenas disputas está, certamente, em imaginar que a convivência exige a vitória de alguém, como se fosse necessário haver um vencedor para o outro existir. O mundo, felizmente, todavia, é mais generoso – e mais sensato — do que certas pessoas. Somos diferentes, pensamos de maneiras distintas, ocupamos lugares diversos. E é exato dessa pluralidade a nascer alguma coisa que merece ser chamada de mundo comum. 

O problema é inaugurado quando alguém acredita que um espaço compartilhado é uma ameaça à sua importância. De tal sorte, já não basta marcar comparecimento, impondo-se, porém, a necessidade de ser magnificamente notado ao lume dos refletores. Sobra insuficiente fazer bem, sendo preciso que ninguém realize melhor. Não satisfaz meramente ter voz. Impende silenciar os demais. 

E assim, pouco a pouco, a convivência deixa de ser encontro e se perfaz competição. Esta, sem dúvida, é a mais ordinária de tirania: aquela que não precisa de grandes poderes, uniformes ou decretos. Resolve uma pessoa convencida de que sua importância depende da insignificância dos outros. Há, porém, uma espécie de força muito mais rara: a de não precisar esmagar ninguém para permanecer de pé. 

Há grandeza em dividir a luz. Inteligência em reconhecer o brilho alheio. Liberdade em não precisar ser o único. Eis minha peleja: não vencer nem tomar o lugar de ninguém, tampouco disputar a condição de protagonista. Cumpre somente preservar em mim aquilo que certos encontros insistem em corroer  a alegria, a dignidade, a capacidade de criar e, sobretudo, a liberdade de existir sem transformar o outro em adversário, pois um ambiente é até passível de ser compartilhado por muitas pessoas e, ainda assim, a somente uma pertencer – psicológica e enfermiçamente.