O GUIA MUDO DE MACAU
Carlos Rubens Alencar*
Anos de viagens, mas é sempre uma novidade.
Dias destes li numa revista de bordo que, quando viajamos, nós nos transportamos. E faz sentido. É a alma que se transforma quando os sentidos são ativados pelo novo.
Depois de tantos anos na estrada, no ano passado tive uma experiência maravilhosa no Sudeste Asiático.
Após um passeio de barco que me remeteu a uma travessia de Aliscafo de Colônia de Sacramento, no Uruguai, até Buenos Aires – um sonho que não acabava – caí na real: o rumo agora era Macau.
O universo chinês com uma forte influência portuguesa me trouxe uma situação inusual de pertencimento. As calçadas em pedra portuguesa, os azulejos, o cheiro de pastel de nata. Era tudo estranhamente familiar e, para facilitar, ainda tínhamos um receptivo.
Na primeira parada, num mirante de visão maravilhosa e muitos atrativos, a curiosidade aumentou. Precisávamos entender o contexto, de pronto.
E aí veio o que nos levou a uma grande reflexão: o guia era mudo.
Não teve como não lembrar do poeta. A palavra já morreu.
Fernando Pessoa dizia que viajar é ser outro. Naquele momento, sem ninguém para nos explicar, fomos obrigados a ser outros. O guia não falava, ele apontava. Com as mãos, com o olhar, com um sorriso que dizia “reparem”.
Sem palavra, não havia disputa de qual Deus era o certo. Havia apenas a presença. A mesma força manifestada de jeitos diferentes, no mesmo largo, na mesma gente. Uma alegria silenciosa de perceber que o sagrado cabe em todo lugar quando a gente para de querer explicar demais.
Quando a palavra morre, sobra o que importa: o gesto que acolhe, o olhar que reconhece, a sensação boa e estranha de estar em casa a 18 mil quilômetros de casa.
Foi ali, com o guia mudo de Macau, que finalmente entendi a revista
de bordo.

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