sexta-feira, 11 de setembro de 2026

CRÔNICA - O Guia Mudo de Macau (CRA)

 O GUIA MUDO DE MACAU
Carlos Rubens Alencar*

 

 Anos de viagens, mas é sempre uma novidade. 

Dias destes li numa revista de bordo que, quando viajamos, nós nos transportamos. E faz sentido. É a alma que se transforma quando os sentidos são ativados pelo novo. 

Depois de tantos anos na estrada, no ano passado tive uma experiência maravilhosa no Sudeste Asiático. 

Após um passeio de barco que me remeteu a uma travessia de Aliscafo de Colônia de Sacramento, no Uruguai, até Buenos Aires – um sonho que não acabava –   caí na real: o rumo agora era Macau. 

O universo chinês com uma forte influência portuguesa me trouxe uma situação inusual de pertencimento. As calçadas em pedra portuguesa, os azulejos, o cheiro de pastel de nata. Era tudo estranhamente familiar e, para facilitar, ainda tínhamos um receptivo. 

Na primeira parada, num mirante de visão maravilhosa e muitos atrativos, a curiosidade aumentou. Precisávamos entender o contexto, de pronto. 

E aí veio o que nos levou a uma grande reflexão: o guia era mudo. 

Não teve como não lembrar do poeta. A palavra já morreu. 

Fernando Pessoa dizia que viajar é ser outro. Naquele momento, sem ninguém para nos explicar, fomos obrigados a ser outros. O guia não falava, ele apontava. Com as mãos, com o olhar, com um sorriso que dizia “reparem”. 

Ele apontou para as Ruínas de São Paulo, depois para o ideograma dourado ao lado. Apontou para a velhinha rezando o terço e, logo depois, para a senhora queimando incenso. E não havia contradição.

Sem palavra, não havia disputa de qual Deus era o certo. Havia apenas a presença. A mesma força manifestada de jeitos diferentes, no mesmo largo, na mesma gente. Uma alegria silenciosa de perceber que o sagrado cabe em todo lugar quando a gente para de querer explicar demais. 

Quando a palavra morre, sobra o que importa: o gesto que acolhe, o olhar que reconhece, a sensação boa e estranha de estar em casa a 18 mil quilômetros de casa. 

Foi ali, com o guia mudo de Macau, que finalmente entendi a revista de bordo.


terça-feira, 8 de setembro de 2026

SONETO DECASSILÁBICO PORTUGUÊS (VM)

 FRANCISCO ANTÔNIO GUIMARÃES 
76 SETEMBROS
(Fortaleza, 09.09.1950)
 
Vianney Mesquita*

 

O homem é um novato em cada idade. (Sébastien-Roch Nicolas, dito NICOLAS DE CHAMFORT – (jornalista, moralista e escritor francês. 06.04.1740; 13.04.1794).

 

                    

Os professores palmacianos da UFC – Francisco Antônio Guimarães e Vianney Mesquita, árcades novos-fundadores da Arcádia Nova Palmaciana, Josino Egeu e Jovem Khrónos, em um restaurante do Aeroporto Adolfo Suárez-Madrid-Barajas. Madrid-Espanha.

 

Desta cepa e de Cely descendente,
Perfaz hoje setenta e seis janeiros,
Sazões mui fulgurantes, sobranceiros,
Desviantes do mal subjacente.
 
Percebe-se, nem tudo é diamante
Na existência; tampouco prata e ouro.
E, vez por outra, se atura o desdouro,
Ao nos tornar longínquos do brilhante.
 
O Guimarães, porém, de fronte erguida,
Arrosta qualquer má acometida,
Ao prosperar, fagueiro e impoluto.
 
Retendo, assim, neste degrau da idade,
Metais e gemas, com habilidade,
É senhor do sucesso absoluto.


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

CRÔNICA - O Castelo do Plácido e a Apolo 11 (GT)

 O CASTELO DO PLÁCIDO
E A APOLO 11 
George Tabatinga*

 

Era o mês de julho, mês das férias escolares, e a meninada repetia as brincadeiras de sempre pelas ruas próximas ao famoso castelo abandonado, no coração do Bairro Aldeota, tempos atrás chamado Outeiro. 

A entrada principal era pela Av. Santos Dumont, que já foi Av. Nogueira Acioli, Número 9 e Rua Do Colégio[1]. Aquela edificação utilizava uma quadra toda, com casas no entorno, tipo chalés, que serviam de moradia aos serviçais. 

Mas a garotada nada sabia a respeito. Bom mesmo era burlar a vigilância de um zelador que morava num pequeno espaço no fundo do castelo. Seja para procurar oitis, castanholas ou tentar subir pelas escadas até a torre que ainda teimava em continuar de pé, imponente. 

Foi no dia 20 de julho que aqueles meninos, quase adolescentes, tentaram a proeza maior de subir os degraus de madeira, cheios de buracos, para lá de cima enxergar a nave Apolo 11 descendo na lua.


 O mais afoito chegara como muito esforço e risco ao último degrau quando o vigia, de posse de uma lasca de pau, bateu com força no corrimão da escada, estremecendo todo o conjunto espiral já bastante comprometido. 

Por sorte ninguém despencou do alto, mas foi um desespero só: pedaços de madeira escada abaixo e perna presa na estrutura do prédio. Enquanto o malvado vigia marcava um a um e ameaçava, caso viessem a entrar no castelo novamente. 

Faltou “uma peínha de nada” para verem a espaçonave descendo na lua. Quem sabe, no próximo lançamento!

[1] Registro de João Nogueira em Fortaleza Velha, página 43.




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VERSÃO VIDEOGRÁFICA


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

CRÔNICA - O Peso dos Encontros (VCPJ)

 

O Peso dos Encontros
Valdester Cavalcante Pinto Júnior*

 

Fortíssimo é quem se escuda por trás de sua fraqueza. (PIERRE DE LUZ, historiador e biógrafo francês. O mesmo Pierre Paul Soulanges Émile Henry de la Balnchetaí. 1893-1956)

           

Não sei até onde vai dar essa peleja. Não escolho essa palavra por acaso. Há vocábulos e expressões que já transportam uma pequena tragédia sonora, e peleja me parece uma delas. Pronunciá-la é quase admitir que estamos diante de uma luta que ninguém desejou, entretanto, por alguma ironia da existência, somos obrigados a travar. 

O convívio com pessoas que não sabem dividir espaços – e que, para completar a obra, só parecem encontrar alguma satisfação quando logram se convencer de que são somente elas – tem o curioso poder de transformar um lugar de trabalho em um pequeno teatro de guerra. 

Há criaturas que não ocupam um espaço – usurpam-no. Não dividem a luz – precisam apagá-la ao redor. Não convivem – estabelecem territórios. E, como toda pequena tirania, têm início por coisas aparentemente insignificantes, até que respirar no mesmo ambiente se torna quase um ato de resistência. 

É curioso observar o modo como algumas pessoas precisam diminuir os outros para experimentar a própria grandeza. Assim, passam a vida medindo presenças, contando aplausos e disputando a atenção alheia, sob um constante e vigoroso aparato de holofotes luminosíssimos, como se a existência fosse uma cerimônia na qual só houvesse um protagonista. 

Que pobreza de espírito deve ser essa de precisar que o outro desapareça para sentir-se inteiro! 

Há, porém, situação ainda mais sutil nessa história. Existem encontros que nos tornam maiores. Depois deles, saímos mais leves, dispostos, bem capazes de criar, pensar e agir. E existem os que fazem exatamente o contrário. Não deixam feridas visíveis, o que é uma grande vantagem para quem as provoca, mas retiram lentamente nossa disposição para a vida. 

É assim que certos ambientes nos latrocinam, sem levar a mão ao bolso em tempo algum. Primeiramente, conduzem o entusiasmo. Depois, a espontaneidade. Em seguida, transportam a vontade de falar. A posteriori, até o que antes nos dava prazer já parece um esforço desnecessário. 

É então que descobrimos uma verdade pouco conveniente: às vezes, não é o trabalho que nos cansa. São os encontros. E o maior equívoco dessas pequenas disputas está, certamente, em imaginar que a convivência exige a vitória de alguém, como se fosse necessário haver um vencedor para o outro existir. O mundo, felizmente, todavia, é mais generoso – e mais sensato — do que certas pessoas. Somos diferentes, pensamos de maneiras distintas, ocupamos lugares diversos. E é exato dessa pluralidade a nascer alguma coisa que merece ser chamada de mundo comum. 

O problema é inaugurado quando alguém acredita que um espaço compartilhado é uma ameaça à sua importância. De tal sorte, já não basta marcar comparecimento, impondo-se, porém, a necessidade de ser magnificamente notado ao lume dos refletores. Sobra insuficiente fazer bem, sendo preciso que ninguém realize melhor. Não satisfaz meramente ter voz. Impende silenciar os demais. 

E assim, pouco a pouco, a convivência deixa de ser encontro e se perfaz competição. Esta, sem dúvida, é a mais ordinária de tirania: aquela que não precisa de grandes poderes, uniformes ou decretos. Resolve uma pessoa convencida de que sua importância depende da insignificância dos outros. Há, porém, uma espécie de força muito mais rara: a de não precisar esmagar ninguém para permanecer de pé. 

Há grandeza em dividir a luz. Inteligência em reconhecer o brilho alheio. Liberdade em não precisar ser o único. Eis minha peleja: não vencer nem tomar o lugar de ninguém, tampouco disputar a condição de protagonista. Cumpre somente preservar em mim aquilo que certos encontros insistem em corroer  a alegria, a dignidade, a capacidade de criar e, sobretudo, a liberdade de existir sem transformar o outro em adversário, pois um ambiente é até passível de ser compartilhado por muitas pessoas e, ainda assim, a somente uma pertencer – psicológica e enfermiçamente.