A GUERRA NA UCRÂNIA
Rui Martinho Rodrigues*
Os conflitos obscurecem a visão dos
observadores com a chamada “névoa da guerra”. Não sabemos claramente o que
acontece. O pouco que talvez saibamos compreende aspectos como o fato de que os
interesses de todas as partes, aparentemente, correm sérios riscos na situação
atual. O comércio da China com EUA e União Europeia (UE) perde. A China perde
mercado. O outro lado perde fornecimentos que não são substituídos facilmente.
Os EUA perdem um grande comprador de títulos da dívida américa (China), que tem
estoque deles e pode lançá-los no mercado e assim desvalorizá-los, dificultando
a captação de novos financiamentos. A China perde novos investimentos
ocidentais. Há também o risco de destruição mútua.
A antecipação indesejada do conflito
O agravamento das hostilidades entre Oriente e
Ocidente antecipa um conflito. Seria melhor para a China que viesse mais tarde.
Os chineses estão crescendo mais, se armando mais e forjando novas parcerias e
alianças. Salvo se eles tiverem informações sobre a fragilidade do Ocidente, a
tal ponto que torne conveniente antecipar o conflito. Problemas de política
interna da Rússia ou China podem criar a necessidade de um inimigo externo. A
China estava ganhando a IV Guerra Mundial (a III GM foi perdida pela URSS) sem
precisar lutar, conforme o conselho da Sun Tzu, autor de “A arte da Guerra”. Os
EUA podem entender que o conflito deva ser antecipado, porque para eles quanto
mais tarde pior.
Temos guerra híbrida (propaganda, técnicas de manipulação,
guerra cibernética, econômica e financeira, cultural e batalhas no velho estilo
de balas e bombas). Erros de cálculo talvez expliquem a antecipação de um
conflito que não interessava aos países da aliança eurasiana (Rússia, China,
Irã, Paquistão, Coreia do Norte, Belarus, Síria e mais alguns). Quanto mais
tarde melhor para eles, porque o Ocidente está em declínio, com crise
financeira, desindustrializado, crise política, economia estagnada e divisão
cultural interna.
Erros de cálculo
Dizem que só uma série de erros causa um
desastre de aviação. A situação atual, na política internacional, é desastrosa.
Todos estão perdendo, embora tenham a esperança de ganhos futuros. Quando a I Guerra
Mundial (IGM) se transformou em guerra de trincheiras passou a ser uma guerra
de desgaste. Cada lado achou que ganharia. Estavam enganados. Agora a Rússia
aparentemente não está se desgastando tanto quanto a Otan esperava. O Rubro
valorizou-se. As exportações russas cresceram, embora a preços mais baixos. A
União Europeia não desmoronou por falta do gás e do petróleo russos. Alguns
governos europeus caíram, mas isso não mudou a situação.
O despreparo da Otan não impediu a resistência
da Ucrânia, que depende dos armamentos ocidentais. As fábricas da base
industrial de defesa (BID) ocidentais, fechadas por falta de encomendas,
principalmente na Alemanha, agravada pelos baixos estoques que munição nos
países ocidentais, ainda não causou a derrota da Otan empenhada nesta guerra
por procuração com a Rússia. Os EUA mandaram 1,5 milhões de munições de 155mm,
mais 300 mil de Israel, mais alguma coisa da França, Alemanha, Reino Unido,
Holanda e Suécia. Até a Suíça “devolveu” 300 sistemas antiaéreos aos
fornecedores ocidentais que os repassaram a Ucrânia. Portugal mandou armas. Pediram
munição ao Brasil (que negou). Talvez a situação seja crítica, mas os combates
continuam e as partes não fazem conceções. Talvez acreditem que o outro lado
também está se exaurindo.
O Putin não pode sair derrotado, sob pena de
perder o “emprego” e talvez a liberdade ou a vida. O ocidente não pode aceitar
a derrota ou cairão governos e talvez regimes, além da perda da primazia na
ordem mundial. A economia ocidental está fraca. A China pode ter algum ganho. A
Rússia ficou dependente da “Terra do Meio”. Uma derrota da Otan deixaria a
China como líder da ordem mundial. A derrota da Rússia, caso leve ao
desmembramento do mosaico étnico da Federação Russa, deixaria espólios que
certamente cairiam na órbita de Pequim.
Erros levaram à guerra. A Ucrânia não caiu
como aparentemente Putin esperava. A UE aceitou o sacrifício da renúncia ao gás
e ao petróleo russos e isso certamente não estava nos cálculos de Moscou. A
Rússia resistiu às duras sanções do Ocidente, um erro de cálculo da Otan. O
fato de que a Rússia usou com parcimônia o poder militar (pouco uso de bombas termobáricas
e a linhas de abastecimento da Ucrânia foram pouco bombardeadas) talvez para
prolongar a guerra até que os estoques de munição da Otan se esgotem. As perdas
humanas da Ucrânia poderão impor um limite ao esforço de guerra do país. Suas tropas
já teriam sido substituídas quase inteiramente três vezes. A ofensiva ucraniana
de agora seria com a quarta “edição” do seu exército. Os russos também têm tido
muitas baixas. Não se sabe se politicamente podem suportar perdas como quem
defende a própria casa.
O impacto na ordem mundial
As sanções impostas aos russos assustaram muitos
países: podem fazer isso com uma potência nuclear como a Rússia! Ao passar a
receber pagamento do gás e do petróleo em rubro ou em ouro a Rússia mostrou um
caminho alternativo ao dólar. A produção de gás e óleo de xisto, tornando os
EUA o maior produtor de petróleo (ou equivalente) criou um choque de interesses
com os sauditas. A tentativa de manter o poder brando (influência diplomática)
defendendo direitos humanos e “salvando o planeta” da mudança climática
aprofundou o atrito com os sauditas, que em represália, passaram a receber
pagamento do petróleo, por parte do seu maior cliente, a China, na moeda
chinesa e fizeram as pazes com o Irã e a Síria graças a intermediação da Rússia
e China. Influenciam, com dinheiro, a diplomacia do Egito, Jordânia, Marrocos,
e outros países, o que pode deixar os EUA isolados no Oriente Médio e parte da
África. A América Latina está quase toda dominada pelos “bolivarianos”.
O futuro quase inescrutável
Não se sabe o que o futuro nos reserva, exceto
que grandes mudanças virão a um preço muito elevado. A reindustrialização de
países e a reconfiguração de cadeias logísticas são exemplos disso. A revolução
tecnológica e a dinâmica demográfica já estavam mudando tudo. A IV Guerra
mundial, quer tenha uma pequena parte na forma de batalhas, como até agora, ou
combates generalizados, aprofundará as transformações impondo grandes
sacrifícios. É o que se pode vislumbrar em meio a névoa da guerra.