terça-feira, 22 de setembro de 2020

ARTIGO - A Resiliência do Óbvio Enganoso (RMR)

 A RESILIÊNCIA DO
ÓBVIO ENGANOSO
Rui Martinho Rodrigues*


A polêmica entre empirismo e racionalismo é multimilenar e inconclusa. Ambas as tradições têm alguns argumentos bons e fragilidades. Toda teoria tem alguma aporia. Karl Raymond Popper (1902 – 1994) propôs como solução o racionalismo crítico para superar o dogmatismo formalista do neopositivismo, empirismo lógico ou princípio da verificação. Este tentava estabelecer conhecimentos definitivos somando as falibilidades da razão e da observação.

A solução tentada por Popper substituiu o conceito de prova pela validade transitória, enquanto uma nova verificação não chega para infirmá-la. É a concepção do saber científico processual, sem escorregar para a logomaquia do relativismo, da perspectividade e do contextualismo epistemológicos. Popper exige que as proposições ofereçam algum ponto de apoio que possa ser submetido ao exame crítico, designando tal exigência como falsificabilidade ou falseabilidade. 

O senso comum é mais estável que a ciência. A Teoria Atômica adotou quatro versões entre modelo de John Dalton (1766 – 1844), apresentado em 1808; substituído em 1898 pela concepção de Joseph John Thomson (1846 – 1940); sucedido em 1911 pela teoria apresentada por Ernest Rutherford (1871 – 1837); reformada em 1913 por Niels Henrik David Bohr (1885 – 1962). Isto é, em apenas cento e cinco anos a ciência mudou quatro vezes a teoria atômica. 

O senso comum, porém, demonstra grande estabilidade, sem que isso signifique consistência. Ainda que as palavras e expressões não signifiquem adesão ao empirismo ingênuo, o hábito triunfa sinalizando a facilidade de comunicação dada pelo uso consagrado e amparado pela tradição.

Aristarco (310/320 a. C. – 250/230 a. C.) demonstrou que o sol era o centro do nosso sistema planetário. Cláudio Ptolomeu, (70/100 – 168) assumiu a autoria do heliocentrismo, não sabemos se conhecia bem o estudo da Aristarco, do qual só restaram algumas referências em obras de outros pensadores. Mas decorridos vinte e quatro séculos continuamos dizendo que o sol se levanta e se põe, óbvio enganoso, principal crítica do racionalismo ao empirismo. 

Ciências da natureza, embora não tratem de finalidades, motivações, paixões e interesses, têm dificuldade de compreender o mundo. Suas formulações são instáveis, embora concebidas por autores geniais. Política, Direito e ciências que têm por objeto a cultura enfrentam dificuldades muito maiores. Os conhecimentos por elas formulados são ainda mais precários. Mas suas formulações são mais resilientes. Têm a força do erro amparado na convicção. 

O viés de confirmação, a incomunicabilidade dos paradigmas (Thomas Samuel Kuhn, 1922 – 1996) e o obstáculo epistemológico do conhecimento anterior (Gaston Bachelard 1884 – 1962) são mais fortes quando o objeto cognoscível e o sujeito cognoscente se deparam com interesses e paixões. 

As ciências sociais tendem a prescrever algum tipo de dever, ao invés de descrever e explicar o que a realidade é. Dever ser não se subordina a falseabilidade, ao princípio da validade transitória e nem sequer ao verificacionismo. O dever ser convida à exibição de virtudes, sem a reserva do possível ou a demonstração da viabilidade ou do sacrifício necessário a sua realização.

Os resíduos e derivações (Vilfredo Pareto, 1848 – 1923) do pensamento medieval estimulam ideias supostamente virtuosas, favoráveis ao farisaísmo. Demagogia é a arte de conduzir o povo, manipular e agradar. É como Aristóteles (385 a.C – 323 a.C) via a decadência da democracia.


segunda-feira, 21 de setembro de 2020

NOTA ACADÊMICA - Luciano Maia Em Livro Novo

LUCIANO MAIA
EM LIVRO NOVO

UM GRITO LÍRICO 
PELA PROTEÇÃO DOS RIOS

O poeta Luciano Maia, imortal da Academia Cearense de Letras, titular da ACLJ, tem mais um centafolho de poemas para trazer a público – e o fará no alvorecer do novo tempo – obra de primorosa catadura gráfica, com chancela da vetusta “Casa de Tomás Pompeu”, abonada em castelhana prefação pelo escritor e latinista argentino Raúl Lavalle, e em aurículas livrescas pelo poeta cearense Carlos Augusto Viana.


“Assembleia dos Rios” é o título pelo qual responde o novo livro, que não trata senão do lirismo fluvial que o nosso Lucianus Nonius ab Maiam nos traz das suas origens telúricas sertanejas, passado ancestral de pecuária e vaqueirice valente que na infância ainda viveu em sua pátria Limoeiro, ao som do Jaguaribe, artéria de sangue azul vertido por Geia nas suas intermitentes hemorragias hibernais.


O lançamento de “Assembleia dos Rios” está previsto para a primeira Assembleia Geral presencial da ACLJ deste ano, marcada para o dia 04 de dezembro próximo, no Palácio da Luz – se assim Deus prover e permitir – em noite de autógrafos constelada de acadêmicos de letras, de amigos e de admiradores do poeta. O Presidente da ACLJ, Reginaldo Vasconcelos, fará a apresentação da obra.     

domingo, 20 de setembro de 2020

NOTA ACADÊMICA - Sarau Virtual da ACLJ (20.09.2020)

 SARAU VIRTUAL DA ACLJ

(20.09.2020)
   

A Academia Cearense de Literatura e Jornalismo (ACLJ) promovia, nas noites de terça-feira, na casa de bebidas finas Embaixada da Cachaça, um poetry slam, consistente em um pequeno sarau de poesias, prosa poética e performances musicais acústicas ao vivo, segundo uma prática que começou nos EUA e se difundiu pelo Planeta.


   
Mas essa rotina cultural saudável foi interrompida pela pandemia de Covid-19, e então o grupo de habitués passou a se reunir virtualmente nas manhãs de domingo, em que acadêmicos, artistas, intelectuais e poetas em geral, frequentadores daquele reduto boêmio e cultural, matam a saudade e mitigam a carência de convívio, mantendo em atividade a ACLJ, apesar do isolamento social obrigatório.



Estiveram reunidos na conferência virtual deste domingo 14 participantes, entre acadêmicos e convidados. Compareceram, além do Comendatário Almir Gadelha, a Atriz, Poetisa e Psicoterapeuta Karla Karenina, o Jornalista e Advogado Reginaldo Vasconcelos, Agrônomo e Poeta Paulo Ximenes, o Bibliófilo José Augusto Bezerra.

Também disseram presente o Advogado e Sionista Adriano Vasconcelos, o Engenheiro, Empresário e Blogueiro Altino Farias, o Agente Comercial Dennis Vasconcelos, o Teólogo e Psicoterapeuta Júlio Soares, o Engenheiro e ex-oficial de Marinha Humberto Ellery, o físico e professor Wagner Coelho, o Juiz de Direito Aluísio Gurgel do Amaral Júnior, o Artista Plástico Totonho Laprovitera e o Pedagogo, Psicólogo e Penalista Edmar Santos  todos da ACLJ.

Também se deve ressaltar a participação do nosso Benemérito José Augusto Bezerra, Presidente Emérito da Academia Cearense de Letras e ex-Presidente do Instituto do Ceará, além de presidir a Associação Brasileira de Bibliófilos, o qual, como de hábito, participou ativamente dos debates suscitados.

Zé Augusto trouxe ainda para este encontro literário da ACLJ um dos muitos documentos importantes da sua vasta coleção, desta vez um manuscrito do Naturalista Feijó (João da Silva Feijó  1760-1824), em que este trata sobre as lavras de ouro que havia na região do Cariri cearense, local em que floresceu a atual cidade de Lavras da Mangabeira. 

Feijó, que hoje empresta seu nome a uma rua em Fortaleza (Naturalista Feijó) e a uma fruta brasileira (feijoa sellowiana), foi um soldado da Coroa Portuguesa nascido no Brasil na época da Colônia, que foi se graduar em Filosofia e Matemática na Universidade de Coimbra, revelando-se um polímata, versado em naturismo e mineralogia. Fez parte do grupo que fundou o Museu de História Natural de Lisboa.  


 

O Presidente Reginaldo Vasconcelos abriu os trabalhos com a leitura de uma crônica que acabara de escrever, tratando sobre as agruras do isolamento social a que a pandemia da Covide nos obriga, e que abaixo transcrevemos.

  

     ISOLAMENTO

Vez por outra, do nada, me falta o ar da atmosfera, me foge o fôlego, como se o atmã sagrado da vida me sumisse. 

As delícia da mesa e do copo deixam de saber ao paladar como deviam, e não mais recendem bem, como se espera, o jardim mais oloroso, as fragrâncias do tempo, os perfumes do Universo. 

As belezas ambulantes, que normalmente enriquecem a paisagem, alumbram o olhar e revolvem os bons humores, não mais extasiam e não evocam encantamento. 

De repente são cinéreas todas as faixas do arco-íris, a paleta de cores da natureza fica plúmbea, a passagem das horas é monótona, os caminhos circulares, que não conduzem à esperança de bonanças.

Não é mister adoecer fisicamente para sofrer o isolamento, e não há protocolos capazes de promover a aprendizagem da dor e da resiliência para esperar o velho normal revigorado. 

Infindável quarentena que nos faz responsáveis pela vida e pela felicidade coletivas, nos cobrando empatia plena em relação à humanidade, quando a saudade nos oprime e nos esmaga, no deserto dos abraços fraternos, todos prisioneiros do oásis doméstico, limitados à rotina familiar. 

Enfim, descubro que é por todos os afetos reunidos que nasce o sol no alvorecer, e por eles que se põe o astro-rei, e em seguida vem a noite. Foi por vós todos, os entes queridos, que nasci e que tenho vivido sobre a terra, e que, sob ela, um dia, repousarei eternamente.

RV


Na sequência, eleito o tema da doença e da saúde, abordou-se a importância da água no organismo das pessoas, que lhe ocupa 70 por cento, a influência da sua qualidade no envelhecimento corporal, no funcionamento dos órgãos, na aparência da pele, e o efeito deletério da água de má qualidade sobre as populações da antiguidade e do medievo, bem como dos que vivem nos focos de pobreza ainda hoje.

A propósito disso, Karla Karenina apresentou um belo filtro de porcelana, fabricado em 1968,  que ganhou de sua avó, e que ainda está em uso, do qual ela mesma bebia boa água na infância.

Sobre o principal humor líquido do organismo, o sangue,  Aluízio Gurgel disse um poema, de sua própria lavra, tratando desse fluxo vital que move a vida; Ellery e José Augusto Bezerra levantaram a polêmica sobre a causa mortis de Alexandre, O Grande, por uma teoria envenenado com água palustre não potável, segundo uma outra tese contaminado por um mosquito maleitoso, provindo do charco infecto. 

Almir Gadelha pontuou citando o Cirurgião Plástico Eduardo Furlani sobre as rugas da pele,  indicativas da longevidade,  e Altino Farias lembrou que a cerveja era aconselhada no passado como substituta da água, porque as águas medievais eram impuras e o processo de fabricação da bebida a torna hígida. 

José Augusto Bezerra ainda discorreu sobre a importância e origem do papel – o papiro vegetal dos egípcios e o suporte de tegumento ovino "pergaminho", desenvolvido na cidade grega de Pérgamo, cujo uso deu forma ao livro moderno.

E nesse diapasão o acadêmico Júlio Soares declamou um poema de Drummond, de um livro que acaba de ganhar da sua Alana, cujo tema lírico, coincidentemente, são a importância e a nobreza do papel.

Por fim, Karla Karenina fez a moção verbal de que as principais academias literárias da Cidade encaminhem um manifesto conjunto ao Governo do Estado interpelando-o sobre onde está e como é conservado o acervo da Biblioteca Pública Menezes Pimentel, bem como reclamando a sua mais urgente reabertura.

A proposta foi acatada pelo Presidente da Associação Brasileira de Bibliófilos e Presidente Emérito da ACL, José Augusto Bezerra, e pelo Presidente da ACLJ, Reginaldo Vasconcelos, e apoiada pelos demais  e será implementada.

A sessão virtual da ACLJ realizada neste domingo, dia 20 de setembro, foi dedicada aos agraciados deste ano com a comenda Sereia de Ouro, do Grupo Edson Queiroz, dentre eles, merecidamente, a nossa confreira Karla Karenina que comemora ainda o retorno ao ar, pela Rede Globo, da novela "A Força do Querer", de Glória Peres, a cujo elenco ela pertence.






COMENTÁRIO

Não pude comparecer devido a outro compromisso, mas os domingos da ACLJ tem se firmado como o ponto alto da semana.

Sávio Queiroz Costa

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

ARTIGO - Reducionismos e Maniqueísmos (RMR)

 REDUCIONISMOS E

MANIQUEÍSMOS

Rui Martinho Rodrigues*

  

O prezado amigo Reginaldo Vasconcelos e o talentoso causídico Betoven Oliveirabrilhantes e cultos integrantes das letras cearenses, prestigiaram os meus escritos dando atenção ao que penso. Lisonjeado, volto ao tema da dicotomia direita e esquerda. Trata-se de uma visão consagrada internacionalmente. Agentes políticos pensam e agem em conformidade com ela. Tem o amparo de grandes autores. 

A divisão dicotômica, do ponto de vista ontológico, só aceita duas identidades, a despeito da variedade do pensamento e práticas políticas. Trata-se de uma realidade “evidente” como o geocentrismo. É observável tanto quanto se pode observar o sol girando em torno da terra. Não lhe falta o amparo do argumento de autoridade, da tradição e da observação direta. Tem a sedução das coisas simples. Facilita a comunicação. Atende a comunicação adequada ao jornalista e a política. 

A divisão entre gregos e bárbaros era dicotômica. Ignorava a diversidade cultural entre egípcios, persas, fenícios ou outros povos igualmente classificados como bárbaros. Hebreus e gentios; muçulmanos e infiéis; cristãos e pagãos são reducionismos de sucesso nos respectivos meios. Empobrecem a análise. Desconsideram aspectos relevantes da realidade e tendem ao maniqueísmo, que separa o bem e o mal. É uma delícia para os manipuladores e para o proselitismo. Satanizar o outro e canonizar os seus massageia o ego e é uma poderosa arma. Cria ortodoxias, legitima censura e alimenta conflitos. A atual exacerbação de ânimos em parte resulta do maniqueísmo direita e esquerda. Paradigmas, em geral, tendem a causar cegueira, são incomunicáveis e estimulam o viés de confirmação dos nossos equívocos. Paradigmas políticos são mais apaixonantes e fortalecem essas tendências. 

Simplificar pode ser um esforço didático do professor e do escritor. Até quem percebe e proclama que nenhum aspecto de nenhuma doutrina é exclusivo da direita ou da esquerda, como Norberto Bobbio (1909 – 2004), na obra “Direita e esquerda”, reconhece, mas admite a existência dos dois blocos na prática política, depois de exaurir uma lista de ideias políticas que aparentemente poderiam ser unicamente de um dos lados.

Mas, antes de reconhecer os dois grupos, afasta as diferenças ontológicas entre eles. Elimina a falácia ad hominem, que glosa um argumento desqualificando quem o apresenta, sem examinar o mérito. Não aceita redarguir uma proposição alegando que “é argumento de esquerda ou da direita”. Afasta, assim, argumentos que dizem: a esquerda é a favor dos pobres e a direita é contra; a direita é favor da liberdade e a esquerda contra; a esquerda é favor da igualdade e a direita contra. Típicas falácias ad hominem, (o outro é do mal, nós somos do bem). É preciso dizer como a proposta do outro fracassa. É também um argumento circular: uma ideia é boa por ser nossa. A crítica deveria demonstrar os resultados favoráveis do que defende e que os outros estão errados conforme a interpretação dos fatos. 

Tabelar preço, câmbio sobrevalorizado, protecionismo alfandegário, política de juros podem representar erro ou acerto. Mas isso deve ser demonstrado. Desqualificar por ser de esquerda ou direita é, como dito, falácia ad hominem. Assim ficam afastados os critérios de demarcação segundo os quais um lado defende as minorias e o outro é contra; defende a justiça e o outro as injustiças. O diálogo só é possível quando se admite a boa-fé das partes. Dizer que um lado defende injustiças é uma maneira de ganhar um debate sem precisar demonstrar que está certo. Como defender assalariados, indústria nacional, programa educacional ou grupos identitários? A proposta “do bem” pode causar o mal. Cabe apresentar fatos e analisá-los. 

Haverá uma maneira de defender os pontos retrocitados que seja típica da esquerda e direita? Não. O partido comunista Chinês e o do Vietnã são de “esquerda”. Aceitam propriedade e capitais privados, produção para o mercado, prioridade para exportações e duras condições de trabalho acabam favorecendo os trabalhadores. Tiraram 600 milhões da miséria na China. Adotaram alguns aspectos da economia de mercado como um caminho que favorece os trabalhadores. 

Peron e Vargas eram anticomunistas (direitistas). Adotaram protecionismo alfandegário, tabelamento de preços e salários, distributivismo fiscal, legislação trabalhista protetora dos assalariados. Há quem ache que eles obtiveram sucesso. Há quem ache que fracassaram. Independentemente do juízo formulado sobre acerto ou erro das políticas aludidas, era “direitistas” e adotaram políticas de “esquerda”. Hoje os herdeiros de Vargas e de Peron são “esquerdistas”, sem mudar uma vírgula de suas concepções “direitistas”. 

Fascismo e socialismo são, respectivamente, direita e esquerda? Ambos promovem o fortalecimento de Estado em face da sociedade. Ambos defendem a anterioridade da sociedade em face do indivíduo, como se nós nos associássemos, por exemplo, para criar um comércio, com o objetivo de servir ao comércio, não a nós mesmos. Ambos praticam o culto à personalidade dos seus líderes. Ambos são movimentos de massa. Ambos consideram o conflito e a violência como o motor da História. Ambos adotam a ética teleológica para a qual os fins justificam os meios. Ambos têm espírito messiânico, dispondo-se a salvar o proletariado ou a civilização. Ambos são “esquerda”? Então fica difícil definir direita. Um é esquerda e o outro é direita? Então é preciso arranjar uma diferença suficientemente forte para distinguir direita e esquerda. 

O problema da identidade das teses destrói a divisão dicotômica. Nacionalismo era direita. O Movimento Comunista Internacional, ao tempo em que era comandado pela Internacional Socialista (leia-se Moscou), adotou o nacionalismo das lutas pela descolonização da África e da Ásia. No início da globalização a esquerda se opunha a ela. Direita era a favor. Favorecia o primeiro mundo em detrimento dos países periféricos, alegavam as esquerdas. Asiáticos se industrializaram e melhoraram de vida. 

A desindrustrialização prejudicou os países cêntricos. Causou reação nos EUA. A direita, nos EUA, é contra a globalização. Na China a esquerda é a favor. Antecipamos o bem e o mal? Políticas não têm identidade. Quem mais estatizou a economia no Brasil foi o governo Geisel, que salvou o regime comunista de Angola enviando suprimento durante a guerra civil naquele país. Quem aproximou os EUA da China foi o governo Nixon. As relações internacionais não são de direita nem esquerda. O jogo é de conveniência. Salvar o maniqueísmo político só com a dialética, que Lucio Colletti (1924 – 2001) considerava uma senhora de costumes cognoscitivos fáceis. 

Culto à personalidade de líderes, estado forte, empirismo, racionalismo, internacionalismo, nacionalismo, violência, paternalismo, cientificismo, messianismo, partidos militarizados e religiosidade são traços que podem ser encontrados em ambos os lados da dicotomia. Exemplo interessante é a ideia conservadora de que o homem não se pertence, por ser da Igreja, pátria e família (direita?). Revolucionários entendem que o homem pertence ao partido e à classe social, não se pertencendo (esquerda?). Conservadores são “direita”. Acham que o homem não se pertence. Liberais acham que o homem se pertence. Direita? Um é moderado e o outro extremado, mas têm a mesma essência? Não. Anarcocapitalistas ontologicamente não são iguais aos liberais e conservadores. Todos são direita? Não podemos coloca-los no mesmo saco. Direita e esquerda são realidades tão evidentes quanto o sol girando em torno da terra.


quarta-feira, 16 de setembro de 2020

CRÔNICA - Aconteceu no Churrasco (ES)


ACONTECEU
NO CHURRASCO
Edmar Santos*


Vi a brasa ruborizada de zanga, porque lhe atearam fogo quando ela era carvão. A carne nem ligava pra brasa; preferia aproveitar o calor que vinha dela para pegar um bronze e curtir o sal.


A churrasqueira mediava a intriga, ora atiçando a brasa, ora grelhando a carne; experiente no gerenciamento da crise.

O pessoal que estava em volta nem se dava conta do conflito, bebia cerveja e apreciava a ação do churrasqueiro em trazer o tira-gosto, sem saber que ele estava separando os brigantes.


ARTIGO - O Que É Democracia (RMR)


O QUE É DEMOCRACIA
Rui Martinho Rodrigues*


A democracia tem sido descrita das mais diversas maneiras. Governo do povo, adjetivada como direta; consentida pelo povo ou representativa; até o Estado provedor é apresentado como a expressão material da democracia. Olivier Nay (1968 – vivo), na obra “História das Ideias Políticas”, considera que as origens atávicas da democracia estão situadas no momento em que os gregos substituíram o uso da força pelo debate racional, adotando a maioria como árbitro das decisões. Passaram a fazer reuniões, debater e votar para decidir.

Houve percalços. Tornou-se preciso, em certa época, multar os faltosos. Até que os sofistas introduziram o relativismo escancarado. Então a ideia da razão como fiadora das decisões feneceu. Aristóteles advertiu dizendo que a forma decadente da democracia é a demagogia. O governo do povo, ou democracia direta, falhou em todas as suas experiências históricas.

A democracia, entendida como "governo consentido", conforme John Locke (1632 – 1704), hoje adjetivada como "representativa", alcançou alguns sucessos duradouros e outros que ainda não homologados por Chronos. Imperfeições do processo eleitoral, infidelidade dos representantes, faltam de representatividade dos partidos, desigualdade de força dos grupos de pressão, técnicas de desinformação de especialistas renomados e prestigiosos e inúmeras imperfeições no âmbito eleitoral, no Legislativo, Executivo e Judiciário nos trazem à memória a frase de Winston Leonard Spencer-Churchill (1874 – 1965): "A democracia é a pior forma de governo, afora todas as outras".

A voracidade do tempo é implacável. A modernidade enfatizava a busca da verdade objetiva, da impessoalidade, da isonomia e das universalidades, chegando até a levar a Assembleia Constituinte francesa a declarar, não o direito dos franceses, mas os direitos do homem. Esta modernidade está claudicando. O que se aproxima ainda não tem nome. É nomeada como pós-modernidade, o que vem depois da modernidade. Nega universalidades, substitui a isonomia pelas especificidades dos grupos identitários e a verdade objetiva pelo relativismo e, apesar disso tudo, se diz etapa mais avançada da modernidade. Não confessa o relativismo que pratica. Diz defender a perspectividade, como se fosse algo diverso do relativismo.

A complexidade dos problemas contemporâneos os torna incompreensíveis até para os intelectuais. Poucos eleitores compreendem os desafios de uma reforma tributária, administrativa, problemas ambientais, sanitários e muitos outros. A participação e a concessão de outorga aos representantes se faz às cegas, inclusive pelos “esclarecidos”. Os partidos já não são capazes de cumprir a que se destinam. Outros riscos despontam no horizonte. Criminalidade, terrorismo, corrupção e a degradação ambiental são maximizados como pretexto para um neocolonialismo camuflado na pele de governança mundial ou globalismo. Novas formas de controle e vigilância são criadas e propostas. A violação de garantias individuais foi banalizada até pelos mais altos tribunais.

Novas tecnologias permitem um grau de controle que supera a ficção de George Orwell (Eric Arthur Blair, 1903 – 1950) “1984”. Diante de tantas ameaças as preocupações democráticas devem se voltar para a preservação das garantias individuais, tais como a inviolabilidade do domicílio, das comunicações postais, telefônicas e telemáticas, para as formalidades essenciais do devido processo legal, o direito à informação e a liberdade de expressão. A iminência de catástrofes, em parte, é herança dos sofistas.


segunda-feira, 14 de setembro de 2020

MENSAGEM - Pátria Amada Brasil! (BRO)


PÁTRIA AMADA,
BRASIL!
Betoven Rodrigues de Oliveira*


Estimado Amigo-Irmão e eminente Acadêmico Reginaldo Vasconcelos, eu o parabenizo-o pelo esclarecedor e realista artigo “O DIA DA PÁTRIA SEM DESFILE”, com o qual comungo acerca da existência - e gritante - entre “direita” e “esquerda”, rogando igual vênia da minha discordância ao entendimento do douto Professor Rui Martinho Rodrigues, ilustre Acadêmico desta não menos honrada ACLJ.

Permita-me apenas, sem cunho político-partidário algum, trazer brevemente à tona a nostalgia dos tempos dos 'Governo dos Militares', pois, hoje, tirante os efeitos mundiais da Covid 19, seria um dia respeitado, festivo e de alegria de todos os brasileiros com a comemoração da independência de nossa pátria Brasil.

Infortunadamente, com raras exceções, os políticos sem-vergonha e corruptos enodoaram esse sentimento de patriotismo do ‘7 de Setembro’, deixando a nação brasileira descrente do lema do positivismo de Auguste Comte de "Ordem e Progresso", então inserto na nossa Bandeira Nacional, sem poder efusivamente entoar o refrão do lindo Hino Nacional: “Terra adorada, Entre outras mil, És tu, Brasil, Ó Pátria amada! Dos filhos deste solo és mãe gentil, Pátria amada, Brasil!”.


domingo, 13 de setembro de 2020

NOTA ACADÊMICA - Sarau Virtual da ACLJ (13.09.2020)

SARAU VIRTUAL DA ACLJ
(13.09.2020)
   

A Academia Cearense de Literatura e Jornalismo (ACLJ) promovia, nas noites de terça-feira, na casa de bebidas finas Embaixada da Cachaça, um poetry slam, consistente em um pequeno sarau de poesias, prosa poética e performances musicais acústicas ao vivo, segundo uma prática que começou nos EUA e se difundiu pelo Planeta.


   
Mas essa rotina cultural saudável foi interrompida pela pandemia de Covid-19, e então o grupo de habitués passou a se reunir virtualmente nas manhãs de domingo, em que acadêmicos, artistas, intelectuais e poetas em geral, frequentadores daquele reduto boêmio e cultural, matam a saudade e mitigam a carência de convívio, mantendo em atividade a ACLJ, apesar do isolamento social obrigatório.



Estiveram reunidos na conferência virtual deste domingo 13 participantes, entre acadêmicos e convidados. Destaque para o Comendatário Marcelo Melo, que desta vez animou o encontro tocando ao violão Belchior (Apalo Seco), além de Nonato Luiz e Fausto Nilo (Baião de Rua). Com ele o netinho Arthur, primo em 5º Grau do segundo infante a participar da reunião, o Gabriel, por seu turno neto da confreira Karla Karenina, prima legítima do Marcelo. Todos descendentes do nosso saudoso José Alves Fernandes.

Compareceram, como dito, além dos convidados referidos, a Atriz, Poetisa e Psicoterapeuta Karla Karenina, o Jornalista e Advogado Reginaldo Vasconcelos, o Professor, Jurista, Historiógrafo e Cientista Político Rui Martinho Rodrigues, Agrônomo e Poeta Paulo Ximenes, o Ambientalista e Pré-Candidato a Vereador João Pedro Gurgel, o Odontólogo, Advogado e Cronista Marcos Gurgel, o Bibliófilo José Augusto Bezerra, o Advogado e Sionista Adriano Vasconcelos, o Teólogo e Psicoterapeuta Júlio Soares e a Advogada, Psicanalista e Poetisa Alana Alencar  todos da ACLJ.

Também se deve ressaltar a participação do nosso Benemérito José Augusto Bezerra, Presidente Emérito da Academia Cearense de Letras e ex-Presidente do Instituto do Ceará, além de presidir a Associação Brasileira de Bibliófilos, o qual, como de hábito, além de declamar um belo poema, trouxe para este encontro literário da ACLJ um dos muitos documentos importantes da sua vasta coleção, desta vez um daguerreótipo da Princesa Isabel, a Redentora, quando ainda criança. 

A sessão virtual da ACLJ realizada neste domingo dia 13 de setembro foi dedicada ao único destilado nacional, a cachaça, que está para o Brasil como o uísque para a Escócia, o saquê para o Japão, o gim para a Inglaterra, a vodca para a Rússia, a tequila para o México  aperitivos que figuram entre os símbolos culturais das respectivas nacionalidades.

O dia de hoje, 13 de setembro, foi consagrado como o Dia Nacional da Cachaça, como muito bem explica o nosso confrade Altino Farias, titular da Embaixada da Cachaça, ao lado da sua "embaixatriz", Gorete, alvos de homenagem na data de hoje, promovida pela destilaria Ypioca, e objetos de reportagem da TV Cidade.






COMENTÁRIO

Não pude comparecer devido a outro compromisso, mas os domingos da ACLJ tem se firmado como o ponto alto da semana.

Sávio Queiroz Costa


sábado, 12 de setembro de 2020

CRÔNICA - A Força da Tapioca (ES)


A FORÇA DA TAPIOCA
Edmar Santos*


Ele despertou um tanto mais tarde, pela manhã. Normal;
Ela já estava na cozinha, preparando o café.
Trivial;

Ele percebeu que ela estava de babydoll e salto alto.
Não procure entender;




Ela perguntou se ele queria tapioca.
Puxou conversa;

Ele se aproximou, mais baixo, conseguiu dar um cheiro no ombro dela.
Sonso;

Ela e ele voltaram para o quarto – ela na frente e ele atrás. Boas intenções;


Eles comeram a tapioca, mas só depois.
A fome sempre bate.