domingo, 21 de julho de 2019

POEMA - Ausência (AA)

AUSÊNCIA
Alana Alencar*

Desse mal que assombra o peito... reparto-me... e saio a uivar à tua procura por todo e qualquer desvio.
Artérias, consumidas, melindram-se...
Não há dia... tudo é noite, escuridão.
Cega tateio, em vão, a ausência do teu corpo.
– Por onde andas, meu amor?
Em que som, esquecimento, me deixaste?

...
Resta o escrever infindo. O maturar distante do que renova... e do que propaga na condição de ter o tempo.
Resta o espernear delirante em silencio... o sentir sem palavras desse mal que assombra e consome e destrói e encharca e...

Repartida, calo no descansar das buscas alucinadas.


CRÔNICA - A Palavra É... (TL)


A PALAVRA É...
Totonho Laprovitera*


Apresentado por Blota Júnior, “Esta Noite Se Improvisa” foi um programa da TV Record, que ia ao ar toda quinta-feira, às oito horas da noite, entre 1967 a 1968.

Era tudo muito simples. Os convidados tinham que lembrar e cantar uma música com a palavra que Blota anunciasse. Era preciso ter boa memória e agilidade nas mãos, pois quem apertasse primeiro o botão em cima de cada mesa é que ia ao microfone cantar a canção que continha a palavra. O prêmio máximo era um Renault Dauphine estalando de novo.

Em formato de divertida brincadeira, frequentemente eram convidados para participar do programa: Agnaldo Rayol, Aquiles (do MPB-4), Caetano Veloso, Carlos Imperial, Chico Anysio, Chico Buarque de Hollanda, Cidinha Campos, Elis Regina, Elizeth Cardoso, Gal Costa, Gilberto Gil, Hebe Camargo, Jô Soares, Lúcio Alves, Luís Carlos Miele, Marcos Vale, Maria Bethânia, Moreira da Silva, Nara Leão, Roberto Carlos e Sílvio César. Deles, lembro, dois jovens se destacavam: Caetano Veloso – com sua memória de elefante – e o bem-comportado Chico Buarque, capaz de inventar uma canção na hora.

O programa fez tanto sucesso na televisão, ainda em preto e branco, chega virou moda em tudo quanto era canto brincar de “a palavra é”.

Em Fortaleza “Esta Noite Se Improvisa” passou na TV Ceará, Canal 2.


sábado, 20 de julho de 2019

POEMA - Acerca do Soneto Amigo (GJ)


ACERCA DO SONETO AMIGO, 
DE VIANNEY MESQUITA
Geraldo Jesuino*
(No dia do Amigo, 20.07.2019)

                                                                      
Amigo é um termo por demais bonito,
Mas de esquisito, estranho, teor destoante,
Porque, num instante, poderá mudar o rito
Prescrito pela execução de um rompante.

Amigo, de ouro, prestígio e gabarito,
Não é um mito, mas verdade ao seu talante,
Uma vez gigante, de aquisições proscrito,
Resta maldito e vai encaminhado adiante.


De bicho e gente, entanto, o proceder destoa
E já não há qualquer amigo no recinto,
Pois para sempre sumiu, doa em quem doa.

Do amigo se esvai eternamente a loa,
Porque, assim, manifestava Alcides Pinto: 
Gente é bicho ruim, porém bicho é gente boa.  (Vianney Mesquita)                                   


Meu caro amigo Vianney Mesquita, irmão.
       
Não faz muito, me peguei pensando e quase tendo a certeza de que felicidade não tem residência fixa, um rosto, nem jeito. Não é só a faceirice trêfega ou o reflexo inquieto das fartas luzes. Às vezes é simplicidade e sombra acomodada. É certo que está ali, que é possível. Resta chegar lá com o espírito, quando, materialmente, aí já estamos.

Ao muito, cuidadosamente, aprendo sobre “amigos” e “AMIGOS”, e, quando às luzes, se somaram muitas venturas, amparos seguros, esteios e antídotos quase eficazes para o enfrentamento daquela solidão, do sentimento de abnegação e da infinita pequenez, quando às sombras.

Amigo, entretanto, nunca é “ontem”, nunca é “por quê”, nunca é “mas”, nunca é “talvez”. É o que está, o que é; no alto, no baixo, na claridade, na sombra, no olho do furacão e na mansidão das brisas.

Também, algumas vezes, ouvi do gênio Alcides Pinto: - Por que você precisa de sessenta amigos, se pode ter só cinco?

Acho que nunca tive os sessenta amigos que julguei ter, mas sei que tenho cinco dos quais preciso e que não dispenso por nada! Todos, aos seus jeitos, são poetas. Uns, como ninguém, fazem sonetos.

Tenho lido os teus escritos, os poemas. Tenho escrito muito pouco, desenhado muito pouco. Trabalhado pouco. Tenho gastado tanto tempo, e as minhas mãos cavando a saída para aquela felicidade com a qual me iniciei aqui.

Não abro mão dela. 

Não estou longe.


A vida fez uma curva; não nós...


sexta-feira, 19 de julho de 2019

ARTIGO - Direito, Poder e Contrapoder (RMR)


DIREITO, PODER E CONTRAPODER
Rui Martinho Rodrigues*


A primeira geração de direitos, na classificação de Norberto Bobbio (1909 – 2004), expressava proibições, comando do Estado dirigido aos cidadãos ou súditos, a exemplo dos códigos de Hamurabi (Mesopotâmia, Séc. XVIII a.C.) e do bramânico código de Manu (Séc. II a.C.). Diziam: não mate (o mais fraco, ainda que tal fraqueza seja circunstancial), não roube (do mais fraco), não tome a mulher do outro (mais fraco). Tais comandos protegem o mais vulnerável e limitam o poder do mais forte.

Ainda na classificação de Bobbio, a segunda geração de direitos também expressava comandos negativos, em forma de obrigação de não fazer. Era um comando dos cidadãos dirigido aos governantes: não prenda sem culpa formada, não viole o domicílio, não proíba a livre expressão do pensamento. Esta tradição foi esboçada na Carta do Rei João Sem Terra (1166 – 1216), em 1215, e consagrada pelos constituintes americanos e franceses em fins do Século XVIII.

Direitos negativos (obrigação de não fazer) não amparam reivindicação de recursos ou de poder pelo obrigado. Limitam, todavia, a ação do mais forte. São direitos potestativos, que são incontroversos. Não podem ser contestados, mas não têm exigibilidade. São universais, no sentido de que todos desfrutam deles.

Exemplificando: toda pessoa tem o direito de expressar livremente o que pensa, responsabilizando-se pelo que diz. Mas nenhum veículo de comunicação, porém, é obrigado a publicar o que cada pessoa pensa.

A Constituição Americana, valendo-se das palavras de Thomas Jefferson (1743 – 1826), considerou certos direitos, comuns a todos os indivíduos, como “inalienáveis”, reconhecendo-lhes a existência, independe dos governos. Basearam-se para tanto na doutrina do Direito Natural.

Hoje proliferam direitos que impõem obrigação de fazer, configurando uma relação entre um credor e um devedor, com o atributo da exigibilidade. Grupos específicos são contemplados, afastando o argumento da universalidade.

O Direito Natural também não figura como arrimo das reivindicações aludidas. Temos disposições normativas oriundas dos governos (o mais forte), onerando cidadãos (mais fracos) em favor de terceiros, sem que os “devedores” sejam transgressores e sem que os beneficiados tenham produzido o crédito. A descrição corresponderia ao dever moral de solidariedade e aos gestos filantrópicos.

A transformação da obrigação moral em dever legal cria uma solidariedade forçada e estatiza a filantropia. Diz ao Estado: dê bem-estar. Ao fazê-lo emponderamos o leviatã, que passa a exigir meios materiais e poderes para cumprir o comando. Trata-se de transferir o ônus da solidariedade para terceiros (financiadores do Estado), do contrário não precisaria dos poderes públicos como intermediários para realizar seus desígnios bondosos. Quem reivindica para si a condição de credor inato deveria pensar nas palavras de Charles Washington Baird (1928 – 1987): você tem o direito de ler um livro, mas nenhum direito de obrigar outra pessoa a dá-lo a você.

É contraditório negar o direito natural e criar direitos universais, onerar quem não contraiu dívidas, classificar obrigações de fazer, que são sinalagmáticos, como direitos humanos, que são potestativos. É uma contradição invocar a emancipação humana e propor obrigações. É paradoxal tratar certos direitos como imperativo categórico quando constituem matéria polêmica, sem invocar o amparo do Direito Natural, seja apoiado no treocentrismo ou no cosmocentrismo. O contrato social também não pode ser invocada para tanto, porque não contempla, nem deve contemplar, mais do que direitos potestativos.


quarta-feira, 17 de julho de 2019

REUNIÃO NA TENDA ÁRABE E MOMENTO LITERÁRIO - 16.07.2019


REUNIÃO NA TENDA ÁRABE
E MOMENTO LITERÁRIO


Na noite da última terça-feira (16.07.2019) reuniram-se na Tenda Árabe os acadêmicos  Reginaldo Vasconcelos, Rui Martinho Rodrigues, Adriano Vasconcelos, Paulo Ximenes, Alana Alencar, Arnaldo Santos, Júlio Soares, Vicente Alencar, Humberto Ellery, Altino Farias,  Márcio Catunda, e Aluísio Gurgel do Amaral Júnior.


O diplomata Márcio Catunda Ferreira Gomes, Membro Correspondente Itinerante da ACLJ, tomou posse oficialmente na oportunidade, recebendo o seu diploma das mãos do proponente de seu nome, Aluísio Gurgel do Amaral Júnior. Na imagem, assinando o termo de posse e vestindo a pelerine ritual, com a ajuda da acadêmica Alana Alencar.






A experiência gastronômica da semana foi macarrão yakisoba, um prato de origem chinesa cujo nome significa, literalmente, "macarrão frito".


O prato, conhecido internacionalmente, é composto por legumes e verduras fritos juntamente com o macarrão e aos quais se agregam três tipos de carne – bovina, suína e de frango. É feito com macarrão do tipo lámen e é assim que é consumido em diversos lugares do mundo. É item do repertório culinário da família Vasconcelos.   

Seguiu-se à reunião a sessão de leitura de poesia e de prosa poética, o “Momento Literário da Embaixada da Cachaça”, evento cultural semanal instituído pelo Embaixador Altino Farias, Membro Titular Fundador da ACLJ.

Essa prática artística e performática, internacionalmente designada como poetry slam,  nasceu em Chicago, na Green Mill Tavern, em meados dos anos 80, por inciativa do escritor Marc Kelly Smith, disseminando-se por todo o país e depois pela Europa, e por outras partes do mundo. A palavra inglesa slam refere a poesia produzida para ser lida em público.

Participaram da declamação Altino Farias, Vicente Alencar, Roberto Paiva, Reginaldo Vasconcelos, Paulo Ximenes, Luciano Maia, Adriano Vasconcelos, Júlio Soares, Maria de Jesus, Akemi Ito e Humberto Ellery.









ARTIGO - A Nova Ordem Disruptiva da Canina Lógica Bolsonária (RV)


A NOVA ORDEM DISRUPTIVA
DA
CANINA LÓGICA BOLSONÁRIA
Reginaldo Vasconcelos*



Jair Bolsonaro é meio tosco e muito voluntarioso – todos sabemos disso, e mesmo os seus mais passionais seguidores das redes sociais, forçosamente, o admitem. Comparando mal, o meu cachorro rottweiler também é. Quando este late com as visitas, ou fica acuando gatos durante a madrugada, me aborreço com ele.

Mas mantenho o bicho porque ele é muito necessário: obstinado na segurança da minha casa, incorruptível na proteção da minha família, implacável contra os ladrões que empestam as cidades  bem como todo o mundo de hoje em dia.

Não fosse isso, eu não teria o incômodo de manter um cão feroz,  correndo o risco de que, na sua torpeza natural, possa malferir um inocente. Eu teria apenas um animal de companhia – um manso e elegante labrador talvez fosse o cachorro ideal.

Da mesma maneira, se não fosse a praga de meliantes na política do País – e eu me lembro de quando a minha casa sequer era guarnecida por muros – eu teria votado em um presidente mais polido, mais tolerante, mais previsível, um verdadeiro golden retriever da política, como, por exemplo, o Dr. Geraldo Alckmin e o tonitroante Álvaro Dias, a quem, particularmente, admiro muito. 

Votei em Bolsonaro e na sua matilha de generais, na qual deposito a minha inteira confiança  e dentre outras excentricidades temos agora a indicação de um dos filhos presidenciais para embaixador na Capital americana, quando se esperava que um diplomata de carreira fosse uma opção mais adequada.

Mas é preciso entender o caráter “disruptivo” deste Governo – a Palavra do Ano em 2018, segundo a nossa Academia  que indica a tendência de quebrar paradigmas, que continua vigente sob o mitológico capitão. 
  
O então Presidente Lula da Silva inaugurando embaixada na Mongólia.
Pode ser ousado... mas é compreensível: o Presidente prefere um filho dele na Embaixada de Washington, para se manter mais próximo do governo americano, enquanto desmonta dezenas de outras, criadas pelo Presidente Lula em inexpressivas e longínquas latitudes. 

Bolsonaro não quer um chanceler de punhos de renda nos representando em Washington, frequentado os salões elegantes, fazendo ademanes na alta sociedade mundial entre bolhas de champanhe, oferecendo jantares finos às elites, como a velha política recomenda, e como normalmente acontece por longa e deletéria tradição.

Sim, é nepotismo, do ponto de vista retórico  “nepot” significa “sobrinho”, em alusão aos filhos dos irmãos dos antigos Papas, que de forma consentida gozavam de muitas regalias. Porém, juridicamente falando, em se tratando de escolha política no Executivo brasileiro, a nomeação de parentes é constitucionalmente permitida – segundo já sumulou o Supremo Tribunal. 

É verdade que o “garoto” é imaturo, e que seria preferível não ter aludido à sua experiência estadunidense preparando sanduíches populares. Na verdade, muita gente boa se orgulha de atividades humildes exercidas no passado, ostentando isso entre os méritos e os louros que subjazem aos feitos e títulos de seus currículos pessoais, como sinal orgulhoso de superação profissional. 

Então, com um pouco de boa-vontade, pode-se entender que o “número três” da República quis apenas significar que cursou também a universidade do mundo e que  conhece de perto a vida privada americana.

Claro que para ser embaixador isso não basta, na verdade muito pouco interessa, pois as lides diplomáticas estão afetas às relações internacionais, à macroeconomia, à formulação de acordos atinentes a negócios, a políticas públicas, a conflitos planetários. Nada disso passa pelas lanchonetes e pelas cozinhas ordinárias.

Mas também é verdade que os embaixadores são tecnicamente muito bem assessorados, contando com corpos funcionais experientes, de modo que logo-logo o “menino do Rio”, com os seus vinte anos de praia”  que é fluente em inglês e deve ser suficientemente “ichipierto”  assimilará muito rapidamente todas as rotinas da função.

Pode ser que ele seja reprovado na sabatina do Senado – e não surpreendem essas decisões do Parlamento contra as pretensões presidenciais. Mas já é muito importante que a política velha esteja sendo fustigada, questionada, acossada pelas incisivas iniciativas do Governo Bolsonaro, pois o Presidente desceu dos palanques, físicos e eletrônicos, mas não esqueceu as promessas feitas e não abandonou a sua plataforma eleitoral.

  

segunda-feira, 15 de julho de 2019

NOTA JORNALÍSTICAS - Sarau das Coisas de Dentro II

SARAU 
DAS COISAS DE DENTRO II





ACIONE O VÍDEO ABAIXO NO MODO "TELA CHEIA"



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O MAGO E O BRUXO


O jovem e o velho, o filho e o pai, o discípulo e o mestre... Não. O Mago e o Bruxo da ACLJ, preparando a cabala de uma noite mágica – música, literatura e poesia no céu da cidade do Barão de Studart, de Raimundo Girão, de José de Alencar.



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A CÉLEBRE E O CELEBRANTE


João e Maria ou Bonnie and Clyde? Fernando de Aragão e Izabel de Castela? Virgulino Ferreira e Maria Bonita? Não. Júlio e Alana, a célebre e o celebrante, idealizadores do Sarau, que se pediram a Deus e se doaram à lírica, um presente duplo à ACLJ. 



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O GOVERNADOR E A PRIMEIRA-DAMA


O Governador Lúcio Alcântara, um dos grandes mentores das letras cearenses, e Dona Beatriz, a Primeira-Dama da literatura no Estado  presentes e atentos às performances poéticas do Sarau, das quais também participaram.




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O ANFITRIÃO 


Júnior Cigano e Maurício Shogun? Anderson Silva e Rodrigo Minotauro? Não. Reginaldo Vasconcelos e Beto Studart, celebrando a vida e consagrando a amizade, abrindo a solenidade do Sarau – no fundo da imagem o Maestro Marcelo – é músico talentoso e não juiz de MMA. 


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Dois acadêmicos veteranos, Reginaldo Vasconcelos e Arnaldo Santos, com a poetisa Alana Girão, a mais jovem acadêmica  da ACLJ.



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O PRESIDENTE EMÉRITO


Marco Túlio Cícero falando aos romanos? Rui Barbosa discursando no Senado? Manuelito Eduardo pontificando com todos os seus duendes inspiradores? Não. O nosso polímata Rui Martinho Rodrigues encerrando o Sarau, dizendo que não se expressa em poesia, mas percebe a poesia ao contemplar a obra de Deus.





ARTIGO - Moralismo e Ganância (RMR)


MORALISMO E GANÂNCIA
Rui Martinho Rodrigues*


A palavra moral, acompanhada do sufixo “ismo”, é quase sempre usada para qualificar a moral do outro. A própria moral tende a ser acrescida do sufixo “ade”. O primeiro sufixo é de origem grega, e embora sirva para designar fenômenos linguísticos, sistemas políticos e religiosos ou doença, entre outras coisas, é usado no debate ideológico, para indicar alguma disfunção ou patologia. Moralismo seria, então, a moral como que patológica, apresentando desvios em relação ao significado respeitável da palavra, tendo assim claro sentido pejorativo. O sufixo “ade” se agrega a uma palavra para imprimir a ideia de qualidade ou estado. Não tem sentido pejorativo. O discurso político se serve dele para proclamar suas próprias virtudes. A moralidade é sempre aquela de quem se expressa.

Exprobar a ganância se apresenta como moralidade, virtude associada com superioridade intelectual justaposta ao superior estado moral de quem a expressa. Mas o que é ganância? Quais meios usados pelo ganancioso são reprováveis? Quais dos seus fins são iníquos? Quais efeitos perniciosos desencadeia? Ganância é exclusividade de quem labora em certas atividades, configurando produto de um tipo específico de relações sociais, econômicas ou políticas? 

Lawrence W. Reed, conhecido como Larry Reed (1953 – vivo), limita o sentido pejorativo da ganância à busca de vantagem injustificada, sem produzir bens e serviços. Poderíamos acrescentar: sem as trocas voluntárias dos negócios entre sujeitos capazes, com objeto lícito e forma não defesa em lei. Fazê-lo assim, e ainda ofertando bens e serviços, gerando emprego e tributo, é legítimo.

Condenável é a ambição que não oferta bens ou serviços, não tem como arrimo a vontade livre dos sujeitos envolvidos e disponibiliza o que não é seu. O estelionatário e o ladrão agem assim. A forma decadente da democracia, que Aristóteles (384 a.C – 322 a.C.) designava como demagogia, oferece bens e serviços que não pertencem ao ofertante. Oferece regulamentos, exigências e restrições, ao invés dos haveres aludidos. Não propõe negócios baseado na vontade livre, servindo-se do poder político para impor os seus desígnios. 

Não há virtude em abrir mão do patrimônio alheio. Para obter dividendos políticos, alavancar a venda de livros, revistas e jornais ou audiência de programas. Há quem até repita o mesmo discurso, mudando o título e vendendo o mesmo livro como se fossem vinte obras diferentes e fica rico condenando a riqueza. Poderia reimprimir com o mesmo título, mas venderia menos.

A outra face do moralismo consiste em apresentar como vilão quem satisfaz a própria ganância pelo modo descrito por Reed como legítimos: ofertando bens e serviços conforme a vontade livre dos sujeitos, sendo o objeto lícito e a forma não defesa, gerando emprego e pagando tributos, sem ofertar o que não lhe pertence, nem obrigar ninguém se valendo do poder político. Ganância por dinheiro é iníqua, mas não se for por poder sobre pessoas? Josef Stalin (1878 – 1953) e Pol Pot (1925 – 1998) não acumularam dinheiro. Só queriam poder. 

Ganância não é um fenômeno exclusivo de uma dada atividade, sistema político, econômico ou social. Funcionários públicos e agentes políticos não são mais virtuosos do que agentes econômicos independentes. Devemos distinguir ambições favoráveis ao bem-estar daquelas do tipo pernicioso.



sexta-feira, 12 de julho de 2019

POEMA - Futuro do Pretérito (AA)


FUTURO DO PRETÉRITO
Alana Alencar*


Por um segundo, todo gerúndio projeta-se num futuro do pretérito...
e, eternos, nossos verbos certos conjugam-se no presente. A voz que guia a mão... indica língua e pensamento.



Um corpo que estreita... declina. Conjuga-se, esquiva-se, deleita-se. Repete-se.
O seio, a sombra, o resto...
O tempo mais que perfeito é pretérito.

Noutro segundo, todo gerúndio acorda e cego chora ser indicativo. Fora, dentro, entre.
A voz que permanece. Um corpo que responde... conjuga-se, esquiva-se, maltrata-se. Repete-se.

O outro, a sombra, o nada.
Impossibilidade de qualquer conjugação.
É a razão.
É a palavra.