sábado, 6 de outubro de 2018

NOTA ACADÊMICA - ELEIÇÕES 2018


NOTA ACADÊMICA
ELEIÇÕES 2018
   

O Brasil passa por uma crise gravíssima no momento – política, administrativa, criminal, fiscal, institucional, ideológica, cultural, ética e moral – um quadro patológico que, comparado a um organismo natural, seria equivalente ao estado septicêmico, em que ocorre infecção generalizada, levando à falência múltipla dos órgãos.


As “Polianas” nacionais reverberam pela imprensa que a democracia brasileira está hígida, sólida, perfeita, porque as instituições estariam funcionando – sem contudo levarem em conta que estas não funcionam bem, mas mal e porcamente, o que se percebe na desarmonia instalada entre os Poderes da República, nos quais, mesmo internamente, há irregularidades e conflitos.

Dizer que conflito é sinal de normalidade democrática é uma falácia sofística, uma pérola do paralogismo – pois, analogicamente, não seria regular uma partida de futebol em que os jogadores se agredissem impunemente, gols feitos com a mão fossem validados (independentemente do que evidenciasse o árbitro de vídeo), e em que o juiz e os bandeirinhas não se entendessem sobre as regras.

A democracia perfeita é aquela em que as divergências são respeitadas, mas se compõem pacificamente, todos obedientes à Constituição Federal, à legislação infraconstitucional e às demais normas vigentes, as quais, funcionando como um farol na escuridão, obrigam toda a coletividade a seguir uma conduta que corresponda ao interesse comum, com inspiração na ética universal de justiça e honra ao mérito.

A ACLJ, neste momento agudo da nacionalidade, recomenda aos seus integrantes que façam a mais criteriosa escolha neste escrutínio eleitoral, prestigiando o princípio da renovação dos agentes públicos que se candidatam a cargos majoritários e proporcionais na República Brasileira, em ambas as esferas, estadual e federal.


Que adotem em suas escolhas rigoroso critério de absoluta “ficha limpa” – não somente na acepção tolerante que a lei eleitoral confere ao termo – mas rejeitando todo aquele que não ostente – além de primariedade penal absoluta – bons antecedentes e vida pregressa ilibada, a respeito de quem não haja notícia de má conduta em cargo público, mas sobre quem paire o melhor e mais inquestionável conceito social.     


CRÔNICA - Um Idealista Confiável (RV)


UM IDEALISTA CONFIÁVEL
Reginaldo Vasconcelos*


A ACLJ tem apenas um integrante postulando cargo público nestas eleições. Trata-se do jovem idealista João Pedro Gurgel, titular da Cadeira de nº 19, o benjamim da nossa confraria.

Menino prodígio, precocemente engajado na luta ambiental internacional, ocupando microfones de rádio e militando no primeiro partido político brasileiro com essa vocação, é hoje um operoso navegante das redes sociais, que ora se propõe ao cargo eletivo de Deputado Estadual (43007).

João Pedro é um moço ilustrado e viajado, cosmopolita e poliglota, poeta e cronista primoroso, bacharel em Direito, que tem o fanal de proteger o meio-ambiente e trabalhar pelo tratamento humanitário aos animais irracionais – sejam os domésticos, sejamos fornecedores de proteína alimentar, sejam os componentes da livre fauna marítima e silvestre.

Goza de perfeita saúde social, um democrata intransigente, defensor dos valores maiores erigidos pela evolução civilizatória, entrevistos no eloquente dístico da nossa Bandeira Nacional.  

É crítico do modernoso conceito de “pós-verdade”, que nega a realidade fática evidente, em busca de pulsões ideológicas degeneradas, entrevistas no “politicamente correto”, naquilo em que atropelam, inclusive, contingências antropológicas naturais.


sexta-feira, 5 de outubro de 2018

ARTIGO - Decifrando a Violência (RMR)


DECIFRANDO A VIOLÊNCIA
Rui Martinho Rodrigues*



A criminalidade, tanto na modalidade violenta como de punhos de renda, alcançou níveis intoleráveis. O debate sobre a tragédia que isso representa é oportuno, por mais repetido que seja. É preciso decifrar o mecanismo que gera o fenômeno. Conflitos resultam de pretensão resistida. Ambas as atitudes podem resultar do interesse material, do campo dos valores, ou da paixão.


Os caminhos pelos quais se soluciona a colisão entre a reivindicação e o obstáculo por ela encontrado são: renúncia de uma das partes; transação, entendida como renúncia, parcial e mútua, negociada; mediação, na forma de entendimento entre as partes, obtido com ajuda de terceiros; arbitragem, compreendida como solução decidida por terceiros e aceita por ambos os lados; e judicialização do conflito. Quando tudo isso não funciona, resta a autotutela, que é a solução imposta por uma das partes, valendo-se de seus próprios meios.


A renúncia e a transação podem resultar do reconhecimento: da pretensão ou da resistência do outro como legítima; da tolerância magnânima; do pragmatismo de quem reconhece a conveniência de uma solução mais vantajosa que um conflito; ou da submissão inconformada, mas que se reconhece impotente. Aceita o direito do outro ou faz concessão, no todo ou em parte, quem respeita a lei, os costumes e os coloca acima dos próprios interesses materiais e das paixões ou respeita os valores do outro.

Temos uma sociedade violenta. Não reconhecemos a legitimidade da pretensão ou da resistência do outro e não temos longanimidade. Não optamos pela renúncia ou a transação considerando a conveniência dos resultados práticos, como a paz.

Conflitos se instalam e se agravam na ausência de mediação e arbitragem. Houve um tempo em que, diante de uma situação potencialmente conflitante, fazia-se a advertência: “vou dizer a tua mãe!”. Na escola, um menino podia comunicar ao professor. Já não temos mediadores nem árbitros em nosso meio social. As partes não têm a quem apelar na parentela, na vizinhança e até nas instituições, principalmente nas escolas. Resta a intervenção do Estado, depois que os pais e professores ficaram intimidados diante de uma possível intervenção do Conselho Tutelar.

O nosso ordenamento jurídico confia mais na burocracia do Estado do que nos pais. Assim chegamos ao policial e ao juiz. O primeiro não tem autoridade para arbitrar conflitos, limitando-se a conter as práticas agressivas ou a intervir depois que a violência é praticada. O juiz só age quando provocado, e em muitos casos a população não busca a tutela jurisdicional, por nela desacreditar.

É compreensível: a justiça anda a passo de lesma reumática, conforme já se disse, assoberbada pelo excesso de demandas, retardada pela burocracia de um direito processual que eterniza os processos, e pela incúria dos recursos humanos do aparato judicial, cuja elevada qualificação técnica não tem resultado em prestação jurisdicional célere e minimamente previsível, a começar pelo Pretório Excelso.



A pós-moralidade, de que falou Giles Lipovetsky (1944 – vivo), não inspira renúncia magnânima, nem transação baseada no respeito ao direito ou valor do outro. Aprendemos a desqualificar os conceitos dos quais discordamos como “preconceito” e a odiar a resistência aos nossos desígnios, atribuindo a ela o ódio que sentimos e praticamos.

Resta a autotutela, encorajada pela impunidade, em meio à proliferação de conflitos multiplicados pela mudança cultural rápida e profunda; pela fragilidade dos laços sociais; pela perda de prestígio dos mediadores e árbitros tradicionais; pela anomia da era pós-moral. Os sessenta e três mil homicídios em apenas um ano resultam disso.


Políticas de segurança, ao lado de outras políticas públicas, poderão produzir algum resultado, mas a tendência para a violência continuará forte, enquanto perdurar a situação descrita. Leis que, ao invés de legitimar o costume, procuram introduzir transformações históricas, copiando práticas alienígenas, só agudizam o problema. O conflito nasce das expectativas contrariadas nas relações humanas. A mudança cultural profunda e rápida só promove a frustração das expectativas aludidas.



NOTA EDITORIAL ILUSTRATIVA


A PAZ

(...) Tomemos como exemplo o pomo clássico, e imaginemos que, de dois indivíduos, cada um tenha para si uma maçã. Enquanto cada um deles se conformar com essa igualdade teremos então estabelecida a melhor paz.

Mas pode ocorrer que um dos dois sujeitos do exemplo, por uma daquelas compulsões animais supracitadas, passe a desejar ter para si mais do que tem, e então tente conquistar a maçã alheia. Nessa nova hipótese, a primeira fase do processo conflituoso entra em curso. Haverá, por conseguinte, um opressor e um oprimido, que medirão forças, fazendo eclodir a violência.

É forçoso deduzir que o mais forte vença a luta e adquira a segunda maçã para o seu prol, ou parte dela, e como de regra ocorre, pela lógica da guerra, essa aquisição do vencedor se legitima.

Tem ainda acontecido que o vencedor da contenda resolva aproveitar para si maça e meia tão-somente, e então, até para estabelecer mais fácil controle do oponente, abandone a ele a outra metade. Se, reconhecendo a derrota, o perdedor aceitar como prêmio de consolação a ração menor, eis a paz romana.

Dar-se-á também alguma vez que um dos dois proprietários das maçãs íntegras, dono de espírito humanitário mais evoluído, admita que o outro merece maçã e meia, quem sabe por lhe reconhecer o mérito de ter cultivado a macieira, e por isso espontaneamente lhe conceda um quinhão maior da fruta, tendo em vista, inclusive, que meia maçã, nesta hipótese, o satisfaça. Novamente, no exemplo presente, a paz cristã.

Essa simbólica maçã representa aqui os bens da vida – a liderança, o comando, o poder, o patrimônio, a renda, o amante, o cargo, o título – e os conflitos que ela suscita (seja na forma de guerrilha, combate sangrento ou guerra fria), podem surgir no casamento, no condomínio, na família, na escola, nos negócios, na empresa, na política, entre os países.


Excerto do livro EutimiaO Segredo da Felicidade Essencial (VASCONCELOS, Reginaldo. RDS Editora. Fortaleza-Ce, 2013, p. 76-77).



quarta-feira, 3 de outubro de 2018

ARTIGO - Só se Pode Vender o que se Tem a Oferecer (RV)


SÓ SE PODE VENDER
O QUE SE TEM 
OFERECER
Reginaldo Vasconcelos*
(02.10.18)


Estamos vivendo uma campanha política em que a mercadoria que se oferece a granel é a mentira deslavada. O que cada candidato tem a oferecer é aquilo que não é verdade, mas que eles acham – ou os marqueteiros lhes dizem – que os eleitores vão comprar.

Os mais honestos até que começam a exibir suas virtudes verdadeiras, mas obviamente omitindo os seus vícios, o que não deixa de ser uma forma de enganação e de mentira que lhes encompridam os narizes.

Mas mesmo estes, no calor dos debates, não se furtam de tentar enganar o público em relação aos contendores, falseando o que aqueles disseram, descontextualizando suas palavras para vender a inverdade.

Porém, aqueles políticos e empresários condenados que celebram acordo com o Ministério Público para delatar os seus comparsas, em troca de sanções premiais, o fazem exatamente porque todo o seu estoque de mentiras ficou encalhado, pois eles não conseguiram vende-lo na “feira” inquisitorial ante a polícia.

Ora, se as mentiras de um réu não tiveram aceitação no “mercado” indiciário, e não foram compradas pelos inquisidores, e em face desse mau negócio ele já está condenado, resta-lhe então abrir o baú das verdades preciosas de que disponha, e que o Parquê possa comprar.

Em suma, a única coisa que um delator premiado tinha para negociar era a verdade, mesmo sem provas, pois que não teria mais sentido vender mentiras que os “compradores” vão escrutinar e não vão poder aproveitar – e isso seria aprofundar a própria desgraça.

A conclusão do meu comentário é que não se pode acreditar no que os candidatos dizem que são, que fizeram ou farão, tampouco se pode crer no que afirmam não ser e não ter feito. Isso porque a mercadoria preciosa de que eles dispõem para vender e nos oferecem é a inverdade.

Por outro lado, as delações premiadas não são somente vagos indícios – diferentemente do que dizem os que são acusados, os advogados deles, e alguns juízes vogais que advogam tacitamente em favor dos seus criminosos estimados.

Essas delações não são mentiras utilitárias articuladas por maldade ou vindita, mas são provas lógico-formais de alto valor, mesmo sem confirmação material, simplesmente porque a única carta que os réus confessos têm na manga para barganhar em seu favor é a verdade sobre os cúmplices. Nessa fase do jogo da agonia os condenados já não têm o curinga da farsa em seu baralho.



terça-feira, 2 de outubro de 2018

CRÔNICA - O Bagual e o Gaudério (HE)



O BAGUAL E O GAUDÉRIO
Humberto Ellery*


Antes de tudo, deixem-me “traduzir” essas duas palavras do dialeto gauchês. “Bagual” é um cavalo indomado, xucro, arisco; e “gaudério” é o que nós chamamos caipira, aquele rapaz do campo, meio ingênuo.

Consta que certa vez, num Quartel de Cavalaria da Brigada Militar, no Rio Grande do Sul, o sargento dirigiu-se a um grupo de recrutas que estavam em seu primeiro dia de brigadistas e perguntou energicamente: “Quem de vocês nunca montou em um cavalo?” Suprema desonra para um gaúcho macho, um gaudério meio apalermado respondeu: “Eu, sargento. Eu nunca montei na minha vida”.

O sargento olhou para o gaudério e, com um ar entre a raiva e o desdém, chamou o rapaz : “Me acompanhe”. Dirigiram-se então para a estrebaria do quartel onde logo avistaram um baita de um bagual bufando, soprando fogo pelas ventas, empinando e dando saltos no ar para escoicear o minuano (vento frio que sopra no Sul).

O sargento, olhando com ar sarcástico para o gaudério, tornou a perguntar: “Quer dizer então que tu nunca montaste em tua vida? Pois este cavalo também nunca foi montado”. E sentenciou: “Vocês vão aprender juntos”.

Mutatis mutandis, os eleitores do Bolsonaro estão dando por montaria, a quem nunca demonstrou a menor competência de governo, (nunca governou nem uma prefeiturazinha), um país enorme, complexo, tentando sair de uma crise, e, como disse o Tom Jobim: “não é para principiantes”.





COMENTÁRIO

Pois eu completo a história que  Humberto Ellery se poupou de terminar: o gaudério subiu no bagual e o domou completamente. Ninguém nasce experiente, e a sorte do principiante é fato recorrente e inconteste.

Uma de minhas filhas teve e dirigiu uma autoescola, e uma das observações que fiz nesse período foi de que rarissimamente um condutor de veículo recém-formado se envolve em acidente.

Sim. Todas as grandes colisões de trânsito ocorrem com aqueles que já adquiriram longa prática, e junto com ela o excesso de confiança, bem como os vícios perigosos.

O novo guiador é cuidadoso e atento, não confia nos outros, mantém a distância, busca os melhores critérios, até que aos poucos vai relaxando e se tornando um motorista relapso e sem-vergonha. Assim também com os políticos. 

Quando eu era escoteiro, fui incumbido certa vez de passar orientações urgentes a um noviço que acabava de ingressar no escotismo – e na patrulha da qual eu era monitor – e no fim de semana próximo nós iríamos acampar.

Acampamos, e durante a noite houve um grande incêndio na mata, de modo que era preciso salvar as barracas e os pertences, fazer aceiros, abafar as chamas com palhas verdes de palmeiras, transportar água em baldes por sobre as brasas e a fumaça.

Pois aquele novato se mostrou um intimorato, que, embora ainda sendo “escoteiro mirim”, e absolutamente inexperiente, se incorporou ao grupo de seniores – composto pelos mais velhos e mais experientes.

Combateu as chamas com eles, sem pregar os olhos durante toda a madrugada – e pela manhã estava acolitando o Chefe do Grupo, na construção do altar rústico no qual o capelão viria celebrar uma missa, com a presença das famílias.

Moral da história: "A experiência não prepondera em face da endurância e do caráter". 

Reginaldo Vasconcelos         


segunda-feira, 1 de outubro de 2018

ARTIGO - Os Sentidos da Inconformidade (RMR)


OS SENTIDOS 
DA INCONFORMIDADE
Rui Martinho Rodrigues*


A inconformidade está em alta. O seu significado é a nossa Esfinge de Tebas. Juízo de valor pode ser um dos significados da ausência de acordo, insubmissão, divergência, resistência e rebeldia, que são possíveis sinônimos de inconformidade, segundo os dicionários.


Tais sentimentos e atitudes podem resultar de um juízo de valor ou de um juízo de realidade. A ética da convicção está mais ligada ao aspecto valorativo e a ética da responsabilidade que ao juízo de fato. A primeira é mais representativa da subjetividade e mais permeável ao voluntarismo; a segunda tem caráter objetivo, é mais inclinada ao reconhecimento da reserva do possível.

As fronteiras entre a inconformidade e a indignação, a ira que se pretende santa, o ódio e a hipocrisia ou a demagogia repousam sob terreno movediço. A indignação do outro é sempre a expressão de ódio ou hipocrisia. A própria inconformidade tende a apresentar-se como revolta, em face da injustiça e da violação de valores.

A ética da convicção, que subjaz ao discurso e ao comportamento indignados, é contrária ao relativismo axiológico e cognitivo da pós-modernidade.

Paradoxalmente, adeptos do dito relativismo, ainda que sob a camuflagem do perspectivismo, manifestam com sofreguidão a ira santa dos inconformados. A repulsa radical pode não promover a superação do que condena, mas pode ser útil ao proselitismo político, captação de votos e destruição a reputações.

O relativismo retira a base lógica do juízo de valor. Não há ética sólida sob o relativismo. Resta o juízo de realidade para legitimar a inconformidade, salvo se adotarem como arrimo algo como o jusnaturalismo, que invoca referências como o cosmocentrismo, o teocentrismo ou uma razão unívoca, universal e aistórica. A revanche do sagrado chegou ao discurso político sob influência confessional.

As convicções dificultam a solução de problemas, porque não são negociáveis nem tolerantes e desprezam os fatos. Mas o espírito confessional não está presente apenas nos meios eclesiásticos. As religiões adjetivadas como civis, políticas ou (pseudo)seculares são tão ou mais intolerantes e tendentes a demonizar o outro, porque têm o DNA das utopias. Os utopistas, porém, não dizem como conviverão com a oposição. Só a utopia celestial confessa que enviará os dissidentes para o inferno.

O juízo de realidade exige capacidade de análise, requer conhecimento, equilíbrio e não emite certidão de virtude cívica. Não admira que seja hostilizado pelo relativismo pós-moderno. Mas isso requer outra reflexão sobre a incomunicabilidade dos paradigmas ou imunização cognitiva.


CRÔNICA – Confissão de um Poeta Malogrado (VM)


Confissão de um
Poeta Malogrado
Vianney Mesquita*


Sendo mentirosos profissionais, os poetas devem ter excelente memória. (JONATAN SWIFT).



 Notações Preliminares

Assento esta ligeira comunicação na ideia de autentificar, particularmente em relação à grade métrica do soneto, a sentença aposta na epígrafe deste comentário, da autoria do poeta, escritor satírico e religioso irlandês Jonathan Swift (Dublin, 30.11.1667 – 19.10.1745), célebre autor de um dos mais lidos (porque sobejamente apreciado) trabalhos de procedência exterior no Brasil – As Viagens de Gulliver – bem assim de Histórias de um Tonel, entre tantas, na maioria sob pseudônimo.

Para asserir a relevância de Swift no âmbito das Letras estrangeiras, é bastante lembrar a influência suscitada pelo artista natural do Eire em beletristas de todo o Mundo, da grandeza de Herbert George Wells (H. G. Wells), Charlotte Brontë (criptônimo de Currer Bell) e, especialmente, no Brasil, em Machado de Assis, cujos principais influxos advieram da literatura inglesa, na mesma dimensão dos recepcionados pelo “Moleque Carioca” (apodo respeitoso da escritora e biógrafa mineira Lúcia Miguel Pereira), da parte de Laurence Sterne (24.11.1713 – 18.03.1768).

Convém lembrar os circunstantes – mesmo de passagem, pois o assunto não calça o objetivo destas notas – do fato de que Joaquim Maria Machado de Assis era averso à licenciosidade das letras do século XVIII e afiliado à literatura da Era Vitoriana, pois não acedia ao emprego das litotes – há poucos dias referidas, em alocução venturosa, em Sessão da Academia Cearense da Língua Portuguesa, pelo imortal daquele Sodalício, Professor Raimundo Evaristo – insertas no vocabulário e no desenrolar narrativo de então. Por este pretexto, pois, acolheu as influências de Swift e de outros paredros da literatura internacional, nomeadamente dos de sinete grão-britano.

Retrato Ligeiro da Grade do Soneto

A trilha histórica desta conjunção de medidas poéticas não é tão curta, conforme se pode cogitar de imediato, e cuja completude não é cabível proceder aqui, impendendo exprimir, oportuna e labilmente, que a modalidade métrica sob comentário procede da Provença antiga, cuja poesia foi acompanhada e muitas vezes imitada em toda a Europa.

O soneto, em provençal sonet, sobrou cultivado por nomes de peso das letras pré-humanistas, no decurso do Renascimento e após este resplendente ciclo da evolução da Humanidade, também, sob o aspecto lítero-linguístico. Experienciou vastos intervalos de transformação, assentado – principalmente na vigência atual – em um formato fixo, conciso e agradável, promovido por um pugilo de versejadores da Sicília, tendo por principal Jacopo da Lentini (Lentini, hoje a cidade de Leôncio).

Resulta útil informar, ainda, que este grupo, a que Dante chamou de Scuola Siciliana (N’a Eloquência Vulgar), reunia-se em volta de Frederico II, um mecenas que tinha por secretário o rimatore Pietro dele Vigne (suicida no Inferno da Divina Comédia), e era constituído, dentre muitos, por Cielo d’Alcomo, o mencionado Jacopo (Jacó, Tiago, Jacques), Ruggiero Apugliese e Giacomino Pugliese – todos cultores do soneto.

Francesco Petrarca recorreu a sua fórmula para cantar, nas Rimas, seus amores a Laura de Noves, a bela mulher de Hugo de Sade, por quem se enamorou à prima visão. Da Itália, Francisco Sá de Miranda (irmão do terceiro Governador-Geral do Brasil, Mem de Sá) conduziu o gradeado para Portugal na primeira metade do século XVI.

O soneto possui, hoje, quatro esquemas básicos de acentuação – em rima emparelhada, cruzada ou alternada, interpolada e encadeada – como ensina Sânzio de Azevedo (Para uma Teoria do Verso. Fortaleza: Edições UFC, 1997, p. 67), que reconhece, entretanto, outros delineamentos, cada qual com variantes.

Facilidade de Composição

Esse conjunto de duas quadras e dois trísticos, composto em seu padrão definitivo, é conformação rítmica relativamente fácil de produzir. Suficiente para tal é o sonetista conhecer bem o vocabulário, respeitar as regras da língua portuguesa, mesmo empregando munificência poética (licença), acolher os ditames da versificação e preencher os lugares nos tabiques das sílabas.

De tal maneira, não resulta necessário grande saber para compor um bom soneto, pois dispensável me parece ser a erudição – eis que componho regulares peças neste estalão poético e não me arvoro de erudito, o que seria meridianamente descabido – conquanto esses atributos confiram a quem os opera, evidentemente, maiores possibilidades de consoar mais substanciosas e cadenciadas estâncias, onde o leitor-ouvinte depara as delícias de sonoridade e estese integral nos pés harmonizados.

A efetivação, não apenas dessa conjunção de catorze versos, como também de qualquer medida rimada, a mim se afigura mais dependente de lineamentos da técnica do que propriamente de centelha inspirativa, de estro poético, dos quais o bom sonetista imprescinde a fim de oferecer um bom poema expresso nesse gradil tão apreciado, até mesmo nos derradeiros tempos, quando é experimentada uma quadra de enorme prestígio das comunicações, maiormente ante as fulgurações da rede mundial de computadores.

Louvo, com a máxima franqueza, aqueles que escrevem poemas em verso branco, no que jamais me matriculei – como, na Academia Cearense da Língua Portuguesa, Regine Limaverde, Ana Paula Medeiros, Claúder Arcanjo, Révia Herculano, Vicente Alencar, Giselda Medeiros, Batista de Lima, Valdemir Mourão e a maior parte dos nossos acadêmicos, incluindo os componentes da ACLJ e da Arcádia Nova Palmaciana – jornalistas, professores, linguistas e literatos.

Isto já tentei algumas vezes e há muito tempo, no entanto, abandonei tal desígnio, pois achava a produção desenxabida, insossa, amara, sensabor, absolutamente fora de propósito. Quando, então, tentei bosquejar um romance, já no módulo dois da distribuição capitular, me achei reproduzindo estilisticamente autores lidos e recuei imediatamente da pretensão.

Jamais me atrevi, portanto, a editar qualquer composição da minha agricultura, em textos poéticos, que não fossem pés rimados, como decassílabos portugueses, nos moldes dos que aí vão, bem medidos, mas contendo inverdades, de sorte a aceitar a balda particularmente a mim imposta pelo extraordinário reitor da Sé de São Patrício. Parece assentar-me, de verdade, esta carapuça!

Então, a invencionice está claríssima nas duas peças adiante reproduzidas, inclusive até bem distantes em sentimento, avessa uma a outra, contrapostas, paradoxais, posso dizer – “mentirosas”, na exata acepção de Swift.

Vejamos, pois, no primeiro conjunto ora retratado, denotativo de exagerado pessimismo – posso assegurar, refalsado – composto nos anos de 1960, pouco modificado a posteriori, com o fito de pastichar Augusto dos Anjos, cuja obra ainda hoje aprecio, consoante sucede com muitos leitores amantes do metro. Tal sucedeu no tempo de estudante da então Escola Industrial Federal do Ceará, atual Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia, quando aluno do extraordinário mestre, fundador da Academia Cearense da Língua Portuguesa, Hélio de Sousa Melo, logo após ler o Eu e outras Poesias, bem assim o Tratado de Versificação, clássico de Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac e Sebastião Cícero dos Guimarães Passos, o qual nem lograva decodificar direito à míngua de informação absolutamente necessárias para uma decodificação correta.

          Eis a reprodução.


QUEBRANTAMENTO

Tomam-me por inteiro as mialgias,
Na arteriosclerose das matérias,
E o bater pressuroso das artérias
Pareço escutar todos os dias.

Continuamente levo hipocondrias,
Sobram-me enfermidades deletérias,
E insuportáveis idiossincrasias
Um ser infausto pejam de misérias.

Terão um termo essas bilatérias
Moléstias, pois são meras utopias [...]
Só se Pompílio volver às Egérias,

Ou quando a Essência perder as porfias
E assentir Zeus em novas Eleutérias
Em tão fúteis e vãs alegorias.

As estrofes sequentes foram produzidas agora em agosto (2018), por falta do que fazer, pois os textos acadêmicos para revista gramatical e estilística escassearam, em razão dos embaraços econômico-financeiros, atingindo todos nós, incluindo os investigadores das universidades. O produto ficou pronto quando perfiz 72 anos – daí o “motorzão” sete-ponto-dois mencionado no pé inicial da primeira estância, recheada de vantagens de ocorrência impossível, dada a natural e inexorável descensão vital, a não ser nas artimanhas de um pseudopoeta, tachado, decerto, com merecido e veraz adjetivo, por Jonathan Swift.

Analisem e avaliem a peça, comparando-a com a anterior para assistir razão, ou denegá-la, ao eclético escritor irlandês.
         
FORTALEZA E DESTEMOR

Sou motor grande, sete-ponto-dois,
Aproximado de Primo Carnera,
Porquanto a Mãe Natura em mim apôs
O que o vigor humano reverbera.

Não ponho o carro adiante dos bois,
E, sem pavor nenhum da besta-fera,
Enfrento a Terra que se contrapôs
À minha indestrutível primavera.

Arrosto o monstro Typhon – sou o Kratos,
Príapo – fôlego de sete gatos –
Deus Poseidon mais do que furibundo.

Mandachuva de todos os estratos,
Logro, apressado, meus desideratos:
Sinto-me um Atlas transportando o Mundo!


Amigos leitores: memória tenho, como disse Jonathan Swift. Vamos, então, ver se chegarei ao segundo turno na postulação do “mandato” de poeta.