segunda-feira, 24 de setembro de 2018

ARTIGO - Onda Conservadora?


ONDA CONSERVADORA?
Rui Martinho Rodrigues*



O que seria conservadorismo e o que o fortalece? Palavra polissêmica, conservador adquire significados distintos em diferentes campos. Um economista dirá: conservador evita investimentos de risco, opta por rendimento menor, com mais segurança. É prudente. Menor déficit, busca de equilíbrio das contas, fuga do descontrole das dívidas é conservadorismo, é prudência.

Crédito, para alavancar o desenvolvimento, só com amparo em cálculos rigorosos da viabilidade econômica do projeto. Crescimento, só com investimento baseado em parcela razoável de capital próprio, ou atraindo o capital de terceiros como investimento de risco, não como crédito. Consumo só tendo renda. Estes são exemplo de prudência conservadora. Temos elevada propensão ao consumo e baixa propensão a poupar, e tendemos para o endividamento.

Famílias, empresas, municípios, estados e União estão, hoje como quase sempre ao longo da nossa história, atolados em dívidas. Consumo sem renda e investimentos mal planejados ou mal executados são a regra. Só quando o desastre bate à porta uma parcela expressiva dos brasileiros admite ser fantasia consumo sem renda, crescimento sem investimento, ganhos de rendimentos sem aumento de produtividade, e crédito a juros baixos sem contas equilibradas. Este é o conservadorismo da racionalidade econômica, geralmente mal recebido.

Conservador, no plano institucional, é quem tende a preservar as instituições. A produção diluvial de emendas constitucionais não decorre só do fato de termos uma Constituição analítica. A legislação infraconstitucional é copiosa. Avaliamos os parlamentares pela iniciativa legislativa, não pela fiscalização do Executivo. Temos a volúpia da mudança institucional, ainda que com certas continuidades. Aderimos com sofreguidão às novidades. Modismos são uma forte marca da nossa cultura.

Conservador, em Antropologia Filosófica, é o homem que não se pertence, pertencendo antes a pátria, igreja e família. Hoje nem se fala em pátria. Os laços familiares tornaram-se frágeis. A quebra do monopólio do sagrado, antes exercido por igrejas, e o relativismo pós-moderno, abalaram este conservadorismo. A revanche do sagrado e os conflitos da mudança cultural súbita e profunda, porém, parecem reanimar a concepção de homem como animal de rebanho, pertencendo aos agrupamentos citados.

Outros rebanhos, tais como partidos e sindicatos, trouxeram desilusões. Vaqueiros da boiada cidadã das novas manadas caíram do pedestal. Família e igrejas têm sérios problemas. Suas lideranças têm graves falhas. Mas sindicatos, partidos e outros agrupamentos não são mais perfeitos. Isso estimulou a chamada onda conservadora.

A nossa moral foi formada sob a influência da ideia de que não havia pecado do lado de baixo do equador, desde os tempos coloniais. A permissividade, porém, sempre foi contraditória. Tratando-se da irmã, da filha e da esposa do outro, ela é calorosamente recepcionada. A revolução dos costumes, todavia, não deixou de lado filha, irmã, até a esposa da maioria. A dependência química trouxe tragédias. A visão idílica do mundo sem males e sem limites, com base na proibição das proibições, foi abalada. Os novos gestores da moral e dos costumes tiveram o prestígio atingido.


domingo, 23 de setembro de 2018

NOTA PESSOAL - Lapso Agradável (VM)


LAPSO AGRADÁVEL
Vianney Mesquita*

Ao se fechar a porta a todos os erros, a verdade poderá ficar de fora. (Rabindranath Tagore).


Em texto editado por este periódico eletrônico, em 21 de setembro imediatamente passado, há comentário de A.G., (imortal da Academia Cearense de Letras), agradecendo a publicação de carta-convite para a mesa-redonda Thomas Pompeu e a questão ambiental no século XIX, com minha firma expressa – sem o haver feito, por descabido – abaixo da assinatura da autora do escólio.

Eu sabia, porém!

Atinava para a ideia de que, um dia, mesmo por simples equívoco, haveria de posar nos media ao lado de nossa SELMA Ottilia Lovina LAGERLOF (Nobel de Literatura de 1909), que é a excelsa Professora Doutora ANGELA Maria Rossas Mota GUTIÉRREZ (da nossa Universidade Federal do Ceará), por quem devoto respeito e admiração, na qualidade de pessoa exemplar, escritora e docente de talento inexcedível.

Quando divisei, porém, o fato de que a aposição de meu nome abaixo do seu crédito célebre sucedeu por mero engano, acordei da encantadora circunstância onírica.


Valeu, todavia!




NOTA DO EDITOR

Equívocos gráficos na atividade jornalística, no passado geralmente cometidos pelos tituleiros e diagramadores, nem sempre nobilitam as suas vítimas.

É clássico o caso ocorrido no jornal Tribuna do Ceará, no final dos anos 70, quando foram trocadas as legendas de duas fotografias de uma mesma reportagem.

A matéria era sobre a tradicional feira agropecuária cearense anual, que ocorre até hoje em Fortaleza, naquele tempo denominada Fenace.

Os destaques da notícia eram a visita da Primeira Dama àquela exposição (naquele tempo a patronesse do evento), e a vaca que vencera o concurso leiteiro que se promovia a cada ano.

O diagramador legendou acidentalmente a foto da vaca campeã com o nome de Dona Luíza Távora, e a de Dona Luíza como sendo a da turina vencedora.

Isso provocou um rebuliço, pois não se notou o equívoco antes que o matutino tivesse sido distribuído aos assinantes. Restaram os pedidos de desculpas, aceitos mal e mal, pairando sempre as suspeitas maldosas de que houvesse sido proposital a inversão. 

Aqui, em tempos modernos, é possível corrigir os erros gráficos digitalmente com grande agilidade, embora neste caso nem caibam os apelos por escusas, já que apenas foram somadas por engano duas personalidades respeitáveis.
   
  

SONETO DECASSILÁBICO PORTUGUÊS - Quebrantamento (VM)



QUEBRANTAMENTO
Vianney Mesquita*


Grande perigo corre quem, estando doente, se julga são. (Thomas George Fuller – Ottawa – Ontário, Canadá, (1908-1994).



Tomam-me por inteiro as mialgias,
Na arteriosclerose das matérias,
E o bater pressuroso das artérias
Pareço escutar todos os dias.

Continuamente levo hipocondrias,
Sobram-me enfermidades deletérias,
E insuportáveis idiossincrasias
Um ser infausto pejam de misérias.


Terão um termo essas bilatérias
Moléstias, pois são meras utopias...
Só se Pompílio volver às Egérias,

Ou quando a Essência perder as porfias
E assentir Zeus em novas Eleutérias
Em tão fúteis e vãs alegorias.



sábado, 22 de setembro de 2018

CONVITE - IV Outubro Cultural do Instituto do Ceará


ARTIGO - O Futuro do Brasil na Encruzilhada (RV)


O FUTURO DO BRASIL
NA
ENCRUZILHADA
Reginaldo Vasconcelos*



Passou o Sete de Setembro, sem a mesma vibração patriótica que a República merecia no passado. Cinco dias antes, a antiga Capital Federal, por absoluta incúria administrativa, reduzira a fumaça e cinzas boa parte da nosso passado, deixando que o Museu Nacional fosse consumido pelas chamas, numa tragédia anunciada.

Agora o trem do destino deste grande e sofrido país segue célere para o futuro, e uma vertiginosa curva já se vislumbra no horizonte – as eleições de 7 de outubro – passados 35 dias da incineração da nossa História e exatamente um mês daquele desanimado “Dia da Pátria”, com o seu desfile burocrático.

Não se ouviram tambores de colégios ensaiando a marcha, não se viram bandeirinhas nas mãos das crianças, não havia sorrisos francos nos rostos das autoridades nos palanques, nem aplausos efusivos dos que assistiam da calçada à parada militar. A imprensa, por sua vez, cobriu o evento entre bocejos e muxoxos.

Agora recebemos em casa pela TV e no carro pelo rádio uma enxurrada de mentiras, de promessas vãs, de anúncios de sabonetes de fórmulas eficazes contra a escabiose nacional – tudo produzido exatamente por velhos protagonistas da desgraça do País – os quais, usando dinheiro do erário na propaganda de campanha, tentam manter o povo, como sempre, sob transe político-hipnótico.


Há um candidato de fato à Presidência da República recolhido à cadeia, apoiado nas ruas e nos presídio pelos colegas de infortúnio. Há um outro candidato convalescendo no hospital, vítima de atentado a faca, cometido por um miserável notório, entretanto logo assistido por quatro bons advogados.

A ideia era que ele matasse o candidato mais cotado, e em seguida fosse morto pela polícia, ou linchado pelo público, imolando-se imediatamente pela sua causa torpe. Era um plano perfeito, caso tivesse funcionado.

Preso em flagrante, crime registrado em vídeo, criminoso confesso, logicamente toda essa esquadrilha jurídica milionária que aterrissou em Minas Gerais em seu socorro se presta a tentar evitar que ele confesse quem o induziu ou contratou.

Os demais concorrentes, que pleiteiam o cargo de Presidente da República, tirante o preso e o ferido, são agora meros coadjuvantes – e é triste vê-los gastando o latim e os sapatos pelas ruas do País, consumindo inutilmente a verba eleitoral, dizendo que farão isso e aquilo, quando as consultas populares mostram que eles não farão nada, porque ficarão pelo caminho.

Os eleitores se dividem então de forma massiva entre o candidato improvisado, que substitui o preso e representa a “situação”, na linha sucessória dos mais recentes três Governos – e o outro candidato, de origem militar, eminentemente conservador, que prega medidas radicais contra os ímpios da velha política nacional.

Este último, desprovido de habilidade política, temperamental e estouvado, sem promessas simpáticas ao povo, à míngua de uma plataforma de governo minuciosamente elaborada, tem crescido exponencialmente nas estatísticas, sem sofrer grandes desgastes.

Mantem-se ele em relativo silêncio, só mitigado por mensagens na Internet – e sem o corpo-a-corpo que vinha fazendo com o seu eleitorado – beneficiando-se entretanto, ironicamente, pela recomendação médica e pela internação hospitalar. Se não fala, e se não se expõe em debates, não se queima e fica incólume.

Se ele era um mito comparável ao “Herói da Capadócia”, fustigando, de sobre o cavalo da decência, o dragão da improbidade, tornou-se um mártir, agora investido na sofrida figura sebastiana – e por isso mesmo decola para a vitória, brandindo as armas de Jorge e ostentando as flechas e o sangue do supliciado narbonense.    

Aquele outro, que rivaliza com o líder e o secunda nas pesquisas, tenta restaurar o bom conceito do seu partido, que ao longo dos anos foi destroçado pelos fatos. Quer descolar-se dos escândalos financeiros, da persecução criminal contra muitos dos correligionários, da presidente deposta, do aliado que herdou os destroços do Governo, enfim, justificar ou explicar tantos insucessos e fracassos.

Sim, esta é a novela dantesca em que o Brasil está enredado, o povo todo entre a dúvida e a incerteza, entre o perigo e o risco, entre o mau e o pior, sacudido entre o medo dos crimes elegantes e o pavor dos crimes de sangue, para decidir a quem entregar os destinos nacionais.

É uma grande encruzilhada. Não há como fugir dela. Omitir-se não resolve. Não vale morrer. Resta-nos apostar na sorte, saltar no escuro, e rogar a Deus que nos proteja.




COMENTÁRIO

Iguais são minha mágoa e revolta, porém, sou ainda mais pessimista, pois entendo que nossa pátria estremecida, infelizmente, está na descensão rapidíssima para se "venezuelizar".

Enorme artigo, da agricultura de um patriota arguto e brasileiro fiel. Meus sinceros emboras, Presidente, pelo texto paradigmático!


Vianney Mesquita

 

CRÔNICA - O Primeiro Sonho (MG)

O PRIMEIRO SONHO
Marcos Gurgel*


Não posso escrever a ela. Escrevo então para mim, pensando nela. Quanta saudade; vê-la é reviver nossa infância e adolescência, que não saem de mim, não sei por quê. Mas é assim.

Foi um namoro infantil que pouco durou, mas que marcou para sempre. Somos amigos e torcemos um pelo outro; preocupo-me com ela, e ela se preocupa comigo; quero o melhor para ela, ela quer sempre o melhor para mim.

Ela é feliz, eu sei. O seu sorriso estampa felicidade. Seus filhos, então, confirmam essa verdade. Morro de saudades.

Quem me dera voltar no tempo em minha terra: colégio, bandinha, praça, igreja, missa, paradas, Banabuiú, barragens... Impossível, mas bem perto. Maior é a lembrança e melhor a fantasia.

Limoeiro que me espere... eu volto para lá um dia.


NOTA JORNALÍSTICA - Luciano Maia é Cidadão de Fortaleza



LUCIANO MAIA
CIDADÃO DE FORTALEZA


O poeta Luciano Nunes Maia, da Academia Cearense de Letras e da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, que é natural da aprazível cidade de Limoeiro do Norte, recebeu o título de Cidadão de Fortaleza, na noite deste dia 18 de setembro, homenagem que lhe foi prestada pela Câmara Municipal, por iniciativa legislativa do Vereador Edmar Freitas.

Luciano Maia, um dos mais importantes poetas cearenses contemporâneos, bacharel em Direito, jornalista e professor universitário, é o Consul da Romênia em Fortaleza.

Fruto genealógico de tradicionais famílias da Região Jaguaribana, um dos principais polos culturais do Estado, e pertencente a uma irmandade de notáveis intelectuais, reúne todos os méritos para receber a láurea que a edilidade fortalezense lhe outorgou.




Nas imagens, com a sua amada e amantíssima Ana Maria Jereissati e o Vereador Edmar Freitas, ladeado pelo imortal José Augusto Bezerra e o Jornalista Pádua Lopes,  e entre personalidades das letras e do meio judiciário cearense, que compareceram à solenidade.

Representando a Academia Cearense de Letras o seu Presidente, Ministro Ubiratan Aguiar, e o antecessor deste, Bibliófilo José Augusto Bezerra  que também levaram os cumprimentos da ACLJ, da qual ambos são Membros Beneméritos.   

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

NOTA ACADÊMICA - Bicentenário do Senador Pompeu (AG)


ACADEMIA CEARENSE DE LETRAS 
SESSÃO ESPECIAL
BICENTENÁRIO DO SENADOR POMPEU
 Angela Gutiérrez*


A Academia Cearense de Letras dará continuidade às comemorações  do Bicentenário de Nascimento de Thomaz Pompeu de Souza Brasil, Senador Pompeu (1818 – 2018), iniciadas em agosto deste ano, em sessão especial, no Instituto do Ceará (Histórico, Geográfico e Antropológico). 

No dia 26 de setembro próximo, quarta-feira, às 10 horas da manhã, no Palácio da Luz, será realizada mesa-redonda, intitulada “Thomaz Pompeu e a questão ambiental no Século XIX”, coordenada pela Profa. Dra. Kênia Rios,  do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UFC.


Como sabemos, Thomaz Pompeu tem seu nome gravado na História como um dos parlamentares mais importantes no Senado do Império. 

Foi um dos intelectuais mais respeitados no Brasil do Século XIX, atuando como professor, pesquisador, autor de obras de grande relevância para a Ciência e a Cultura no Ceará e no País.



Esperando contar com a presença dos colegas nesse evento da ACL, despeço-me com saudações cordiais, 

Acadêmica Angela Gutiérrez, Vice-Presidente da ACL.


COMENTÁRIO

Agradeço a gentileza da Diretoria ACLJ em publicar carta por mim enviada à respeitada entidade para convidar seus membros a comparecerem à mesa-redonda intitulada “Thomaz Pompeu e a questão ambiental no século XIX”, que dará continuidade às comemorações do Bicentenário de Nascimento de Thomaz Pompeu de Souza Brasil, o Senador Pompeu, no próximo dia 26 de Setembro, às 10 horas, no Palácio da Luz, sede da Academia Cearense de Letras.
Saudações cordiais, 

Angela Gutiérrez


quinta-feira, 20 de setembro de 2018

RESENHA - Programa Da Hora (20.09.18)

PROGRAMA “DA HORA”
APRESENTADOR
ALFREDO MARQUES
TV UNIÃO
 20.09.18

O Programa Da Hora – que vai ao ar, ao vivo, de segunda a sexta-feira, às 12:30h, com reprise às 18:30h, pela TV União (Canal 17.1 na TV aberta e 521 na Multiplay) – na edição desta quinta-feira (20.09) teve a participação do seu apresentador titular Alfredo Marques, e dos também advogados Roberto Pires, Djalma Pinto e Reginaldo Vasconcelos, presidente da ACLJ. Na edição ao vivo, antecipado para as 12:00h, durante o período da propaganda eleitoral.


Alfredo Marques abriu o programa comentando colocações feitas por Ciro Gomes, candidato à Presidência da República, no sentido de que facções criminosas teriam interlocução com o Governo do Ceará, desde 2016, negociando uma redução dos assassinatos no Estado, em troca de menor perseguição policial contra o tráfico de drogas. 

Reginaldo Vasconcelos e Djalma Pinto opinaram sobre o absurdo dessa realidade que o Ciro Gomes escancara, pois pactos entre os Poderes Constituídos e o crime organizado são a demonstração cabal da absoluta falência da República. 

Isso talvez explique a razão pela qual não se instalam bloqueadores de celulares eficientes nos presídios, de modo a permitir que "barões do narcotráfico" continuem comandando os negócio ilícitos de  dentro das cadeias.

Roberto Pires colocou então na mesa a notícia de que a Secretaria da Justiça cearense resolveu permitir que mulheres, amantes e namoradas de presos, enfim, as mulheres que os presos indicarem, poderão doravante pernoitar no presídio nos fins de semana, para um longo momento de intimidades sexuais dentro dos muros das penitenciárias.



Djalma Pinto reputou essa medida como absurda, e considerou que muito provavelmente essa concessão especial pode estar entre as cláusulas dos acordos a que Ciro Gomes se refere, celebrados entre autoridades e bandidos. 

Tratou-se em seguida da liberação do nome do político carioca Anthony Garotinho para concorrer ao Governo do Estado do Rio de Janeiro, por parte do Tribunal Superior Eleitoral, embora seja ele tido e havido como Ficha-Suja, e ter tido a candidatura vetada pelo Tribunal Regional Eleitoral.  

Consultados a respeito pelo apresentador Alfredo Marques, Djalma e Reginaldo frisaram que advogados não se sentem confortáveis em falar sobre processo judicial de que não conheçam os autos. 

Não se sabe que argumentos foram manejados pelos advogados de Garotinho, tampouco qual a motivação e que fundamentação que respaldou a decisão do TSE. Todavia, ambos estranham que uma pessoa notoriamente envolvida em escândalos, com episódios de prisão, e com sentenças condenatórias contra si, possam participar do pleito eleitoral.

Por fim discutiu-se a questão do "voto útil", fenômeno em que os eleitores, ao final da campanha, façam convergir o seu voto para os candidatos mais bem cotados nas pesquisas, abandonando aqueles em quem originalmente iriam votar. 


Reginaldo Vasconcelos comentou o vezo do eleitorado brasileiro de confundir campanha eleitoral com campeonato de futebol, em que ninguém quer figurar na condição de perdedor  – quando a pessoa deve votar naquele que considera o melhor, independentemente de que seja ele detentor de uma maior intenção de votos nas consultar populares.

Djalma pinto encerrou o tema se reportando ao efeito nefasto de tais pesquisas, que antes não poderiam ser divulgadas em datas próximas às eleições, e hoje podem, de modo a influenciar o eleitorado e induzir o voto.  

ARTIGO - Continuidade nas Mudanças (RMR)


CONTINUIDADE
NAS MUDANÇAS
Rui Martinho Rodrigues*


A vida cultural brasileira é marcada pela continuidade nas mudanças. Estas circunscrevem-se mais ao campo das aparências. Os jesuítas lançaram as bases da nossa educação. O Marquês de Pombal (Sebastião José de Carvalho, 1699 – 1782) os expulsou, em 1759. A semente plantada pelos seguidores de Inácio de Loyola permaneceu após a expulsão. Todos eram ex-alunos deles. A bibliografia estudada era produzida ou aprovada e indicada pelos mestres que haviam partido.

A educação jesuítica era a expressão da contra-reforma. Tinha raízes no concílio de Trento (1545 – 1563), seus valores e concepções eram baseadas em dogmas. Tinha espírito missionário, messiânico. Sendo uma ordem fundada por um soldado, tinha um forte espírito guerreiro. Guerreava os dissidentes, hereges identificados com as reformas do século XVI; proponha-se a catequizar bárbaros pagãos. Caso estes resistissem, passavam a ser categorizados como hereges, e, como tal, perseguidos. A fogueira era o destino dos representantes do mal. A ordem, encarnação do bem, tinha legitimidade para imolar recalcitrantes.

Disciplinados, os jesuítas não se envolviam com as práticas mundanas do clero secular, ou não se tem registro disso. Sentiam-se puros e superiores. Mas a palavra jesuíta foi dicionarizada como “...membro da Companhia de Jesus, (...) aquele que é dado a intrigas; dissimulado, hipócrita, (...)” (dicionário do Antônio Houaiss).

A presunção de superioridade, própria de quem se acha na posse da verdade, lutando contra o mal e por um mundo melhor, não imuniza contra algumas práticas reprováveis. Expulsos os jesuítas, a nossa educação continuou confessional, dogmática e catequética. As mudanças introduzidas por outras ordens não foram uma ruptura, embora tenham relaxado a disciplina, escancarando o mundanismo.

A influência do iluminismo tardio chegou no Século XIX. A influência francófona na Faculdade de Direito do Largo do São Francisco, em São Paulo, e na Escola Militar, no Rio de Janeiro. Os germanófilos inicialmente dominaram na Faculdade de Direito do Recife, sob a influência de Tobias Barreto (1839 – 1889).

Ambas as tendências, uma positivista, a outra predominantemente culturalista, romperam com a orientação escolástica, que por sua vez representava uma derivação da patrística. Chegou então o iluminismo tardio, com o cientificismo dogmático, a presunção de encarnar o progresso entendido como um mundo melhor e assim continuava catequético.

Principalmente o positivismo, vendo no desenvolvimento cognitivo o motor do progresso e na ignorância o atraso, pretendia impor a evolução histórica sem ouvir os ignorantes (hoje se diz alienados), agindo em nome da verdadeira consciência, conscientizando como a velha catequese dos jesuítas. O ódio entre positivistas e católicos não impediu a manutenção do espírito do jesuitismo no positivismo que se julgava tão diferente.

A conversão da intelectualidade ao positivismo foi súbita e massiva. O complexo de vira-lata, de que falava Nelson Rodrigues (1912 – 1980), deixa os nossos intelectuais esperando novidades vindas da Europa, às quais se rendem acriticamente. Todos eram escolásticos, mas tornaram-se positivistas num abrir e fechar de olhos.

Depois veio o materialismo histórico, dizendo-se antípoda do positivismo, com quem guerreava. Mas ambos eram dogmáticos, não em nome da Igreja, mas de ideias cientificistas e historicistas; lutavam pelo que entendiam ser progresso, ou um mundo melhor contra o que julgavam atraso. Houve o tempo dos hereges e pagãos. O positivismo os substituiu por ignorantes e obscurantistas. 


O materialismo histórico trocou os nomes por "alienados" e "reacionários". A aparência mudou, a narrativa também, mas a essência nem tanto. A salvação da alma, a ilustração e a luta de classes se substituíram na aparência. Uns eram missionários, outros agentes do progresso, outros, ainda, revolucionários, sob diversos entendimentos do que seja isso.

Ainda temos mais do mesmo. A intolerância, o desespero diante da alternância de poder, a demonização do outro, a autoimagem angelical de quem sente "ira santa" e percebe o sentimento do outro como ódio satânico, tudo isso vem de uma longa tradição histórica. A conversão ao materialismo histórico também foi súbita e massiva. 

Houve quem explicasse o comportamento camaleônico como decorrente da indigência teórica dos nossos intelectuais, que não sabem resistir ao proselitismo importado da Europa. O fenômeno, porém, envolve muito mais fatores.