sábado, 7 de dezembro de 2013

CONTO

UMA HISTÓRIA DE AMOR
*Por Rui Martinho Rodrigues

Renata amava Mário, que amava Lia, que amava Mário. Sim, e isso foi antes dos versos famosos. O triângulo assim formado desfez-se quando Mário casou com Lia, uma mocinha muito ingênua e recatada. Renata, moça muito desenvolta e experiente, para os padrões da época, mais conhecida como Renatinha, não se mostrou abalada.

Mário, tenente da Polícia Militar, era um sujeito muito refinado, contrastando com os seus colegas de corporação, entre os quais ainda havia muitos remanescentes dos tempos das volantes, que varavam os sertões, enfrentando cangaceiros. O tenente era um homem da cidade, dado aos livros, com acentuado gosto por literatura, principalmente poesia. Depois de umas doses, recitava sempre alguns versos de Camões e de outros bardos famosos. Também tinha muito gosto por História. Mas sua paixão maior era a bebida.

Na polícia o jovem tenente fez amizade com alguns colegas que também apreciavam o esporte de esvaziar copo. Lia, a jovem esposa, se desesperava com a bebedeira do marido. A mulher do tenente era uma mocinha ingênua e frágil, dominada por angústias. E era o tipo de pessoa que desabafa com todo mundo as tristezas que sente. As suas insatisfações com a prática esportiva do marido, campeão de levantamento de copo, não eram segredo pra ninguém.

Um sargento, da mesma corporação do tenente Mário, chegou a conversar com a jovem senhora sobre o assunto. Era um macumbeiro exímio. Garantiu que faria um “trabalho” e o maridão ia enjoar a bebida. Tinha que ser a meia noite. Tinha que ser a meia noite. Precisava de uma garrafa de cana e outros ingredientes. Dentro da Lia a mocinha ingênua e angustiada topou. Era um tempo em que havia mocinhas ingênuas, jovens senhoras sem malícia.


Uma noite em que o tenente estava como oficial de dia, no quartel, Lia e o sargento rumaram para uma encruzilhada, num subúrbio distante. Depois de muita cachaça o audacioso sargento abusou da mulher do tenente. Ao amanhecer, Lia estava bêbada, com os cabelos desalinhados e a roupa rasgada, meio desorientada, manifestando evidentes sinais de desespero.

O tenente, homem refinado, ao retornar ao lar não encontrou a jovem esposa. As horas passavam e nada de Lia. Lá pelo meio da tarde apareceu a desditosa senhora. Vinha acompanhada de um casal de velhos, moradores do subúrbio, por quem havia sido recolhida. Vestia uma roupa simples, da velhinha suburbana. Quando viu o marido chorou desesperadamente.


Dadas as explicações, Mário, homem de temperamento contido, formal, procedeu metodicamente, conforme o figurino dos tempos da brilhantina. Despachou os velhinhos, depois dos agradecimentos. Vestiu o uniforme e deu uma surra de espada na amada esposa. Depois chamou “um carro de praça”. Foi deixar a chorosa Lia na casa dos sogros. Repudiou a esposa. Dirigiu-se ao quartel e matou o sargento.

Embora o crime tenha sido praticado no interior do quartel, o tenente conseguiu evadir-se. O comandante decretou sua prisão. O oficial encarregado de prendê-lo, um tenente da sua turma na Escola de Polícia, procurou-o:

– “Macho véi”, o coronel mandou eu te prender. Onde é que a gente pode te esconder?

– Não amigo, é melhor acabar logo com isso. Vamos pro quartel. Eu me entrego.

– Não senhor. Vamos falar com o capitão Muniz. Duvido que ele concorde com isso.

O capitão Muniz, companheiro das práticas esportivas dos dois tenentes, muito bem classificado no campeonato de levantamento de copos, decidiu esconder o companheiro no sítio do pai, nos arredores da cidade. Afinal não era possível abandonar um amigo numa hora como aquela. E aquele sargento tinha que morrer, afinal, o atrevido abusou da mulher de um oficial. A coisa esfriou. Mário apresentou-se para não ser considerado desertor. Preso no quartel, passou a receber a visita do antigo amor: a Renatinha.
 
Julgado, Mário foi absolvido. E não foi sob a alegação de defesa da honra. Tendo se dirigido ao quartel, no dia da tragédia, Mário, aos gritos, com a mão na pistola, que permanecia no coldre, interpelou o sargento sobre o acontecido. Sabendo que a interpelação não era para brincadeira, o sargento desembainhou o sabre e avançou para o tenente, na presença de várias testemunhas.

O marido ofendido, por sua vez, saca da pistola e movimenta o ferrolho para engatilhar a arma. A bala “atravessa” na entrada do cano. Era uma “falha de alimentação”, na hora crucial. Não havia outra opção: o bravo tenente correu, com o sargento em seu encalço. Desenganchar uma pistola naquelas circunstâncias não é fácil. Mas o bravo tenente conseguiu, correndo ao redor de uma grande mesa, ou rodando em torno de uma coluna, conforme a versão (nenhuma tragédia tem uma só versão).

O audacioso sargento morreu e deu de presente a legítima defesa para o tenente, cuja honra havia ofendido, no tempo em que tal coisa exigia faxina com um detergente muito especial: sangue humano. Ainda mais se tratando uma personalidade formal, apreciadora de Camões e tudo mais.

Mário saiu da prisão e foi morar com a Renatinha. Não havia divórcio. União consensual era “mancebia”. Mas o casal viveu como se casado fosse, conforme a expressão forense, “more uxório”, isto é, da maneira mais respeitosa possível, durante vinte e tantos anos. Continuou a carreira na PM. Foi até major. Reformou-se como tenente-coronel. Continuou também a carreia esportiva: levantamento de copo. Veio a cirrose. A saúde do velho coronel agravou-se. Subitamente estoura a notícia: o coronel Mário voltou para dona Lia.

Quando o coronel estava morrendo, nos últimos momentos, buscou a paz com dona Renatinha, manifestando o desejo de vê-la, em sucessivos recados. Renatinha, sentindo o peso dos anos como o das mágoas, não atendeu ao pedido. Após o desenlace, Lia, com a cortesia dos casais de novela, mandou convidar Renatinha para a cerimônia fúnebre.

O convite foi rejeitado.

*Rui Martinho Rodrigues
Professor e Advogado
Presidente da ACLJ

Titular da Cadeira de n°10

RESENHA

JUSTICIABILIDADE – SUPERIOR TRIBUNAL FEDERAL

Por Vianney Mesquita*
(Sobre o livro de Antônio Colaço Martins Filho)


Descansa a dicção justiciabilidade de direitos fundamentais sociais na possibilidade de se reclamar judicialmente a garantia de tais direitos, no caso deste livro, em sede derradeira de recurso junto ao Excelso Pretório.

Assuntos dos mais preeminentes na senda prolígera do Direito é este trazido pelo Dr. Antônio Colaço Martins Filho para cotejo, aportando às opera jurídica do País contributo de peso, a fim de auxiliar na delineação doutrinária definitiva no referente aos entendimentos, muita vez equívocos, a respeito das decisões emanadas da Corte Suprema.

Importa saber, com efeito, se e de qual maneira os direitos de fundamento social assentando obrigação de fazer do Organismo Estatal são passíveis de exigência judicial.

O Dr. Martins Filho ajuntou, para colação e exame detido, 52 decisos do Máximo Tribunal, publicados de 1997 a 2009, referentes a processos petitórios de decisões de cunho mandamental, constrangendo o Executivo a aprestar condições reais para a prática dos direitos sociais a prestação.

Ao cabo de seu ensaio, restou manifesto o fato de o Forum Culmíneo do País haver protegido sob sua larga umbela a justiciabilidade dos direitos fundamentais sociais, com maior ou menor intensão, consoante maior ou menor proximidade dos direitos em relação ao valor fundamental da dignidade da pessoa humana (MARTINS FILHO,2010), tomando em conta a conformação positiva conferida pela Grande Carta de 1988 e as balizas lindeiras ínsitas nessa Constituição, bem como nela explícitas, vertidas, particularmente, nos Princípios da Reserva dos Poderes e da Reserva do Possível.

Ao compulsar este livro, tem o leitor o ensejo de apreciar, conforme o fiz com imenso aprazimento, o matemático emprego do jargão forense, fato a exigir, para sua consecução, a exata aplicação das regras e da elocução na língua de Clóvis Bevilacqua. 

Isto porquanto o autor, sobre ser distinto prelecionador do léxico jurídico, cultua, também, com inusitado apego estético, as delícias deste código no qual se expressa o titular de uma das cadeiras da Academia Cearense da Língua Portuguesa, o jurista Prof. Dr. Paulo Bonavides.

A julgar, por conseguinte, pela preeminência temática do volume, bem assim em razão do seu bem reflexionado teor, penso poder este ser adotado como referência para disciplinas dos diversos programas de pós-graduação, lato e stricto sensu, do Brasil, Portugal e demais nações lusófonas, sucesso, sem dúvidas, de honrosa elevação para as letras forenses brasileiras.
*Vianney Mesquita
(Docente da UFC, jornalista e escritor.
Titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa e da
Academia Cearense de Literatura e Jornalismo).

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

CRÔNICA

PARA UM SÓ BANQUETE
Por Paulo Maria de Aragão*

As pessoas tendem a acreditar que as coisas más só acontecem aos outros e não se desapegam dos bens transitórios, ao esquecerem que desta vida se leva apenas o que se dá. Grandes crimes da humanidade sempre foram perpetrados por tiranos, hostis à sabedoria pontificada pelos ensinamentos de Jesus Cristo. Assim, cristãos eram conduzidos ao Coliseu romano onde as feras lhes dilaceravam as carnes para o divertimento superior. Modernamente, a carnificina pode ser vista com o uso de aparelhagem sofisticada, movida pelo mesmo instinto de ferocidade.

Manifesta também é a violência na miséria, lançada pela corrupção, de propagação epidêmica, manipulada pelo “príncipe” e asseclas que dilapidam o erário conscientemente, indiferentes ao dever da boa governabilidade. Os melhores homens não vivem para construir fortunas, o que os move é a esperança de serem úteis a uma boa causa. Poderão enfrentar obstáculos, porém deixarão um nome acatado e a morte fecundará os atos de suas vidas.
Invoque-se, por tempestivo, o fim da jornada material no desfecho da peça em que Shakespeare faz Hamlet, o príncipe da Dinamarca, dizer verdades ao rei: “É possível que alguém pesque com o verme que comeu um rei, e depois coma o peixe que engoliu o verme”. Retruca, então, o soberano: “Que queres dizer com isso?”. Aquele responde: “Nada, apenas, mostrar-vos como um rei pode viajar pelas entranhas de um mendigo”. O diálogo evidencia o findar de qualquer superioridade existencial de um indivíduo sobre outro.
Desse modo, quão doloroso é conhecer a pobreza depois de uma vida na opulência! Da mesma forma, ser belo e ver passar o tempo! Esse tempo contínuo, indefinido e irreversível, que deforma o corpo num descenso inevitável. Esse tempo, que impulsiona projetos e sonhos, que levará ao esquecimento os soberbos após o velório e a missa de sétimo dia. Dá-se, assim, continuidade à jornada visceral de todos, apesar de sucessores de “príncipes” permanecerem obstinados como todo-poderosos.

Aportou-se no terceiro milênio. As práticas são as mesmas do mundo velho. A convivência social se embrutece, e a miséria mantém-se como bom negócio político. Tudo se banaliza. O assunto é a eleição e, inacreditável, cogitam-se nomes para 2018! Estarão vivos?

Descortina-se mais um Natal. Presépios expostos nos templos e nos lares. Cintilam enfeitadas e vistosas árvores. Paira no ar a evocação à decantada festa. À meia-noite de 24 para 25 de dezembro, os sinos repicam chamando os fiéis para a missa do galo, hoje restrita em função da violência. Presenteia-se quem não precisa. Em profusão, enviam-se cartões de boas-festas a destinatários tirados à toa de listas telefônicas, muitos já habitando novas dimensões.

Neste caleidoscópio de relações da sociedade tida como moderna, a ceia natalina clama reflexão por uma vida sentida e não meramente vivida. Como já dito, Hamlet surpreende o rei sobre o destino dado a Polônio: “Numa ceia? Onde?” Para dele ouvir: “Não onde come, mas onde é comido”. Certa assembleia de vermes políticos está com ele agora: o verme é o único imperador da dieta, cevamos as demais criaturas para que nos engordem, mas nós mesmos nos cevamos para as larvas. O rei gordo e o mendigo esquelético são apenas iguarias diferentes, dois pratos diversos, contudo destinados a um só banquete.

*Paulo Aragão
Advogado, professor e membro
do Conselho Estadual da OAB-CE. 
Titular da Cadeira nº37 da ACLJ

POSSE DE IVENS DIAS BRANCO

IVENS DIAS BRANCO NA ACLJ

No próximo dia 12 de dezembro, às 19:00h, no auditório da Associação Cearense de Imprensa (ACI), a Academia Cearense de Literatura e Jornalismo (ACLJ) promoverá a sua 2ª Assembleia Geral Ordinária Anual.

Durante a solenidade, tomará posse na dignidade de Membro Benemérito da entidade o empresário Ivens Dias Branco. O título de benemerência é o mais elevado laurel da ACLJ, destinado às maiores personalidades do Ceará contemporâneo.

Após a solenidade, o novo acadêmico receberá os seus confrades e os seus convidados para um coquetel no terraço do Edifício Perboyre e Silva, em que funciona a ACI.


Durante o coquetel, a empresa M. Dias Branco, que comemora 60 anos de existência sob o comando do homenageado, brindará os convivas com um show do cantor e compositor romântico cearense Evaldo Gouveia, que é membro titular da entidade – dentre outras atrações musicais.
  
Os organizadores do evento farão alugar um estacionamento coberto próximo ao local da solenidade, embora haja muitas vagas nas ruas do Centro no horário noturno, que terão seguranças particulares contratados. 

NOTA ACADÊMICA

WANDA PALHANO LANÇA LIVRO


Durante solenidade na Assembleia Legislativa do Ceará, na noite desta quarta-feira, 04 de dezembro, em comemoração aos 77 anos de fundação do jornal O Estado, a jornalista e advogada Wanda Palhano, presidente da empresa, fez o lançamento do livro “Espelho”, que reúne poesias, crônicas e artigos de sua autoria.

O livro, cuja edição foi coordenada pela minha sua e também jornalista Solange Palhano, resgata os escritos e fotos de Wanda – a “Bela Wanda”,  no dizer do seu amigo Olavo Dutra.

A autora Wanda Palhano revelou que “sempre escrevia e nunca tinha lançado um livro, apesar da vontade de fazer isso. É uma maravilha dividir com vocês aqui esse momento tão importante”.

Solange Palhano afirmou que sentia que “era meu dever fazer uma coletânea com alguns dos textos escritos por minha mãe”. Na apresentação do livro, ela revela a dificuldade de “contar as histórias de minha mãe e falar sobre elas. Primeiro porque tenho verdadeira adoração por ela e segundo porque são milhares de histórias a serem contadas.”


Wanda Palhano é Membro Benemérito da ACLJ.

CRÔNICA

CONSULTORES PADRÃO-OURO
Por Vianney Mesquita*

Desde iniciado nos misteres da escrita, quando adentrei os estudos do hoje primeiro grau e, maiormente, na antiga Escola Industrial de Fortaleza, atual Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia – IFCE, cuidei de afiançar a veracidade dos conceitos a manifestar, por intermédio, em especial, de obras de referência e de outras produções obsequiosas à consulta.

Somente depois de validadas (numa folha de periodicidade incerta, o jornalzinho Vencer), as ideias prosperavam no texto, a fim de não conduzir os, então, frugais leitores ao logro, os quais poderiam multiplicar a falácia e perpetuar a inverdade.

À proporção do progresso na recepção dos curricula, no contato mais reiterado com bons docentes (sempre os tive), usei de a eles apelar, não apenas para obtenção de seus juízos a respeito dos temas por mim cuidados, senão, também, com vistas a me indicarem fontes onde me pudesse satisfazer da curiosice e saciar o apetite de conhecer, ultrapassando a mera opinião comum.

Na Universidade – ali, sim – experimentei o lanço de deparar excepcionais professores, da dimensão, e.g., de J.C. Alencar Araripe, Wagner Turbay Barreira, Adísia Sá, Hélio Melo, Eduardo Diatahy Bezerra de Meneses, Cid Saboia de Carvalho, José Alves Fernandes, Paulo Bonavides, Sânzio de Azevedo e tantos outros, com os quais, bem mais com alguns, ainda agora estabeleço ligações amistosas, a maior parte deles com nexos à Universidade Federal do Ceará, instituição paradigmática, prima inter pares dos institutos similares no Ceará.

Granjeei outras amizades, no decurso do tempo, das quais me sirvo para proceder à similitude de antes, a esta altura, entretanto, já bastante adiantado na vida, na qualidade de consulente deles, cada qual em sua especialidade – e especialidades, porquanto para mim representam uns quase  pansofistas – pois não me deixam, nunca, com a pretensão malograda.

Não demora, nem é ocioso repetir, a ideia de consultor, configurada, na consonância de Antônio Houaiss e Mauro de Salles Villar: 1 que ou aquele que dá conselho 2 que ou aquele que tem a função de dar parecer, fornecer subsídios, sugerir, aconselhar.
 
Afora a ideação esposada na Economia como estalão-ouro, sistema monetário cujo valor da moeda do país se expressa sob o prisma legal, feita quantidade fixa de ouro correspondente (esta noção foi abandonada após a chamada Grande Depressão, quando do crack da Bolsa de Nova Yorque, em 1929), o conceito ora empregado conforma-se às apropriações da Epidemiologia e da Bioestatística em estudos de naturezas diversas no âmbito dessas disciplinas.

No léxico de tais ramos da Ciência Médica, padrão-ouro significa o teste-modelo para a comprovação por parte de outras provas, com vistas a mensurar a exatidão desses testes, em resultados assecuratórios de maior quantidade de acertos para diagnosticar o caso com a máxima certeza.

Daí, pois, a alegoria do título desta nota, conferindo-me a sorte de privar da aliança desses consultores e por eles ser bem recepcionado, fato garante da vera informação aos leitores.

O primeiro deles, sem nenhuma ordem de precedência, é o professor Myrson Melo Lima, hoje o maior nome do ensino de Língua Portuguesa no Ceará, docente ainda no chão da sala de aula, autor de vários trabalhos didáticos, aposentado da Universidade Estadual do Ceará e do IFCE-CE, pertencente ao quadro de imortais da Academia Cearense da Língua Portuguesa. Ele jamais deixou de me atender ao telefone e nunca solicitou para me responder depois. 

Acontece, assim, também, com Sânzio de Azevedo, intelectual polivalente, de quem me valho continuamente. Rafael Sânzio de Azevedo é escritor prolífico no terreno da Literatura em todos os seus gêneros, autor de mais de duas dezenas de livros, inclusive na área de Ciências da Terra, quando iniciou ainda jovem sua produção; comentarista atilado, crítico literário sobejo, docente apreciado, detentor de todos os títulos universitários de pós-graduação, além de pessoa de fino trato e autor de quem já tive a satisfação de comentar trabalhos.

Outro mestre é Rui Verlaine Oliveira Moreira, para quem apelo quando a dúvida diz respeito a temas de Latim e Filosofia. Como os demais, o dr. Rui Verlaine porta todos os títulos universitários e é autor conhecido no Brasil e fora dele com seus trabalhos de Filosofia, em vários dos sub-ramos, principalmente em coautoria com o prof. dr. José Anchieta Esmeraldo Barreto, outro eminente autor de nossas letras acadêmicas, a me socorrer, também, nos meus apuros epistemológicos, e na parceria de quem tenho no ativo fixo dois livros publicados: A Escrita Acadêmica – acertos e desacertos e Para além das Colunas de Hércules.

Eduardo Diatahy Bezerra de Meneses
O prof. dr. Eduardo Diatahy Bezerra de Meneses dispensa comentários no ecúmeno científico e cultural da Cidade (como, doutro modo, estão isentos os demais), em razão de sua assinalada presença nesse ambiente da nossa Terra. Intelectual de escol, extraordinário docente, escritor eloquente e fecundo, também depositário da totalidade de láureas acadêmicas, não só no Brasil, mas em França, também, e nos Estados Unidos. A ele indago acerca de tudo, até de curiosidades de modo geral e ele jamais me deixa sem um resultado. Devo-lhe, como exemplo de instrutor, muito da minha formação, a qual, sem inculpá-lo (é claro), traz muitos defeitos.

Vem agora, nosso Presidente, o prof. dr. Rui Martinho Rodrigues, dispensado de apresentações. Polivalente, esférico no saber das ciências, leitor não somente de livros, revistas e afins... Com três cursos de graduação e todos os programas de pós-láurea, ele é protótipo de professor, e, além de tudo, de pessoa humana insuperável no caráter, retidão e honorabilidade, particularidades também dos consultores de luxo aqui inventariados. Mais dele não expresso porque todos os do Sodalício o conhecemos sobejamente.

Por fim, vem o arquiteto prof. dr. José Liberal de Castro, com quem mantenho contato praticamente diário, a igual dos demais, com invejáveis haveres de saber, um pouco mais entrado na idade, porém de jovialidade impressionante na retentiva e no pensamento expresso. 

Não mais lhe  pergunto, para ele me deixar trabalhar, pois suas aulas por telefone são passíveis de demorar mais de uma hora, tanta informação suplementar contêm suas faustosas preleções. De tudo ao prof. dr. Liberal indago e tenho, incontinenti, os necessários esclarecimentos. Mais não refiro por conta da nossa amizade, pois podem a ela debitar exagero de fala.

É feliz, por conseguinte, o escrevinhador cujas fontes para afastar dúvidas e extirpar ignorâncias estão configuradas em pessoas tão regaladas pelo esclarecimento, eruditamente atiladas no saber.

Sou agradecido a Deus pelo fato de haver sabido procurar os bons, no tentame de me aproximar da benignidade por eles detida, na contingência das ensanchas acadêmicas e amistosas insertas nos espaços de conhecimento.

Não tarda evidenciar, por fim, o fato de ter outros consultores, muitos, entretanto, sem a recorrência dos pedidos de parecer dirigidos aos mencionados intelectuais acerca dos quais discorri.


*Vianney Mesquita
(Docente da UFC, jornalista e escritor.
Titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa e da

Academia Cearense de Literatura e Jornalismo).


ARTIGO


domingo, 1 de dezembro de 2013

METÁFORA MEDIEVAL



Uma visão Sprokiana
      Por Fernando Dantas*




Em uma terra distante, e em época longínqua, no reino de Sproke havia a união do povo. Sem distinção de casses, raças, religiões nem de ideologias. Nessa terra que terra, que servia de exemplo para outros reinos, havia ordem e respeito às funções sociais exercidas por cada sprokiano, que trabalhava feliz, em prol do bem comum.


Esse bem-estar comum a todos em Sproke gerava inveja nos governantes de outros reinos que sempre buscavam imitar os mesmos padrões. Mesmo assim não conseguiam. Isso gerava insatisfação nos reinos vizinhos devido ao bem-estar do povo de Sproke, que refletia na insubordinação dos demais povos.

Logo chegou a revolta, com as guerras. Com isto os Crokins, guerreiros de Sproke, começaram a ser treinados para defesa de seu reino. Este treinamento levou sempre a êxitos nos objetivos de defesa.  Sempre que chamados à batalha, todas as equipes de gladiadores estavam a tempo em seus postos de combate. Mas as contínuas defesas geraram nos Crokins excesso de autoconfiança, o que veio com o tempo a provocar acomodação.


Sheradin, chefe dos arqueiros da muralha, sempre se esmerou em comandar com complacência e humanismo seus subordinados, que além de eficientes eram pontuais no início. Mas em algumas situações, alguns começaram a chegar atrasados às posições de defesa da entrada de Sproke. Isto, para Sheradin, era inconcebível dentro da moral e da ética sprokiana.

Em uma tarde chuvosa do inverno do primeiro quarto do século 345, os Hasheniakes partiram para invadir Sproke e buscar seu segredo de harmonia. O percussor aquilino Eaglen, logo comunicou a Sheradin, que de pronto ordenou o toque de trombetas invocando todos seus arqueiros.

As horas passaram, a noite chegou com o brilho da lua, com apenas a companhia dos uivos do vento frio soprado do setentrião. Mas nem arqueiro chegava ao seu posto de defesa. Isto incomodou a guerreira chefe, que sempre solicitava ao seu subcomandante que avisasse sinais de possíveis ataques. O flanco de entrada, área mais vulnerável,  estava desprotegido pela ausência dos ases do arco e flecha.

A irritação foi grande para Sheradin, que, sem ouvir o som de cavalos ou guerreiros, logo adormeceu em um monte de feno. A noite passou em segundos. E logo o primeiro raio de sol aqueceu a face rosada de Sheradin. Ela acordou atordoada com um som de passos, que logo imaginou ser o inimigo.

Em posição de combate se pôs em pé e, ao invés de um inimigo, se deparou com Chooegra, seu subcomandante. Por muito pouco ele não teve a garganta cortada. Passada a tensão inicial, Chooegra foi questionado energicamente por Sheradin, porque todos os arqueiros haviam sumido, e não haviam avisado de sua ausência na entrada de Sproke.

O subcomandante, já mais calmo, explicou a Sheradin o que ocorrera. Tudo realmente estava mais calmo. Mas, após o sono da comandante dos arqueiros, a chuva voltara mais forte ainda, chegando a enxurrada a destruir a muralha sul do reino.

Com isto, em vez dos arqueiros seguirem para a entrada de Sproke, seguiram à cavalo para Demotron onde, ao se depararem com parte da muralha ao chão, notaram  que os Hasheniakes mudaram a estratégias e chegaram a pé, silenciosamente. Mas não esperaram ser dizimados pelos arqueiros que foram guiados por Eaglen, o qual estava na tropa.

Diante desse quadro, Sheradin baixou a vista, em sinal de que, reconhecia, estivera equivocada, julgando unilateralmente seus comandados, que agiram legitimamente para salvar a sua própria vida.

Isto veio a ocorrer porque Sheradin estivera a julgar todos de forma generalizada. Dentro de sua visão, ela havia distorcido os verdadeiros fatos que concorreram para o atraso da tropa de arqueiros.

*Fernando Dantas
  Jornalista e Advogado
Titular da Cadeira nº 19 da ACLJ

ARTIGO

GRATAS RECORDAÇÕES
Por Vianney Mesquita*

Jamais consigo deslembrar das minhas procedências beiradeiras, nelas inserto seu linguajar específico -- esse idioleto, quase patois, incluso na derradeira flor do Lácio, mencionada no poema decassilábico lusitano, de Olavo Bilac, Língua Portuguesa.

Eis que fui convidado pela Professora Doutora Maria Nobre Damasceno, decerto inadvertidamente, para servir como batista de O Sagrado Chão da Vida, feito escrevinhador do texto de saída.

Aqui ela incursiona pela literatura de teor narrativo, após trazer ao ecúmeno leitor estudioso das Ciências Pedagógicas dos países de código lusitânico diversos trabalhos de eminente vulto científico, na qualidade de bem recepcionada autora, docente-pesquisadora dessa grande área do saber ordenado, apreciada na ambiência acadêmica de todo o Brasil e transposta às raias nacionais.

Bastou a primeira vista d’olhos pela sua composição, em língua-prosa simples e clara e justa e agradável, em torneios bem delineados, para que me fossem clareados os depósitos da minha retenção de fatos recuados, bendita evocação de sucessos cujo repasse me entorna de nostalgia e feliz saudade de quadros da infância, adolescência e nova adultícia, influenciadores da pessoa que hoje experimento ser.

Maria Nobre Damasceno transmuda-se aqui na Maria Montessori do campo, das famílias na ambiência rural, de que coincidentemente sou parte, a fim de descrever, com a exatidão do escritor experimentado, as delícias dessa Mãe-Terra, divisada pelo historiador londrino Arnold Toynbee, as peripécias e brincadeiras pueris, os tipos humanos e suas idiossincrasias, bem assim as dificuldades de vida dos seus pais e de sua família.

Em contrapartida, relata os expedientes penosos e inteligentes como remédios para os óbices econômico-financeiros e problemas de toda sorte que costumam, ainda hoje, envolver os habitantes das glebas pastoris, ora liberais e muníficas na bonança, no entanto ferozes e excessivamente  parcimoniosas nos apuros, como sucede nos tempos de seca e de enchentes.

Malgrado debulhar o enredo da vida em família no interior do Ceará, o fato de individualizar a sua não subtrai a oportunidade de os leitores aí se retratarem. Foi o que sucedeu comigo, porquanto estas constituem ocorrências próprias da esfera rural nordestina, de sua cultura, e arraigadas nos costumes peculiares, fiéis à tradição campesina, onde pouco mudou, a despeito das grandes fulgurações da chamada “Modernidade líquida”, expressão cunhada pelo sociólogo polaco Zigmunt Bauman. Estas coincidem, exempli gratia, com a rede mundial de computadores, as novas formas (legítimas ou não) de composição dos contingentes familiares, os hábitos citadinos e comportamentos supervenientes.

Sob o prisma taxinômico, porque habituada a proceder a classificações consentâneas nos seus copiosos ensaios acadêmicos, a crônica de O Sagrado chão da vida – saga de uma família, se expressa magnificamente coordenado, por exemplo, ferindo o assunto o capítulo O baú da memória, onde,  pro rata tempore, concede vazão à narrativa, ao nomear paulatinamente seus diversos segmentos, de sorte a imprimir ordem racional e ensejadora de perfeita leitura e decodificação apropriada à história, rica em detalhes, porém deseixada de rodeios e sobejos pormenores.

No concernente à forma, a linguagem se exibe simples, entretanto correta, respeitosa às regras da Língua, e (não poderia ser diferente) fiel ao jargão interiorano, harmonizada ao léxico aí falado e escrito, fato denotativo de que se trata de pessoa habílima no ofício de escrever, mesmo inaugurando modalidade diversa daquela de seu trato universitário.

Consoante o leitor mais atilado pode alcançar, tomei tenência em não lhe furtar o hors d’ouvre da narração – refeição principal – ao desta adiantar detalhes, deixando-lhe ao talante o lance de, por si mesmo, revelar a estesia da composição e deleitar-se com os sucessos contados.


Muito me contenta levar meus emboras a essa autora de vulto da literatura pedagógica nacional, agora extraordinariamente entrada nos meandros da crônica histórico-familiar, quando traz para o clarão das nossas letras este escrito, conquanto ligeiro, de substancial recheio temático alusivo à vida na zona rural do Ceará e cuja narração, não obstante o tempo a que se refere, não perdeu, de jeito algum, sua efetividade.
*Vianney Mesquita
(Docente da UFC, jornalista e escritor.
Titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa e da
Academia Cearense de Literatura e Jornalismo).